quinta-feira, 3 de setembro de 2026


A certeza da impunidade faz relaxar na retidão, aguça a cobiça, e torna a luxúria um modo de vida. Mas um dia a "festa" acaba.

Pedro Altino Farias, 03/09/26 
 

domingo, 30 de agosto de 2026

Chico Litro, por Altino Farias - O Emprego


                            



 



Chico Litro, por Altino Farias - O Molho









Altinianas - Ser Água

 


Aos 65, ainda estou aprendendo a ser água, que desvia das pedras que aparecem pelo caminho, às vezes suavemente, outras, em turbilhão. Mesmo enfrentando esses obstáculos, a correnteza segue em frente, enquanto as pedras ficam para trás. 

Um dia eu chego lá...

Pedro Altino Farias, em 29/08/26



sexta-feira, 17 de julho de 2026

Eternidade


Se o universo está aí desde sempre, 
e na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, 
porque a consciência, o "ser", teria um fim?

Pedro Altino Farias, em 17/07/2026

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Verdade, verdura é bom demais, sim!

 

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Mago véi, o menino era só pele e osso! Ruim de garfo e bom de pegar uma infecção na garganta e uma bela de uma gripe com frequência, não havia jeito de criar marra e se fortalecer. Não era o tipo bonitinho, mas era feliz, muito feliz! Os pais sofriam pra caramba, faziam de tudo para o filho comer, mas a mesa era sempre uma tortura para ele. Não gostava de comer e ponto, porém, ninguém o entendia.

Xaropes fortificantes e para abrir o apetite eram rotina, castaniôdo e biotônico Fontoura eram titulares, com resultado zero no garfo da criança, afinal, sabe-se hoje, eram só xaropes, e o fastio seguia impune.

Refeições sempre feitas em família, cada um tinha seu lugar à mesa. Ele ficava em uma das cabeceiras, ladeado pelo pai e pela mãe. Esse foi o modo que seus pais encontraram para que, isolado dos irmãos, não se distraísse tanto durante o almoço e o jantar. Mesmo assim ele só embromava. Se carne, arroz e feijão já era quase impossível, verduras e legumes nem pensar! O que aparecia no seu prato era catado com precisão e descartado em um canto. O que lhe sustentava era o leite, o leite condensado e a geleia de mocotó Colombo. E ovos. Sua cuidadosa mãe colocava uma gema de ovo em cada copo de leite. A gema ficava inteira e boiando na superfície do leite, e ele sempre imaginava que não a conseguiria engolir. Um terror! Coitada da criança!

Mas nada como o tempo, ah, o tempo! Naquela época, um garoto de onze anos já circulava de ônibus e zanzava pelas ruas de Fortaleza sozinho. Pelo menos uma vez no mês ia ao centro da cidade para cumprir mandados de sua mãe ou para passear com amigos da rua e do colégio. A obrigatória merenda ao fim do programa era o ponto alto. Estava no início de sua puberdade, e muitas mudanças ocorreriam dali em diante. Pois bem...

Passava férias em Recife todo ano, berço da família de sua mãe. Ficava hospedado na casa que seu avô construíra, herdada por sua genitora e mais três irmãs, na qual residiam duas delas, solteiras. No início dos anos 70, o centro de Recife, com seus prédios e igrejas históricas, suas pontes, grandes edifícios, letreiros de neon, cinemas e largas avenidas eram a visão de outro mundo para ele, um mundo de progresso! E um excelente passeio, então...

Onze anos, essa era a idade, e sentia-se um rapazinho. De férias na capital Pernambucana, certo dia saiu sozinho para o centro batendo pernas, olhando vitrines, cruzando pontes, visitando grandes magazines como Mesbla e Sloper, repletos de novidades. Mas já era de tarde e a fome bateu. Chegara a hora da esperada merenda, que seus primos pernambucanos chamavam de lanche.

Escolheu uma lanchonete bacaninha, mas sem sofisticação, afinal, os dinheirinhos eram contados, e não havia espaço para luxo nem desperdício. Um cachorro quente resolveria bem a parada. Bom e barato. Fez seu pedido, junto com uma óbvia coca cola. Sem que ele soubesse, sequer imaginasse, esse pedido foi um divisor de águas em sua vida. Depois dele, tudo mudou. Explico.

Ao chegar seu pedido, deparou-se com um pão aberto ao meio, recheado de uma carne moída fumegante e muita, mas muita, mas muita verdura mesmo. Ele não sabia, mas essa modalidade variante de cachorro quente era comum em terras pernambucanas naquela época, e se o freguês quisesse com salsicha, tinha que especificar.

Mas e agora, o que fazer frente ao inesperado e intragável desafio? Com fome, sem grana para desperdiçar, sem possibilidade de separar as verduras da carne moída, só havia uma possibilidade: comer! E foi isso que fez, comeu, e para sua própria surpresa... Gostou!

Esse foi um ponto de inflexão na sua vida, o momento que separou o menino do homem. Sem perceber, ele sentiu-se mais adulto, mais responsável, e mais capaz de superar as dificuldades da vida. Desse dia em diante passou a comer de tudo, inclusive verduras e legumes fossem cruas, refogadas ou cozidas.

