sexta-feira, 6 de março de 2026

Ensinando a comer caranguejo

Meados da década de 80, mês de dezembro, meu irmão mais velho, que à época residia em Belém, estava de férias na capital alencarina, hospedado na casa de nossa mãe. Aparentemente sério, lança mão de muita sutileza e fina ironia para sacanear os amigos. Esse seu período de férias coincidiu com a vinda de um gaúcho, então casado com uma prima nossa radicada em Porto Alegre há anos. Ele veio participar de um congresso de sua área profissional e resolveu ficar o fim de semana para aproveitar mais a cidade e nossa companhia.

As conversas com o “primo” se davam sempre sobre o ponto certo do chimarrão, cortes nobres de carne e o jeito gaúcho de fazer churrasco. E tome a falar das tradições da região, da origem do povo e da excelência do padrão de vida deles. Quando começávamos a falar das coisas boas do Nordeste, ele cortava e fazia logo uma comparação com as coisas de lá. Um saco! Então...

Convidamos o gaúcho para saborear uns caranguejos na tarde do sábado no Chico do Caranguejo, uma barraca da Praia do Futuro, em Fortaleza, que começava a ficar famosa exatamente pelos seus caranguejos, sempre preparados com capricho. Ele não tinha familiaridade alguma com os “peludos”, então, meu irmão assumiu a função de ensiná-lo como degustar a iguaria, e logo começou seu “tutorial” ao vivo e a cores. Pedimos a primeira bacia com uns cinco bichos bem graúdos e apetitosos, àquela época servidos num caldo ralo e amarronzado, nada gourmetizado.

Meu irmão começou pelas patinhas pequenas, comendo a papa pelas beiradas, como se diz no popular. “Primeiro você parte assim e depois chupa. Se a carne não sair, aí você dá uma batidinha de leve com o pauzinho”, ensinou. “Agora é a vez da patona. Batendo assim, a carne sai inteirinha!”, demonstrou ao gaúcho, deixando-o com água na boca.

Até esse momento tudo ia bem. Era meu irmão demonstrando, o gaúcho fazendo igual, e eu assistindo a marmota para ver aonde ia dar enquanto apreciava aquelas delícias. As cervejas e cachaças corriam soltas, e o papo também. 

O gaúcho já se sentia um verdadeiro expert na arte de comer caranguejos, quando meu irmão disse: “Agora vamos comer a ‘cabeça’ e depois preparar o casquinho”. Então ele retirou a carapaça do bicho, deixando-a de lado e ensinou: “A gente limpa aqui”, referindo-se às brânquias do bicho, que fazem as vezes de pulmão, “e lava no caldo”. O primo começou a não gostar da estória, mas continuou fazendo igual... Então, só de sacanagem, meu irmão deu a dica de ouro, que fez toda a diferença: “Aí você prova. Se estiver amargando, é porque ainda tem merda, aí você lava mais um pouco e...”. Ficamos só nesses cinco primeiros caranguejos mesmo, porque o gaúcho travou, não tomou mais um gole de cerveja sequer, dispensando até a sagrada saideira! Um saco! 

Pedro Altino Farias, 06/03/26

 

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