sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O JURAMENTO QUE NÃO FIZ

 

"Dispensado da prestação do Serviço Militar Inicial, por força de disposições legais e consciente dos deveres que a Constituição impõe a todos os brasileiros para com a Defesa Nacional, prometo estar sempre pronto a cumprir com minhas obrigações militares, inclusive a de atender a convocações de emergência e, na esfera de minhas atribuições, dedicar-me inteiramente aos interesses da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderei com o sacrifício da própria vida".

Meu saudoso pai admirava a carreira militar, embora não tivesse a menor vocação para segui-la. Formou-se arquiteto e teve uma brilhante careira. Tenho um irmão, seis anos mais velho que eu, cujo sonho era ser piloto de avião... Civil. Ele conquistou seu brevet de piloto privado aos dezessete anos, antes mesmo da habilitação para conduzir veículos. Esse brevet deu-lhe o direito de, além de não prestar serviço militar, que então era obrigatório, passar para a reserva como oficial piloto da Força Aérea. 

                                            
                                         PAPAI                         FÁBIO (SEGUNDO DA ESQUERDA PARA A DIREITA)    
                        
Ele também admira as armas, mas, assim como meu pai, não tem a menor aptidão para a vida na caserna. Meu irmão mais novo, por sua vez, cultivou uma hérnia com carinho por alguns meses, tempo suficiente apenas para obter sua justificada dispensa. E eu? O que faria?

Não fugindo à tradição da família, achava bacana aquelas fardas, as solenidades e a bravura em tempos de guerra, mas preferia cabelos ao vento e uma relativa rebeldia, que não combinavam nada com a disciplina militar. Quando papai faleceu, eu contava apenas treze anos. Ele era muito reservado, tinha poucos amigos, e sua família saiu toda do Ceará para residir em outros estados. Todos meus tios e tias por parte de mãe, por sua vez, eram naturais de Recife, assim com a mamãe. Ou seja, eu era um adolescente sem um padrinho ou familiar que pudesse interceder por mim na hora do serviço militar, que se aproximava rapidamente.

Chegou a ano fatídico: 1978. Obviamente eu buscava uma dispensa, mas fazer o que? O desespero já batia à minha porta, quando, tomando umas cervejas com o márcio Braga, meu vizinho e melhor amigo, mais velho que eu cerca de um ano meio, e que já passara por essa situação, sugeriu-me uma solução: eu me alistar no município de Jaguaruana, onde seu avô residia, e sua família tinha fazenda produtiva, além de uma fábrica de redes, tradição da cidade. Alistando-me lá seria dispensado por não haver unidade militar na região onde eu pudesse servir. “Rapaz, isso não dá certo!”, ponderei. Ele disse que não havia erro, era só me alistar com o endereço do avô dele e fim!

Saímos de Fortaleza numa tarde de sexta, propositadamente, para não perdermos aula. Chegamos ao destino à tardinha, e fomos nos instalar na casa do avô dele, na qual nos instalamos numa espécie de sótão empoeirado. Jogamos as mochilas no chão e fomos direto tomar umas num bar que ficava bem defronte à casa, na esquina de uma grande praça. O posto de alistamento ficava do lado oposto da praça, em um prédio da prefeitura. A gente tomaria umas rapidinho e depois ele iria comigo para eu, finalmente, me alistar. Porém...

CASA DO AVÔ

Na radiola do bar tocava a música “Eu quero ter um milhão de amigos”, do Roberto Carlos, a conversa estava boa, e as doses de cachaça se sucediam. E tome “Um milhão de amigos” na radiola repetidas vezes, quando percebi que já estava escuro, e a prefeitura, de portas fechadas! Êita, que bobeira, pensei! “E agora?”, perguntei ao meu amigo. Ele me pediu calma, pagamos nossa despesa e fomos até a casa do funcionário da prefeitura responsável pelo alistamento, um certo João da Paz, que ficava por trás da casa do avô dele.