Dois anos depois esse rapazinho perdeu o pai. No mesmo ano tomou seu primeiro porre. Tornou-se homem e assumiu responsabilidades em casa. Aos vinte e três se formou engenheiro e começou uma vida dois. Criou bem dois filhos, e desde que começou a trabalhar, aos dezoito, não passou um dia sequer sem ter o que fazer. Mas será que mesmo que a verdura daquele cachorro quente influenciou tanto na vida dele dessa forma? Bem, se passados mais de cinquenta anos ele me contou essa história, é porque esse foi realmente um fato marcante, muito importante e decisivo na vida dele.

E convenhamos, aquele menino de onze só atestou uma verdade: verdura é muito bom, sim!

Pedro Altino Farias, em 16/07/26

sábado, 25 de abril de 2026

O Bloco da Retenção

 


O casal não perdia um Carnaval da Saudade, tradicional festa realizada pelo Clube Náutico Atlético Cearense, em Fortaleza. O evento acontece sempre no sábado magro, e esse ano de 2026 teve a sua 58ª edição. Como o nome sugere, a programação musical do evento é composta de frevos, sambas, sambas-enredo e marchinhas “das antiga”, bem tradicionais, com aquelas letras gostosas que todo mundo sabe cantar. Fantasias e blocos de amigos são bem vindos.

Com o ambiente bem decorado, os foliões recebem logo na entrada um pequeno caderno com a relação completa das músicas a serem executadas pela banda por ordem de apresentação. Três músicas que o casal adora estão sempre na lista: A Filha da Chiquita Bacana, A Turma do Funil e Bloco da Solidão, esta última de autoria de Jair Amorim e do cearense Evaldo Gouveia. Sempre que elas são  executadas, o casal deixa os papos e as biritas da mesa de amigos de lado e vai para a folia do salão.

                                 

Em determinado ano, com a festa correndo solta, ela chegou ao marido dizendo que precisava ir ao toalete. Especialmente para esses eventos é instalada uma bateria de banheiros químicos, separados por masculino e feminino, então ele disse “Vá lá!”, mas como ela estava sentindo cólicas abdominais, pediu que ele a acompanhasse, pois a questão era sólida e não líquida, e exigia um tempo maior de operação, e uma logística mais complexa, digamos assim.

Ele consultou o caderninho para ver se estava perto das “preferidas”. A Turma do Funil já havia sido executada e ainda faltavam umas tantas músicas para Bloco da Solidão e Chiquita Bacana, que estavam quase vizinhas. Ele concordou e a acompanhou até a área dos toaletes. Ela entrou num banheirinho e mais rápido do que ligeiro, saiu. “Já?”, perguntou ele estranhando a ligeireza do serviço. “Não saiu nada!”, respondeu ela. Sim, em situações assim é normal que o organismo se encabule e não cumpra suas funções.

Passado algum tempo as cólicas voltaram, e ela acionou novamente o maridão para acompanhá-la ao toalete. Caderninho consultado, faltavam duas músicas apenas para as preferidas. Então ele lhe disse: “Peraí... Aguente firme que não perco o Bloco da Solidão nem a pau!”. E foi o jeito ela segurar a barra...

Anos depois o marido teve a oportunidade de conhecer o grande Evaldo Gouveia, e em uma conversa descontraída contou-lhe esse episódio. Ele e todos que faziam parte daquela grande e farta mesa riram bastante daquela situação inusitada, e o autor de Bloco da Solidão se declarou honrado pela deferência em relação à sua música. Seguiu-se um brinde a Evaldo, ao Bloco da Solidão e à cagada que não aconteceu.

Pedro Altino Farias, em 25/04/26





quinta-feira, 16 de abril de 2026

Um dia a casa cai (Os gaiatos) - Episódio 6: Pendências

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Solteirão incorrigível, enfim, parecia ter encontrado em Glória, uma morena clara bonita e simpática, a mulher da sua vida. O romance já colecionava meses, e Glória logo se entrosou com o mulherio da turma. Certa tarde de sábado todos estavam no bar de um amigo, quando, ainda cedo da noite, o casal se despediu e partiu.

Outro casal que lá estava saiu bem mais tarde, e resolveu passar num bar antes de ir para casa. Música ao vivo, boa bebida, estava tudo bem até que o solteirão apareceu no pedaço com outra, uma moça alta, loura, vestida e maquiada com extremo bom gosto, elegante e insinuante. Logo que viu, a esposa tomou as dores da amiga. “Eu sabia! Esse cara é um safado! Tá fazendo sacanagem com a Glória!”. O marido contemporizou, argumentado que isso era problema deles e que não cabia a eles julgar. “Deixe isso pra lá e vamos aproveitar nossa noite”.

