terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Uma Agulha num Palheiro



Eles adoram a Lua. Nova, crescente, cheia ou minguante, não importa, para eles é sempre poesia. Certa vez o calendário se fez generoso com a Lua cheia ocorrendo numa noite de sábado, então, não perdeu tempo, combinou com a mulher amada, cúmplice e companheira de todas as horas para passarem o fim de semana numa praia onde têm pequena casa.

Praia frequentada por gente simples, barracas animadas, casas sem luxo nem ostentação: tudo ali é a cara deles. Ratos de praia, chegaram no fim da manhã, organizaram os mantimentos e as bebidas, e correram para o mar. De tarde, um rango generoso e um breve cochilo. Depois, cortando a areia frouxa com os pneus do valente buggy, foram até uma pequena duna de onde poderiam contemplar o pôr do Sol. Em seguida, desceram para o mar naquela hora mágica que não é mais dia, mas a noite ainda não chegou. Silêncio, maré mansa, um deserto à beira mar. Romance!


Vencido o pôr do Sol, pegaram o buggy e foram até a barraca que frequentam habitualmente, bem no centro da vila de pescadores, para assistirem ao espetáculo da Lua despontando do oceano no horizonte. O céu estava claro, sem nuvens. A maré, baixa, somente murmurava, fazendo coro com uma leve brisa. A barraca fecha à tardinha, mas, com a permissão do dono, eles pegaram duas cadeiras de madeira e as arrastaram até a beira mar. Uma cachacinha, cervejas e petiscos frios completaram a cena. Tudo seria perfeito. E foi! A lua despontou deslumbrante e bela! A água do mar estava mornamente convidativa a ficar mais, e a ausência de outros seres humanos por perto permitia um romance ousado, para não dizer, explícito.


Passado o momento, com a Lua já a meio quadrante e a maré subindo, resolveram voltar para casa. Recolheram os pertences e a vontade de ficar, arrastaram as cadeiras de volta ao lugar onde as encontraram, e tudo seguiria assim, perfeito, porém, ao chegar no buggy, cadê a chave do carro? Procuram, procuraram e nada. Havia a possiblidade de, no meio do pega daqui, alisa dali, a dita cuja ter caído na areia da praia. Ou pior, ter se perdido no percurso do buggy até a praia, ou da praia até o buggy. Vixe, e agora?


Raciocinaram na calma e resolveram primeiro procurar no local onde fizeram pouso. Eles se deram conta de que, arrastando as cadeiras, haviam deixado marcado o lugar onde estavam, mas a maré estava subindo rapidamente, então, já escuro, contando com o auxílio da lanterna do aparelho celular, voltaram depressa à cena do crime. Chegando lá, delimitaram uma área ao redor de onde ficaram, e puseram-se de quatro a ciscar a areia, fazendo dos dedos garfos de ciscador. Para quem não sabe, as chaves desses carros mais antigos eram chaves simples, cor de metal, sem fazer volume. Ela estava solitária num chaveiro tipo gancho, também de metal branco. O simples do simples, que complicava a procura, mas, num golpe de sorte, como quem acha uma agulha num palheiro, encontraram! Alívio!


De volta para casa, uma gelada e uma cana para comemorar, um banho para tirar o sal, e uma rede na varanda para rir da história e... Começar outra história. Ao despertarem no meio da madrugada, e antes de pegar no sono novamente, relembraram aquele dia como se fosse um dia de há muito tempo, e deram risadas cúmplices e também graças por todos aqueles bons momentos vividos e pelo fato de a rede onde estavam não ter desabado horas antes, no momento errado...  Então, ele olhou-a com ternura, fez-lhe um carinho e alertou: “Vamos ter cuidado, porque só se acha uma agulha num palheiro uma vez na vida!”. E dormiram um bom sono, o sono dos amantes, que poucos conhecem de verdade.


Pedro Altino Farias, em 23/02/26

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