PRÉDIO ONDE FUNCIONAVA O BAR 

Ao chegar lá, batemos palmas ao portão e fomos prontamente atendidos. Meu amigo explicou o problema, o sr. João apanhou um molho de chaves, e fomos caminhando juntos e em silêncio até àquele prédio da prefeitura. Lembro do escuro das ruas, e do barulho que o molho de chaves, preso ao cós das calças dele, fazia com o andar. Tudo meio sinistro para um assustado, tímido e inseguro garoto de dezessete.

PORTA DE ACESSO À SALA DE ALISTAMENTO NA PREFEITUTA

Chegando ao prédio, o sr. João da Paz abriu uma porta lateral que dava acesso praticamente direto à sua sala. Preencheu os formulários devidos, colou meu retrato 3x4 de paletó, carimbou meu dedão e estava feito! Feliz da vida, voltamos ao bar para comemorar, onde ainda tocava “Um milhão de amigos” sem parar, e a noite foi longa. O domingo também.

Nunca voltei para fazer o obrigatório juramento à bandeira para sacramentar a dispensa. Em 2011, contando exatos cinquenta anos, precisei tirar meu passaporte para fazer uma viagem de férias ao exterior com a Gorette, mulher, cúmplice e companheira, e fiquei apreensivo, pois não havia feito o juramento à bandeira, e o único documento que tinha era o CAM, Certificado de Alistamento Militar, ao meu ver, insuficiente. Ao comentar meu receio com aquele meu irmão mais velho, agora comandante sênior de voos internacionais, ele me tranquilizou afirmando que a exigência era dispensada para os que tinham mais de quarenta e cinco anos. “Tem certeza?”, preguntei. “E tu achas que vão de querer numa guerra para que, com pressão alta, coluna e joelhos lascados? Tu vais é dar trabalho!”. Diante de tão robusto argumento, ele me convenceu.

Em 2013 fiz outra viagem de férias, esta pelo interior do nosso Ceará, com minha companheira de todas as jornadas. O roteiro foi insólito e ambicioso: percorrer o perímetro do estado. Saímos de Fortaleza em direção oeste até Camocim, subimos a Serra Grande, descemos em direção sul pelo Ipu, fomos a Tauá, percorremos todo o Cariri em direção leste, e subimos, rumo norte, pelo Icó, Orós e Nova Jaguaribara. Depois demos uma esticada de uns quinze quilômetros fora do roteiro original para visitar... Jaguaruana. 


Chegando em Jaguaruana viajei no tempo. O prédio da prefeitura continua lá, e a portinha lateral que o sr. João da Paz abriu, também. A praça estava, obviamente, bem diferente. A casa do avô do meu amigo se transformou numa lanchonete, e na esquina onde era o tal bar dos “Um milhão de amigos”, sacrilégio, agora funciona uma farmácia!

Aproveitamos a breve passagem lá para comprarmos boas redes, e despedi-me de Jaguaruana com um olhar fotográfico para memorizar o momento. As boas lembranças de outros tempos são muito importantes para mim e continuam vivas na minha história, tanto que as estou compartilhando com vocês agora... E ainda guardo com cuidado meu CAM, quem sabe eu ainda precise dele um dia, né?

Pedro Altino Farias, em 31/01/2026

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O meu é melhor do que o teu!


Trabalhava na área de vendas de uma empresa, cujo gerente geral era do tipo enfezado, coisa que aqui no Ceará chamamos de “caga raiva”. Era, também, um tanto arrogante, mas seu maior predicado era ser tudólogo. Sim, tudólogo, aquele que estudou tudologia e entende de tudo em geral. Para completar o pacote, tudo dele era o melhor. Um ciço, como se diz hoje em dia. Obviamente, na empresa havia a figura do babão. Toda empresa tem. Ele era uma espécie de faz tudo da diretoria e gerência, mas sua verdadeira função era concordar, elogiar e bajular os superiores. Pois bem...