Tudo já estava tranquilo com o caso dado como resolvido, quando o solteirão resolveu vir à mesa do casal para se explicar. Disse que tinha tido um relacionamento anterior com a moça que o acompanhava, e alguns assuntos haviam ficado pendentes. Para fechar com chave de ouro, disse que seu advogado o orientou a tratar desses assuntos em local público. Honestamente, era melhor ter ficado calado, afinal, não dá para acreditar que tratavam de assuntos litigiosos às onze horas de uma noite de sábado, num dos bares mais movimentados da cidade, barulhento e lotado, ele todo arrumado e cheiroso.

A mulher seguiu a opinião do marido e deixou o ocorrido para lá, mas na segunda feira metade da cidade dava conta da presença dele naquele bar com a moça elegante. Na terça, a outra metade tomou conhecimento. Talvez o “manto da invisibilidade” tenha caído sobre ele naquela noite, talvez, mas não funcionou e o fato é que... A casa caiu!

Pedro Altino Farias, em 16/04/26

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Um dia a casa cai (Os Gaiatos) - Episódio 5: OPS!

 

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Comentário do autor: 
"OPS" é baseada em fatos reais, e a quinta da série "Um dia a casa cai (Os Gaiatos)". As ideias dessa crônica e das outras da série são até boas, mas não tentem fazer igual, porque... Um dia a casa cai!

Solteiro, tranquilo, namorador, tinha um emprego apenas razoável. Certa época, tinha duas fixas. Garotas “de família”, como se dizia antigamente, que poderiam perfeitamente ser efetivadas como esposa. Obviamente, uma não sabia da existência da outra, e vice e versa.

Mas como as despesas de motel para os momentos íntimos são altas, tentava controlar os gastos e sempre levava oito latas de cerveja para serem consumidas durante, as quais colocava no frigobar da suíte para manter a temperatura, tendo o cuidado de não ultrapassar a cota. Porém, certa vez lhe cobraram uma lata de cerveja ao encerrar a conta. Ele pagou, para não fazer confusão, mas ficou intrigado, pois tivera o cuidado de não beber além do seu limite.

Passaram-se umas duas semanas do episódio quando, numa freada brusca, uma lata de cerveja lacrada rolou até seus pés, deduziu que naquele dia realmente bebera somente as oito, só que uma das que levara havia se desgarrado das demais e ficado debaixo do banco do carro, daí consumiu uma do motel. A cobrança foi justa!

Encontro marcado com uma delas, quando a moça entrou no carro ele foi logo contando: “Sabe aquela cerveja daquele dia? Pois é... A conta do motel estava certa, a lata estava aqui no carro!”. “Que cerveja? Que dia? Que motel?”, inqueriu ela, inocente, curiosa e já furiosa. Ops! Namorada errada! Ele tentou explicar, mas só fez complicar ainda mais a situação, então ela o interrompeu, sentenciando: “Eu não quero saber de mais nada! Me leve para casa, por favor!”. E foi assim que, por conta de uma mísera lata de cerveja ... A casa caiu!

Pedro Altino Farias, em 10/04/26



quarta-feira, 1 de abril de 2026

Um dia a casa cai (Os Gaiatos): Episódio 4 - A Encomenda

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Comentário do autor: 
"A Encomenda" é baseada em fatos reais, e a quarta da série "Um dia a casa cai (Os Gaiatos)". As ideias dessa crônica e das outras da série são até boas, mas não tentem fazer igual, porque... Um dia a casa cai!

Anos noventa, aquele barzinho recebia amigos no fundo do quintal para um sambinha informal. Era só a “tchurma” e seus convidados, e a casa não interferia nessa brincadeira. Violões, sete cordas, cavaquinhos, tamborins, pandeiros, vozes masculinas, femininas, brincadeiras, biritas.

Aí um dia chegou um convidado que vamos chamar aqui de Maestro, contando então uns cinquenta. Veio com um teclado e uma moça muito bonita, morena clara, cabelos castanhos e cacheados, e com um vestidinho vermelho insinuante. De chamar atenção. Chegou, abancou-se numa ponta da grande mesa e começou a tocar. Lá pelas tantas o Maestro disse que iria na rodoviária buscar uma encomenda e logo voltaria, como de fato ocorreu. Voltou e continuou a tocar, morena agarradinha a ele.

Algum tempo depois de seu retorno, chegou no bar uma mulher baixota, meio gorda, cabelos castanhos por repintar partidos ao meio, trajando vestido simples, perguntando ao dono do bar se o Alfredo estava lá. Casado, Alfredo era o sete cordas titular da “thurma” e não perdia um sábado sequer, mas se acompanhava sempre da Katy, sua namorada, uma excelente voz por sinal. Sabendo disso, por uma questão de solidariedade masculina, o dono do bar hesitou em confirmar sua presença, mas, como a entrada no ambiente era livre, não tinha como negar. “Está, sim!”, respondeu com uma voz miúda e temerosa.

A mulher entrou para o quintal pelo acesso lateral e, imediatamente, a moça de vermelho saiu correndo por dentro do bar, atravessando cozinha e salão como um raio de luz. O dono estranhou aquilo, mas logo a mulher veio dar explicações junto com pedidos de desculpas. Ela passava a semana trabalhando numa cidade do interior, retornando no sábado, ou seja, a “encomenda” que ele foi buscar era ela, que trouxe consigo um bom peso de carne fresca comprada “no preço” para abastecer a família durante a semana. 

