Aí um dia chegou um convidado que
vamos chamar aqui de Maestro, contando então uns cinquenta. Veio com um teclado
e uma moça muito bonita, morena clara, cabelos castanhos e cacheados, e com um
vestidinho vermelho insinuante. De chamar atenção. Chegou, abancou-se numa
ponta da grande mesa e começou a tocar. Lá pelas tantas o Maestro disse que
iria na rodoviária buscar uma encomenda e logo voltaria, como de fato ocorreu.
Voltou e continuou a tocar.
Algum tempo depois de seu retorno, chegou no bar uma mulher
baixota, meio gorda, cabelos castanhos por repintar partidos ao meio, trajando
vestido simples, perguntando ao dono do bar se o Alfredo estava lá. Casado,
Alfredo era o sete cordas titular da “thurma” e não perdia um sábado sequer,
mas se acompanhava sempre da Katy, sua namorada, uma excelente voz. Sabendo
disso, por uma questão de solidariedade masculina, o dono do bar hesitou em
confirmar sua presença, mas, como a entrada no ambiente era livre, não tinha
como negar. “Está, sim!”, respondeu com uma voz miúda e temerosa.
A mulher entrou para o quintal pelo acesso lateral e,
imediatamente, a moça de vermelho saiu correndo por dentro do bar, atravessando
cozinha e salão como um raio de luz. O dono estranhou aquilo, mas logo a mulher
veio dar explicações junto com pedidos de desculpas. Ela passava a semana
trabalhando numa cidade do interior, retornando no sábado, ou seja, a
“encomenda” que ele foi buscar era ela, que trouxe consigo um bom peso de carne
fresca comprada “no preço” para abastecer a família durante a semana. Na ânsia
de voltar ao bar, o Maestro esqueceu a carne no porta malas do carro, motivo
pelo qual ela se pôs a ligar para um e outro conhecido para saber o paradeiro
do marido e salvar a carne, trazida com tanto zelo e carinho. Mas, ao chegar no
bar, deu de cara com a cena: o Maestro tocando e a morena aconchegada coladinha
ao seu lado. A mulher não contou pipocas, pegou uma cadeira para dar nele, mas,
ao levantá-la, tropeçou e caiu de costas, e uma tragédia ainda maior foi
evitada.
Pois é, por um punhado de carne... A casa caiu!
Pedro Altino Farias, em 01/04/26

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