Ocasionalmente, ao final do expediente, colegas se reuniam na modesta cantina da firma, cotizavam-se, mandavam vir cervejas e tira gostos de uma churrascaria próxima, e ficavam papeando um pouco. Em um desses dias, o assunto que veio à baila foi “caranguejo”. O caranguejo tem presença marcante na culinária do nosso litoral, sendo muito apreciado, principalmente, nas barracas de praia. Então, logo o gerente proclamou: “Eu faço um caranguejo que ninguém mais faz!”, e logo o babão emendou: “É mermo, eu já comi e é o melhor!”. O assunto parecia encerrado, pois o homem era o gerente, chefe de todos os presentes, mas...

Nosso protagonista ousou perguntar ao superior tudólogo como ele preparava o caranguejo, e aí gerente começou a narrativa de sua odisséia. Contou que, no domingo, saía às cinco da madrugada para ir comprar os bichinhos. Seu fornecedor era um certo Seu Antônio, que fazia ponto na Bezerra de Menezes, uma grande avenida de Fortaleza, que o deixava escolher as cordas (os caranguejos são comercializados agrupados em cordas) que quisesse.

Feita a aquisição, a primeira providência ao chegar em casa era a limpeza. Os carangas eram minunciosamente lavados no tanque da lavanderia para tirar quaisquer vestígios de lama. Depois, começava o preparo do caldo, no qual os bichos seriam cozidos, com um sem número de ingredientes: leite de coco, cheiro verde, tomate, pimentão, sal, isso e aquilo. Tudo narrado em detalhes, e na maior calma para uma plateia forçadamente atenta.

A sangria dos caranguejos foi um capítulo à parte, seguido da colocação deles na panela para o cozimento. Tudo tinha uma ordem, um método, um jeito certo que só ele sabia fazer. Essa marmota terminava já a não se sabe que horas e, depois de apreciados, começava a limpeza rigorosa do ambiente com a retirada de todos os vestígios dos ex-caranguejos para não ficar aquela inhaca que conhecemos bem. Encerrada a narrativa, ouvintes entediados, o babão, que que prestara a máxima atenção em tudo, pronunciou-se: “Não tem quem faça igual, é o melhor!”. O gerente soltou um discreto sorriso com o sucesso da sua receita, mas...

Nosso protagonista logo emendou: “O jeito que eu como caranguejo é melhor do que o teu”! Pânico entre os colegas, protesto veemente do puxa-saco, que saiu em defesa do chefe: “Não pode! Impossível! Essa é a melhor receita! Não tem igual!”. Silêncio. Depois de breve pausa, o tudólogo, vermelho de raiva, embora contido, argumentou que escolhia os melhores caranguejos, todos os ingredientes eram selecionados e sua receita era consagrada e reconhecida por quem já havia provado como excelente. Excelente não, a melhor de todas, e desafiou o subordinado em alto e bom som: “Pois como é que você faz?”. Silêncio. Todos entreolharam-se. Agora quem deu o sorrisinho de satisfação vendo o colega encurralado foi o babão, então...

Nosso protagonista rompeu aquele silêncio sepulcral afirmando com segurança: “Eu faço assim ó: GARÇOM, TRAGA MAIS CINCO POR FAVOR!”.

Pedro Altino Farias, em 30/01/26

domingo, 25 de janeiro de 2026

Não estou aqui!


Estou aqui e em muitos outros lugares ao mesmo tempo. Meu pensamento voa, fugindo do caos instalado meu redor, e me tele transporta para outras dimensões. Não me perguntem para aonde vou a cada viagem, porque nem eu mesmo sei meu destino.

Ora revivo lembranças boas e converso com meu saudoso pai, falecido precocemente. Hoje ele seria um menino de 47, e eu, um idoso de 65. Muito mais maduro que ele, porém, sempre filho, e pronto a ouvir um bom conselho, coisa que me fez, e faz, muita falta.

Noutro momento visito lugares que gosto, e minha querida Barra Nova me vem logo à cabeça. Outro lugar é a Lua. Ah, a Lua! Nova, crescente, cheia ou minguante é sempre poesia. Também viajo a paragens que nunca vi, que existem apenas na minha imaginação. Praias, campos, serras, terras distantes. Horizontes e céus surreais. Povos felizes, coloridos, comida farta, celebrações, vibrações positivas.