Na ânsia de voltar ao bar, o Maestro esqueceu a carne no porta malas do carro, motivo pelo qual ela se pôs a ligar para um e outro conhecido para saber o paradeiro do marido e salvar a carne, trazida com tanto zelo e carinho, sendo informada que o maridão estaria em companhia do 7 cordas Alfredo. Ao chegar ao bar indicado, deu de cara com a cena: o Maestro tocando e a morena aconchegada coladinha ao seu lado. A mulher não contou pipocas, pegou uma cadeira para dar nele, mas, ao levantá-la, tropeçou e caiu de costas, e uma tragédia ainda maior foi evitada.    

Pois é, e foi assim, por um punhado de carne... A casa caiu!


Pedro Altino Farias, em 01/04/26

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Um dia a casa cai (Os Gaiatos): Episódio 3 - Perfume de Mulher

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Comentário do autor: 
"Perfume de Mulher" é baseada em fatos reais, e a terceira da série "Um dia a casa cai (Os Gaiatos)". As ideias dessa crônica e das outras da série são até boas, mas não tentem fazer igual, porque... Um dia a casa cai!

Era um namorador incorrigível. Com o tempo desenvolveu uma técnica para resolver o problema da incompatibilidade de perfumes. Simples: logo que arranjava uma nova namorada, presenteava-lhe com um frasco de perfume idêntico ao que sua mulher usava. Bingo! Mais um gênio surgia!

O sistema funcionou bem por um bom tempo, mas... A mulher dele mudou de perfume, e ele, simplesmente, não percebeu. Ah!

Certa tarde, saiu do trabalho mais cedo, como fazia com certa frequência, e foi brincar nos braços da namorada de então. Chegou em casa, com aquele ar de cansado, porém, perfumado, e a mulher logo estranhou, mas ele argumentou que esse era o perfume dela, e que ele mesmo o usara antes de sair, pois gostava mais desse do que o dele próprio. “Mas meu perfume acabou faz duas semanas e estou usando o que a mamãe me deu!”, argumentou a sem sorte. E foi aí que... A casa caiu!

Pedro Altino Farias, em 26/03/2026


sexta-feira, 20 de março de 2026

Um Dia a Casa Cai (Os Gaiatos): Episódio 2 - O Viajante

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Comentário do autor: 
"O Viajante" é baseada em fatos reais, e a segunda da série "Um dia a casa cai (Os Gaiatos)". As ideias dessa crônica e das outras da série são até boas, mas não tentem fazer igual, porque... Um dia a casa cai!

Naqueles anos pré internet, um representante comercial fazia roteiro de visitas a clientes pelo interior do estado mensalmente. A rotina se repetia sem problemas até que ele arranjou uma namorada, e as ideias para encontrar uma oportunidade para dar uma fugida com ela começaram a surgir.

Certo dia, agraciado por forte inspiração, bolou um plano fantástico. Organizaria sua rotina de forma a poder folgar por uns três dias, simularia um defeito no carro na véspera de uma viagem “inadiável”, e faria seu roteiro de buzão. A mulher o deixaria na rodoviária na partida, e o apanharia quando de seu retorno. A grande sacada era que o indivíduo saltaria do ônibus na saída da cidade, em local onde a feliz namorada o aguardaria para passarem esses dias juntinhos, só no love! No retorno se daria o inverso, ele tomaria o ônibus na entrada da cidade, desembarcando na rodoviária, onde a esposa o aguardaria. Diariamente daria notícias de onde estava e como corriam as coisas, como de costume. Perfeito, simples, genial!

Porém, o ônibus no qual embarcou naquela noite fatídica não chegou ao seu destino. Numa curva perigosa o motorista perdeu o controle do veículo, que desceu uma ribanceira. O acidente fez várias vítimas com ferimentos de leves a graves. O acontecimento foi notícia cedo da manhã em telejornais locais, rádio e jornal. A esposa ficou doida do juízo atrás de notícias do marido e nada! O pânico se abateu sobre ela. Ficou desorientada sem saber a quem recorrer, dando como certa a morte do marido, mas lá pelo meio dia...

Eis que o artista liga para casa de um telefone público alegre e faceiro para dar notícias à esposa. Quando ela atendeu à ligação, ele, ansioso, foi logo falando as boas novas: a viagem foi ótima, chegou cedo, já visitou um cliente e fechou uma boa venda! Foi aí que... A casa caiu!

Pedro Altino Farias, em 20/03/26

sexta-feira, 13 de março de 2026

Um Dia a Casa Cai (Os Gaiatos): Episódio 1 - Dose Dupla

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"Dose Dupla", é baseada em fatos reais, e a primeira da série "Um dia a casa cai (Os Gaiatos)". As ideias dessa crônica e das seguintes são até boas, mas não tentem fazer igual, porque... Um dia a casa cai!

