IMAGEM CRIADA POR IA
Mago véi, o menino era só pele e osso! Ruim de garfo e bom de pegar uma infecção na garganta e uma gripe, não havia jeito de criar marra e se fortalecer. Não era o tipo bonitinho, mas era feliz, muito feliz! Os pais sofriam, faziam de tudo para o filho comer, mas a mesa era sempre uma tortura para ele. Não gostava de comer e ponto, porém, ninguém o entendia.
Xaropes fortificantes e para abrir o apetite eram rotina, castaniôdo e biotônico Fontoura eram titulares, com resultado zero no garfo da criança, afinal, sabe-se hoje, eram só xaropes, e o fastio seguia impune.
Refeições sempre feitas em família, cada um tinha seu lugar à mesa. Ele ficava em uma das cabeceiras, ladeado pelo pai e pela mãe. Esse foi o modo que seus pais encontraram para que, isolado dos irmãos, não se distraísse tanto durante o almoço e o jantar. Mesmo assim ele só embromava. Se carne, arroz e feijão já era quase impossível, verduras e legumes nem pensar! O que aparecia no seu prato era catado com precisão e descartado em um canto. O que lhe sustentava era o leite, o leite condensado e a geleia de mocotó Colombo. E ovos. Sua cuidadosa mãe colocava uma gema de ovo em cada copo de leite. A gema ficava inteira e boiando na superfície do leite, e ele sempre imaginava que não a conseguiria engolir. Um terror! Coitada da criança!
Mas nada como o tempo, ah, o tempo! Naquela época, um garoto de onze anos já circulava de ônibus e zanzava pelas ruas de Fortaleza sozinho. Pelo menos uma vez no mês ia ao centro da cidade para cumprir mandados de sua mãe ou para passear com amigos da rua e do colégio. A obrigatória merenda ao fim do programa era o ponto alto. Estava no início de sua puberdade, e muitas mudanças ocorreriam dali em diante. Pois bem...
Passava férias em Recife todo ano, berço da família de sua mãe. Ficava hospedado na casa que seu avô construíra, herdada por sua genitora e mais três irmãs, na qual residiam duas delas, solteiras. No início dos anos 70, o centro de Recife, com seus prédios e igrejas históricas, suas pontes, grandes edifícios, letreiros de neon, cinemas e largas avenidas eram a visão de outro mundo para ele, um mundo de progresso! E um excelente passeio, então...
Onze anos, essa era a idade, e sentia-se um rapazinho. De férias na capital Pernambucana, certo dia saiu sozinho para o centro batendo pernas, olhando vitrines, cruzando pontes, visitando grandes magazines como Mesbla e Sloper, repletos de novidades. Mas já era de tarde e a fome bateu. Chegara a hora da esperada merenda, que seus primos pernambucanos chamavam de lanche.
Escolheu uma lanchonete bacaninha, mas sem sofisticação, afinal, os dinheirinhos eram contados, e não havia espaço para luxo nem desperdício. Um cachorro quente resolveria bem a parada. Bom e barato. Fez seu pedido, junto com uma óbvia coca cola. Sem que ele soubesse, sequer imaginasse, esse pedido foi um divisor de águas em sua vida. Depois dele tudo mudou. Explico.
Ao chegar seu pedido, deparou-se com um pão aberto ao meio, recheado de uma carne moída fumegante e muita, mas muita, mas muita verdura mesmo. Ele não sabia, mas essa modalidade variante de cachorro quente era comum em terras pernambucanas naquela época, e se o freguês quisesse com salsicha, tinha que especificar.
Mas e agora, o que fazer frente ao inesperado e intragável desafio? Com fome, sem grana para desperdiçar, sem possibilidade de separar as verduras da carne moída, só havia uma possibilidade: comer! E foi isso que fez, comeu, e para sua própria surpresa... Gostou!
Esse foi um ponto de inflexão na sua vida, o momento que separou o menino do homem. Sem perceber, ele sentiu-se mais adulto, mais responsável, e mais capaz de superar as dificuldades da vida. Desse dia em diante passou a comer de tudo, inclusive verduras e legumes fossem cruas, refogadas ou cozidas.
Dois anos depois esse rapazinho perdeu o pai. No mesmo ano tomou seu primeiro porre. Tornou-se homem e assumiu responsabilidades em casa. Aos vinte e três se formou engenheiro e começou uma vida dois. Criou bem dois filhos, e desde que começou a trabalhar, aos dezoito, não passou um dia sequer sem ter o que fazer. Mas será que mesmo que a verdura daquele cachorro quente influenciou tanto na vida dele dessa forma? Bem, se passados mais de cinquenta anos ele me contou essa história, é porque esse foi realmente um fato marcante , muito importante e decisivo na vida dele.
E convenhamos, aquele menino de onze só atestou uma verdade: verdura é muito bom, sim!
Pedro Altino Farias, em 16/07/26

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