sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A Classe é Unida!


Estatura mediana, branco, cheinho e bonachão, Gilvan era vendedor técnico de uma multinacional com filial em Recife, e fazia, de Fusca, a praça de Pernambuco e dos estados vizinhos: Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí. Todo mês era a mesma rotina, uns tantos dias viajando e uns poucos em trabalho administrativo na filial. Essa rotina permitia ao vendedor viajante criar vínculos de amizade com o pessoal dos hotéis, postos de combustível, e bares e restaurantes principalmente. Também fazia amizade com viajantes de ouros ramos de atividade que cobriam a mesma região. Estávamos em meados dos anos 80, em tempo de comunicação à distância cara e restrita, então, esse roteiro era um passeio de liberdade quase total.

Certa vez, em uma cidade da Paraíba, sua última parada antes de retornar à base, foi à uma boate de quinta só para ver o movimento. Montila vai, Montila vem, Gilvan se engraçou com uma garota, aproximou-se dela e rolou um papo legal. Lá pelas tantas ela o convidou para irem a um lugar mais reservado. Ele topou, e foram para a quitinete onde ela morava, providencialmente perto da boate, e o romance entrou pela madrugada. Enamorado, já fazia planos para vê-la novamente na sua próxima passagem pela cidade, mas, ao se aprontar para sair, ela lhe cobrou o cachê. Decepção! Pensava que a moça havia realmente se interessado por ele, nunca imaginou que ela era, na verdade, uma profissional do sexo! Indignado, ferido em seu orgulho e sentindo-se traído, negou-se a pagar o programa. Discutiram seriamente, e ele acabou sendo expulso do apê da garota com ela lhe xingando aos gritos de xexeiro, vagabundo, aproveitador, fdp e tal.

Mas, como diz o ditado, nada está tão ruim que não possa piorar... Na manhã seguinte, em seu quarto de hotel, com sua autoestima em baixa, sentiu um ardor ao urinar. Assustado, retardou um pouco sua partida de volta para casa, porém, sua suspeita se confirmara: estava com uma baita de uma gonorreia, grande terror do macharal naquela época pré AIDS. Primeiro bateu-lhe um desespero. Depois achou sacanagem uma moça tão bonitinha passar uma doença dessa para ele, e achou que fizera bem não pagar o programa, mas agora, o que fazer? Depois de mais de dez dias ausente, chegando em casa a mulher esperava uma atenção especial dele, mas... Como evitá-la sem que ela desconfiasse?

Sem poder retardar mais seu retorno, pensou detidamente em numa solução para o seu problema durante o percurso na estrada, e resolveu abrir o jogo com o chefão, o sisudo gerente da filial, Gérson Azevedo. A distância entre os dois era de anos-luz. Nessa época, seu Gérson era uma autoridade na empresa. Trabalhava de paletó, como era usual para alguém de sua posição, e tinha ligação direta com o presidente da companhia. Alto, esguio, grisalho, sério, de poucas palavras, extremamente profissional e competente. Já o pessoal de campo era, por natureza, e exigência da função, comunicativo e informal, embora o cargo impusesse respeito naqueles tempos de escassas opções e mercado dominado por poucos.

Chegou na filial, entregou a prestação de contas e dirigiu-se à secretária do chefão pedindo que ele o recebesse. Sisudo, sim, mas sempre educado e solícito, seu Gérson o recebeu. Gilvan suava e tremia, mas não tinha jeito, seu Gérson era seu último recurso. Contou seu drama, evitando detalhes vexatórios, sendo ouvido detidamente pelo chefe. Ao término da narrativa seu Gérson ficou em silêncio por alguns momentos, suspense total, momentos que pareceram séculos, e deu-lhe a sentença: “Você vai ter que viajar de novo, imediatamente! Vá em casa somente para dar um alô à esposa, pegar roupas limpas e diga que vai ter que viajar imediatamente por ordem direta minha. E venha para combinarmos seu roteiro e tratamento. E só me volte aqui quando estiver bom!”, determinou com veemência.

Alívio! Esperava que o gerente lhe desse uma mão, mas não sem antes ouvir um sermão daqueles. Nunca Gilvan quis tanto viajar, ficar longe de casa. De fato, só voltou quando a situação estava sob controle para a felicidade de todos. Um agradecimento especial ao seu gerente se fez necessário, mas o chefe o surpreendeu novamente, pois recebeu Gilvan não apenas como funcionário, mas também como homem e amigo. Foi um agradecimento de homem para homem. É... A classe é unida!

Pedro Altino Farias, em 04/02/26


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