Tinha algumas camisas em duplicatas. Enquanto uma ficava oficialmente em seu guarda roupas, sua cópia jazia no porta malas do seu carro para alguma “eventualidade”. E ele saía por aí sem se importar com manchas de batom ou cheiro de perfume. Quando dava a farra por encerrada, trocava a camisa “bichada” por uma igual, zerada, retirada do porta malas do carro, antes, porém, dava uma amassada de leve nela para conferir-lhe um ar de usada. Ele se achava um gênio por ter inventado esse esquema, e gabava-se contando aos amigos de sua genialidade com orgulho. 

A ideia era boa e por um tempo funcionou bem, um dia, porém, o que era solução se transformou em problemão, pois a bateria do carro de sua mulher amanheceu descarregada. Ela estava atrasadíssima, e ele, ainda na cama de ressaca, disse-lhe: “Vá no meu e deixe o seu aí que eu resolvo mais tarde”. Logo no instante seguinte se tocou: “Putz, me lasquei!”. Mas aí já era tarde, e a vaca já estava atolada no brejo, porque durante o dia a esposa precisou guardar algumas compras no porta malas e... A casa caiu!

Pedro Altino Farias, em 13/03/26



sexta-feira, 6 de março de 2026

Ensinando a comer caranguejo

Meados da década de 80, mês de dezembro, meu irmão mais velho, que à época residia em Belém, estava de férias na capital alencarina, hospedado na casa de nossa mãe. Aparentemente sério, lança mão de muita sutileza e fina ironia para sacanear os amigos. Esse seu período de férias coincidiu com a vinda de um gaúcho, então casado com uma prima nossa radicada em Porto Alegre há anos. Ele veio participar de um congresso de sua área profissional e resolveu ficar o fim de semana para aproveitar mais a cidade e nossa companhia.

Entre "bahs" e "tchês", as conversas com o “primo” se davam sempre sobre o ponto certo do chimarrão, cortes nobres de carne e o jeito gaúcho de fazer churrasco. E tome a falar das tradições da região, da origem do povo e da excelência do padrão de vida deles. Quando começávamos a falar das coisas boas do Nordeste, ele cortava e fazia logo uma comparação com as coisas de lá. Um ciço, como se diz aqui no Ceará. Então...

Convidamos o gaúcho para saborear uns caranguejos na tarde do sábado no Chico do Caranguejo, uma barraca da Praia do Futuro, em Fortaleza, que começava a ficar famosa exatamente pelos seus caranguejos, sempre preparados com capricho. Ele não tinha familiaridade alguma com os “peludos”, então, meu irmão assumiu a função de ensiná-lo como degustar a iguaria, e logo começou seu “tutorial” ao vivo e a cores. Pedimos a primeira bacia com uns cinco bichos bem graúdos e apetitosos, àquela época servidos num caldo ralo e amarronzado, nada gourmetizado.

Meu irmão começou pelas patinhas pequenas, comendo a papa pelas beiradas, como se diz no popular. “Primeiro você parte assim e depois chupa. Se a carne não sair, aí você dá uma batidinha de leve com o pauzinho”, ensinou. “Agora é a vez da patona. Batendo assim, a carne sai inteirinha!”, demonstrou ao gaúcho, deixando-o com água na boca.

Até esse momento tudo ia bem. Era meu irmão demonstrando, o gaúcho fazendo igual, e eu assistindo a marmota para ver aonde ia dar, enquanto apreciava aquelas delícias. As cervejas e cachaças corriam soltas, e o papo também. 

O gaúcho já se sentia um verdadeiro expert na arte de comer caranguejos, quando meu irmão disse: “Agora vamos comer a ‘cabeça’ e depois preparar o casquinho”. Então ele retirou a carapaça do bicho, deixando-a de lado e ensinou: “A gente limpa aqui...”, referindo-se às brânquias do bicho, que fazem as vezes de pulmão, “... e lava no caldo”. O primo começou a não gostar da estória, mas continuou fazendo igual... Então, só de sacanagem, meu irmão deu a dica de ouro, que fez toda a diferença: “Aí você prova. Se estiver amargando, é porque ainda tem merda, aí você lava mais um pouco e...”. Ficamos só nesses cinco primeiros caranguejos mesmo, porque o gaúcho travou, não tomou mais um gole de cerveja sequer, e, sacrilégio, dispensou até a sagrada saideira! Um saco! 

Pedro Altino Farias, 06/03/26

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A Classe é Unida!

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Estatura mediana, branco, cheinho e bonachão, Gilvan era vendedor técnico de uma multinacional com filial em Recife, e fazia, de Fusca, a praça de Pernambuco e dos estados vizinhos: Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí. Todo mês era a mesma rotina, uns tantos dias viajando e uns poucos em trabalho administrativo na filial. Essa rotina permitia ao vendedor viajante criar vínculos de amizade com o pessoal dos hotéis, postos de combustível, e bares e restaurantes principalmente. Também fazia amizade com viajantes de ouros ramos de atividade que cobriam a mesma região. Estávamos em meados dos anos 80, em tempo de comunicação à distância cara e restrita, então, esse roteiro era um passeio de liberdade quase total.