No instante seguinte entranho-me dentro da partitura de músicas gostosas, clássicos daqueles chamados anos dourados, tempo da inocência, embora a gente se achasse malicioso demais naquela época. Éramos, sim, inocentemente maliciosos, ou maliciosamente inocentes.

Noutro instante, vibro com as cordas de um pinho notas de uma melodia que só existe na minha mente. Música suave, que acaricia e acalma, e logo se perde na imensidão do meu pensamento. Procuro resgatá-la em desespero, mas ela se foi para sempre. Quem sabe noutra louca viagem eu a encontre, quem sabe.

De súbito, sinto aromas e sabores invadindo meu palato. Cheiro dos jardins da casa materna com perfumes de rosas e jasmins, que se misturam a chocolates, doces, churrascos, mar, cachaça e tantos outros. O desconhecido também se faz presente trazendo-me sensações que nunca vivi. Tudo muito real, tudo muito imaginário, tudo muito mágico.

Hora de voltar ao mundo concreto, no qual nossa limitada visão não permite atravessar uma simples parede, ou só consegue enxergar o próprio umbigo. A maioria das pessoas parece apenas “parecer”. Pelo menos é o que me parece, e o interesse pessoal de cada um atropela o que vê pela frente. Em grande parte, falta-lhes uma substância que deveria estar concentrada num coração caridoso, compreensivo, franco, amigo. Paciência!

Os que amo habitam todos os meus mundos, todas as dimensões pelas quais transito. Esse é o bom da minha história. Estou certo de que eles estão comigo o tempo todo, todo tempo, seja lá onde for, e em que tempo, abastecendo constantemente meu coração daquela “substância” a que me referi antes.

Não estou aqui, embora pareça estar. Posso estar em todos os lugares, ou em lugar nenhum. Em lugar desconhecido, ou no vácuo da existência. Posso até mesmo estar aqui com você, mas para eu estar com você, você precisa estar comigo, pois o “estar” é recíproco. Não estou aqui, mas tenho a certeza de que nunca estarei sozinho.


Pedro Altino Farias, em 24/01/2026

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

PERDIDOS


Esse fim de ano foi corrido para mim. Sempre é, nem sei porque continuo me iludindo achando que vai ser tudo só festa. Quando chega pelo dia 15 de dezembro, aí a coisa aperta, e o grande objetivo passa a ser entrar o ano vivo. Não riam, é assim mesmo comigo faz anos. Complicado.

2025 deixou um saldo de perdidos extenso, inexplicável e inédito. Primeiro foi o cortador de unha, que sumiu da minha mesa de trabalho. Ele fica lá todo o tempo, o tempo todo, mas... Sumiu! Demitiu-se sem aviso prévio. Abandono de emprego mesmo. Já foi substituído, porém, deixou-me intrigado. Terei eu o ofendido? Sei lá. Nem imagino o motivo do sumiço, nem tampouco qual seu paradeiro.

Depois foi a vez dos óculos de Sol. Sumiu também, simples assim. Pegou o beco, como se diz no popular. Escafedeu-se! É certo que ele me acompanhava no corre-corre do dia-a-dia: no trajeto para o trabalho, na ida a supermercados e demais demandas da empresa. É fato que, quando vou a lugares mais tranquilos, como um barzinho aos domingos, ou uma belíssima praia, prefiro ir na companhia do meu ray-ban, legítimo, diga-se, presente do meu filho. Será que, enciumado, ele se mandou e foi procurar um rosto mais amigo a ornar, e olhos mais sensíveis a proteger? Talvez...

A faca que uso exclusivamente para cortar frutas também sumiu. O amolador de facas idem. Suspeito que eles tinham um caso às escondidas e resolveram fugir juntos. Meu relacionamento com a faca era ótimo, mesmo sendo ferido por ela de vez em quando. Quanto ao amolador, sempre que precisava de seus serviços procurava tratá-lo da forma mais suave possível. Se caso é amor, então estão perdoados, pois ninguém pode com as coisas do coração, mas bem que podiam ter me avisado, né?