Certa vez, em uma cidade da Paraíba, sua última parada antes de retornar à base, foi à uma boate de quinta só para ver o movimento. Montila vai, Montila vem, Gilvan se engraçou com uma garota, aproximou-se dela e rolou um papo legal. Lá pelas tantas ela o convidou para irem a um lugar mais reservado. Ele topou, e foram para a quitinete onde ela morava, providencialmente perto da boate, e o romance entrou pela madrugada. Enamorado, já fazia planos para vê-la novamente na sua próxima passagem pela cidade, mas, ao se aprontar para sair, ela lhe cobrou o cachê. Decepção! Pensava que a moça havia realmente se interessado por ele, nunca imaginou que ela era, na verdade, uma profissional do sexo! Indignado, ferido em seu orgulho e sentindo-se traído, negou-se a pagar o programa. Discutiram seriamente, e ele acabou sendo expulso do apê da garota com ela lhe xingando aos gritos de xexeiro, vagabundo, aproveitador, fdp e tal.

Mas, como diz o ditado, nada está tão ruim que não possa piorar... Na manhã seguinte, em seu quarto de hotel, com sua autoestima em baixa, sentiu um ardor ao urinar. Assustado, retardou um pouco sua partida de volta para casa, porém, sua suspeita se confirmara: estava com uma baita de uma gonorreia, grande terror do macharal naquela época pré AIDS. Primeiro bateu-lhe um desespero. Depois achou sacanagem uma moça tão bonitinha passar uma doença dessa para ele, e achou que fizera bem não pagar o programa, mas agora, o que fazer? Depois de mais de dez dias ausente, chegando em casa a mulher esperava uma atenção especial dele, mas... Como evitá-la sem que ela desconfiasse?

Sem poder retardar mais seu retorno, pensou detidamente em numa solução para o seu problema durante o percurso na estrada, e resolveu abrir o jogo com o chefão, o sisudo gerente da filial, Gérson Azevedo. A distância entre os dois era de anos-luz. Nessa época, seu Gérson era uma autoridade na empresa. Trabalhava de paletó, como era usual para alguém de sua posição, e tinha ligação direta com o presidente da companhia. Alto, esguio, grisalho, sério, de poucas palavras, extremamente profissional e competente. Já o pessoal de campo era, por natureza, e exigência da função, comunicativo e informal, embora o cargo impusesse respeito naqueles tempos de escassas opções e mercado dominado por poucos.

Chegou na filial, entregou a prestação de contas e dirigiu-se à secretária do chefão pedindo que ele o recebesse. Sisudo, sim, mas sempre educado e solícito, seu Gérson o recebeu. Gilvan suava e tremia, mas não tinha jeito, seu Gérson era seu último recurso. Contou seu drama, evitando detalhes vexatórios, sendo ouvido detidamente pelo chefe. Ao término da narrativa seu Gérson ficou em silêncio por alguns momentos, suspense total, momentos que pareceram séculos, e deu-lhe a sentença: “Você vai ter que viajar de novo, imediatamente! Vá em casa somente para dar um alô à esposa, pegar roupas limpas e diga que vai ter que viajar imediatamente por ordem direta minha. E venha para combinarmos seu roteiro e tratamento. E só me volte aqui quando estiver bom!”, determinou com veemência.

Alívio! Esperava que o gerente lhe desse uma mão, mas não sem antes ouvir um sermão daqueles. Nunca Gilvan quis tanto viajar, ficar longe de casa. De fato, só voltou quando a situação estava sob controle para a felicidade de todos. Um agradecimento especial ao seu gerente se fez necessário, mas o chefe o surpreendeu novamente, pois recebeu Gilvan não apenas como funcionário, mas também como homem e amigo. Foi um agradecimento de homem para homem. É... A classe é unida!

Pedro Altino Farias, em 04/02/26


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Uma Agulha num Palheiro



Eles adoram a Lua. Nova, crescente, cheia ou minguante, não importa, para eles é sempre poesia. Certa vez o calendário se fez generoso com a Lua cheia ocorrendo numa noite de sábado, então, não perdeu tempo, combinou com a mulher amada, cúmplice e companheira de todas as horas para passarem o fim de semana numa praia onde têm pequena casa.

Praia frequentada por gente simples, barracas animadas, casas sem luxo nem ostentação: tudo ali é a cara deles. Ratos de praia, chegaram no fim da manhã, organizaram os mantimentos e as bebidas, e correram para o mar. De tarde, um rango generoso e um breve cochilo. Depois, cortando a areia frouxa com os pneus do valente buggy, foram até uma pequena duna de onde poderiam contemplar o pôr do Sol. Em seguida, desceram para o mar naquela hora mágica que não é mais dia, mas a noite ainda não chegou. Silêncio, maré mansa, um deserto à beira mar. Romance!


Vencido o pôr do Sol, pegaram o buggy e foram até a barraca que frequentam habitualmente, bem no centro da vila de pescadores, para assistirem ao espetáculo da Lua despontando do oceano, no horizonte. O céu estava claro, sem nuvens. A maré, baixa, somente murmurava, fazendo coro com uma leve brisa. A barraca fecha à tardinha, mas, com a permissão do dono, eles pegaram duas cadeiras de madeira e as arrastaram até a beira mar. Uma cachacinha, cervejas e petiscos frios completaram a cena. Tudo seria perfeito. E foi! A lua despontou deslumbrante e bela! A água do mar estava mornamente convidativa a ficar mais, e a ausência de outros seres humanos por perto permitia um romance ousado, para não dizer, explícito.


Passado o momento, com a Lua já a meio quadrante e a maré subindo, resolveram voltar para casa. Recolheram os pertences e a vontade de ficar, arrastaram as cadeiras de volta ao lugar onde as encontraram, e tudo seguiria assim, perfeito, porém, ao chegar no buggy, cadê a chave do carro? Procuram, procuraram e nada. Havia a possiblidade de, no meio do pega daqui, alisa dali, a dita cuja ter caído na areia da praia. Ou pior, ter se perdido no percurso do buggy até a praia, ou da praia até o buggy. Vixe, e agora?


Raciocinaram na calma e resolveram primeiro procurar no local onde fizeram pouso. Eles se deram conta de que, arrastando as cadeiras, haviam deixado marcado o lugar onde estavam, mas a maré estava subindo rapidamente, então, já escuro, contando com o auxílio da lanterna do aparelho celular, voltaram depressa à cena do crime. Chegando lá, delimitaram uma área ao redor de onde ficaram, e puseram-se de quatro a ciscar a areia, fazendo dos dedos garfos de ciscador. Para quem não sabe, as chaves desses carros mais antigos eram chaves simples, cor de metal, sem fazer volume. Ela estava solitária num chaveiro tipo gancho, também de metal branco. O simples do simples, que complicava a procura, mas, num golpe de sorte, como quem acha uma agulha num palheiro, encontraram! Alívio!


De volta para casa, uma gelada e uma cana para comemorar, um banho para tirar o sal, e uma rede na varanda para rir da história e... Começar outra história. Ao despertarem no meio da madrugada, e antes de pegar no sono novamente, relembraram aquele dia como se fosse um dia de há muito tempo, e deram risadas cúmplices e também graças por todos aqueles bons momentos vividos e pelo fato de a rede onde estavam não ter desabado horas antes, no momento errado...  Então, ele olhou-a com ternura, fez-lhe um carinho e alertou: “Vamos ter cuidado, porque só se acha uma agulha num palheiro uma vez na vida!”. E dormiram um bom sono, o sono dos amantes, que poucos conhecem de verdade.


Pedro Altino Farias, em 23/02/26

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O JURAMENTO QUE NUNCA FIZ

 

"Dispensado da prestação do Serviço Militar Inicial, por força de disposições legais e consciente dos deveres que a Constituição impõe a todos os brasileiros para com a Defesa Nacional, prometo estar sempre pronto a cumprir com minhas obrigações militares, inclusive a de atender a convocações de emergência e, na esfera de minhas atribuições, dedicar-me inteiramente aos interesses da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderei com o sacrifício da própria vida".

Meu saudoso pai admirava a carreira militar, embora não tivesse a menor vocação para segui-la. Formou-se arquiteto e teve uma brilhante careira, embora breve. Tenho um irmão, seis anos mais velho que eu, cujo sonho era ser piloto de avião... Civil. Ele conquistou seu brevet de piloto privado aos dezessete anos, antes mesmo da habilitação para conduzir veículos. Esse brevet deu-lhe o direito de, além de não prestar serviço militar, que então era obrigatório, passar para a reserva como oficial piloto da Força Aérea. 

                                            
                           PAPAI                         FÁBIO (SEGUNDO DA ESQUERDA PARA A DIREITA)    
                        
Ele também admira as armas, mas, assim como meu pai, não tem a menor aptidão para a vida na caserna. Meu irmão mais novo, por sua vez, cultivou uma hérnia com carinho por alguns meses, tempo suficiente apenas para obter sua justificada dispensa. E eu? O que faria?

Não fugindo à tradição da família, achava bacana aquelas fardas, as solenidades e a bravura em tempos de guerra, mas preferia cabelos ao vento e uma relativa rebeldia, que não combinavam nada com a disciplina militar. Quando papai faleceu, eu contava apenas treze anos. Ele era muito reservado, tinha poucos amigos, e sua família saiu toda do Ceará para residir em outros estados. Todos meus tios e tias por parte de mãe, por sua vez, eram naturais de Recife, assim com a mamãe. Ou seja, eu era um adolescente sem parentes importantes, sem um padrinho ou familiar que pudesse interceder por mim na hora do serviço militar, que se aproximava rapidamente.

Chegou o ano do fatídico do alistamento: 1978. Obviamente eu buscava uma dispensa, mas fazer o que? O desespero já batia à minha porta, quando, tomando umas cervejas com o Márcio Braga, meu vizinho e melhor amigo à época, mais velho que eu cerca de um ano meio, e que já passara por essa situação, sugeriu-me uma solução: eu me alistar no município de Jaguaruana, onde seu avô residia, e sua família tinha fazenda produtiva, além de uma fábrica de redes, tradição da cidade. Alistando-me lá seria dispensado na hora por não haver unidade militar na região onde eu pudesse servir. “Rapaz, isso não dá certo!”, ponderei. Ele disse que não havia erro, era só me alistar com o endereço do avô dele e fim!