Por último, cansado de carregar o ano inteirinho, o meu carregador de celular deve ter encontrado alguém que, enfim, o carregasse. E me deixou incomunicável com o mundo inteiro em pleno réveillon, pode? Sacanagem!

Bem, de uma forma ou de outra comecei meu 2026. Vivo, é claro! Durante o ano espero continuar encontrando meus familiares, parceiros comerciais, amigos antigos, fazendo novas amizades e vivendo bons momentos. Começo torcendo para que tenhamos um mundo melhor, e com a esperança de reencontrar meu cortador de unha, meus óculos, minha faca, meu amolador e meu carregador de celular. Sinta falta deles.  

Pedro Altino Farias, em 02/01/2026 









 

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Com hora ou sen... hora?

Esse negócio de hora não é tão simples quanto parece. A rigor, nenhum de nós tem hora. Há pessoas que não têm hora porque não querem se prender a compromissos, por exemplo. Para eles, as horas não existem. Do outro lado do espectro cronológico, há os que não têm hora porque são obrigados a obedecer a uma pesada agenda profissional, ou mesmo cumprir compromissos domésticos, então, as horas não lhes pertencem, por isso afirmo que essas pessoas não têm hora. Pois bem...

Era começo de noite e dois amigos conversavam animadamente ao balcão do bar de sempre, bem em frente ao dono do estabelecimento. Chapéu Panamá, cabeça baixa, mesmo ocupado, concentrado nas operações do caixa,  estava ligado no papo dos fregueses, quando um deles anunciou que chegara a hora de partir. O outro protestou, e seguiu-se o seguinte diálogo:

- Mas tão cedo? Fique mais um pouco, a conversa tá tão boa!
O amigo contemporizou...
-É, mas tenho mesmo de ir.
-Mas por que?
-É que tenho hora.

Nesse momento, o dono do bar levantou a cabeça, deixando vistos seus olhos por baixo da aba do Panamá e indagou calmamente e com um tom de ironia:
-Você tem hora ou senhora?

Depois dessa, o que estava de partida sorriu um sorriso maroto e confessou:
-Senhora! E ela já me enviou três mensagens!

Diante de tão forte argumento o homem foi liberado na hora!

Altino Farias, em 28/05/2025

domingo, 27 de abril de 2025

Fronteira - caminho com volta



Caminho na praia. O Sol me aquece da frieza das pessoas e da insana rotina diária em busca da sobrevivência. Como um motor alimentado por energia solar, quanto mais quente, mais rápido me movimento. Não, não há pressa, apenas uma meta hipotética a ser atingida. Se não for, não importa, porque, nessa ocasião, o tempo é meu, a meta é minha. O resto não faz diferença.

Antes de iniciar a caminhada, alongamentos. Dos músculos, da visão, dos pensamentos. Pés descalços pisando na areia, ora seca e quente, ora molhada e fria, estou conectado à Terra mãe, trocando energias diretamente com ela. 

Durante o trajeto, marmanjos tatuados, idosos passeando com seus cãezinhos, donzelas com glúteos bronzeados à mostra com suas metades separadas apenas por um fio, pessoas comuns tirando fotos bacanas num cenário idem. 

Os óculos escuros atenuam a claridade da manhã ao mesmo tempo que, providencialmente,  escondem o destino do meu olhar. Pensamentos inconfessos fazem meu membro intumescer, então, procuro distração observando um parapente colorido no céu, um carrinho de picolé com seu sininho a soar, o garotão com sua prancha a adentrar o mar agitado. E curto a sensação gostosa da brisa salgada a abrandar as rugas do meu rosto.

Atingi a meta! Hora de retornar. Cheguei à fronteira até aonde posso ir. Dali para frente o tempo não me pertence. Agora só o tempo da volta é meu, mas a vontade de seguir adiante, avançar no tempo proibido, é enorme. Paro e dou um rápido mergulho na água fria, que me teletransporta instantaneamente à velha realidade e penso: melhor voltar, senão não existirão mais fronteiras para mim.

Altino Farias, 10/04/25