Saímos de Fortaleza numa tarde de sexta, propositadamente, para não perdermos aula. Chegamos ao destino à tardinha, e nos hospedamos num sótão empoeirado, na casa do avô dele. Jogamos as mochilas no chão e fomos direto tomar umas no bar que ficava bem defronte à casa, na esquina de uma grande praça. O posto de alistamento ficava do lado oposto do logradouro, em um prédio da prefeitura. A gente tomaria umas rapidinho e depois ele iria comigo para eu, finalmente, me alistar. Porém...

CASA DO AVÔ

Na radiola do bar tocava a música “Eu quero ter um milhão de amigos”, do Roberto Carlos, a conversa estava boa, e as doses de cachaça se sucediam. E tome “Um milhão de amigos” na radiola repetidas vezes, quando percebi que já estava escuro, e a prefeitura, de portas fechadas! Êita, que bobeira, pensei! “E agora?”, perguntei ao meu amigo. Ele me pediu calma, pagamos nossa despesa e fomos a pé até a casa do funcionário da prefeitura responsável pelo alistamento, um certo João da Paz, que ficava por trás da casa do avô dele.

PRÉDIO ONDE FUNCIONAVA O BAR 

Ao chegar lá, batemos palmas ao portão e fomos prontamente atendidos. Meu amigo explicou o problema, o sr. João apanhou um molho de chaves, e fomos caminhando juntos e em silêncio até àquele prédio da prefeitura. Lembro do escuro das ruas, e do barulho que o molho de chaves, preso ao cós das calças dele, fazia com o andar. Tudo meio sinistro para um assustado, tímido e inseguro garoto de dezessete.

PORTA DE ACESSO À SALA DE ALISTAMENTO NA PREFEITUTA

Chegando ao prédio, o sr. João da Paz abriu uma porta lateral que dava acesso praticamente direto à sua sala. Preencheu os formulários devidos, colou meu retrato 3x4 de paletó no documento, carimbou meu dedão e estava feito! Feliz da vida, voltamos ao bar para comemorar, onde ainda tocava “Um milhão de amigos” sem parar, e a noite foi longa. O domingo também.

Minha dispensa do serviço militar não foi nobre como a do meu irmão mais velho, nem tão necessária quanto a do meu irmão mais novo, mas fui dispensado, isso era o que interessava. Tinha pressa de viver, concluir o curso superior e começar minha vida produtiva. Nunca voltei para fazer o obrigatório juramento à bandeira para sacramentar a dispensa. 

Em 2011, contando exatos cinquenta anos, precisei tirar meu passaporte para fazer uma viagem de férias ao exterior com a Gorette, mulher, cúmplice e companheira, e fiquei apreensivo, pois não havia feito o juramento à bandeira, e o único documento que tinha era o CAM, Certificado de Alistamento Militar, ao meu ver, insuficiente. Ao comentar meu receio com aquele meu irmão mais velho, agora comandante sênior de voos internacionais, ele me tranquilizou afirmando que a exigência era dispensada para os que tinham mais de quarenta e cinco anos. “Tem certeza?”, preguntei. “E tu achas que vão te querer numa guerra para que, com pressão alta, coluna e joelhos lascados? Tu vais é dar trabalho!”. Diante de tão robusto argumento, ele me convenceu.

Em 2013 fiz outra viagem de férias, esta pelo interior do nosso Ceará, com minha companheira de todas as jornadas. O roteiro foi insólito e ambicioso: percorrer o perímetro do estado. Saímos de Fortaleza em direção oeste até Camocim, subimos a Serra Grande, descemos em direção sul pelo Ipu, fomos a Tauá, percorremos todo o Cariri em direção leste, e subimos, rumo norte, pelo Icó, Orós e Nova Jaguaribara. Antes de seguir para a praia de Canoa Quebrada, em Aracati, litoral leste do estado, demos uma esticada de uns quinze quilômetros fora do roteiro original para visitar... Jaguaruana. 

ROTEIRO DA VIAGEM

Chegamos lá por volta do meio dia, e viajei no tempo. O prédio da prefeitura continua lá, e a portinha lateral que o sr. João da Paz abriu, também. A praça estava, obviamente, bem diferente. A casa do avô do meu amigo se transformou numa lanchonete, e na esquina onde era o tal bar dos “Um milhão de amigos”, sacrilégio, agora funcionava uma farmácia!

Aproveitamos a breve passagem lá para comprarmos boas redes, e despedi-me de Jaguaruana com um olhar fotográfico para memorizar o momento. As boas lembranças de outros tempos são muito importantes para mim e continuam vivas na minha história, tanto que as estou compartilhando com vocês agora... E ainda guardo com cuidado meu CAM, quem sabe eu ainda precise dele um dia, né?

Pedro Altino Farias, em 31/01/2026