domingo, 21 de janeiro de 2024

Cerveja Lavada


Esse fato ocorreu há muitos anos, antes do “politicamente correto” dominar no mundo, portanto, desculpem qualquer coisa. Naquela época, imaginem, era proibido proibir, mas vamos ao caso.

Sou engenheiro civil e nesse tempo tocava uma pequena construtora com construções próprias, prestando, também, serviços para terceiros. Do “bloco do eu sozinho”, passava o dia rodando de uma obra para outra suprindo-as dos materiais necessários, supervisionando os serviços e atendendo a clientes, além da parte burocrática. A rotina era bem corrida e as atividades bem diversificadas. E fazia tudo isso a bordo de um buggy, que puxava um reboque para levar até quinhentos quilos de materiais sempre que necessário.

Pois bem, certo dia, final de tarde, o calor era grande e eu estava coberto de poeira de cimento. Após cumprir todos os meus compromissos, estava com uma sede daquelas, sonhando uma cerveja bem gelada para preencher o vazio de todas as minhas desidratadas células. Então, para resolver esse problema, parei numa churrascaria anexa a um posto de combustíveis localizado na BR-116, na zona urbana de Fortaleza. Sim, eu dirigia e ia tomar uma cerveja, mas lembrem-se que isso foi há muitos anos, antes da lei seca e seus bafômetros.

Cheguei ao balcão com uma sede de mil desertos e fui logo perguntando ao atendente: Você tem uma cerveja Antárctica* em lata bem gelada? Respostas positiva, o balconista perguntou se eu queria que lavasse a lata. Sim, naquela época não era procedimento comum lavar as latas de cervejas e refrigerantes antes de pô-las no freezer. À pergunta respondi: Não precisa, isso é coisa de via..., ops! De quem não tem o que fazer! Nesse momento notei que outro atendente acabara de enxugar uma lata de cerveja e estava entregando-a a outro cliente que estava ao bem meu lado, que me olhou meio de banda e com ar de censura ao ouvir meu comentário. Foi chato.

Altino Farias, em 14/01/2024
*Naquela época cerveja em lata só havia Skol e Antárctica

domingo, 14 de janeiro de 2024

Rodízio de Bundas

 


O comércio era do tipo “bar & mercearia”, muito comum em bairros das grandes cidades e mais comum ainda em municípios do interior até a uns anos atrás. Na cidade grande hoje restam poucos desses estabelecimentos, que eram bastante sortidos. Neles vendia-se corda, pregos, alfinetes, botões, remédios, cereais, fumo, bombons, pão, enlatados e por aí vai. E ainda aceitavam fiado dos fregueses com débitos anotados na “caderneta”. A caninha e a cerveja para os amigos e papudins da redondeza não faltavam. O balcão dessas casas era ocupado em grande parte por mil e uma bugigangas, restando, via de regra, pouco espaço livre. Pois bem, foi num boteco desses que correu o caso que agora vou narrar para vocês.

Certa tarde de sábado, no Bar do Seu Mundim, os amigos de sempre celebravam a vida com cerveja quase gelada, talagadas de aguardente barata e muita conversa fiada. Como os bancos para sentar eram poucos, alguns ficavam de pé, então um dos presentes fez uma proposta: Turma, já tô cansado de ficar em pé, por que a gente não faz um rodízio de bundas? Depois de um tempo os que estão sentados ficam de pé, e os que estavam de pé, sentam um pouco para descansar os cambitos”.  Proposta aceita na hora pela assembleia, deu-se de imediato o primeiro “rodízio de bundas”.

Logo depois do “rodízio” chegaram dois forasteiros e todos olharam para eles desconfiados. Os intrusos se espremeram num cantinho do balcão, afastaram uns pacotes de bolachas abrindo uma pequena clareira, e pediram duas doses de cachaça, prontamente servidas pelo Mundim em copos que acabara de retirar da bacia na qual os lavara com água aparada, e parada. E a rotina do bar continuou, com a conversa fiada correndo solta entre os diaristas, e os dois forasteiros bebendo suas cachaças e conversando baixinho entre si.

Foi aí que um dos habitués disse: “Bora! Agora quero me sentar, já faz um tempão que tô em pé e vocês aí, bem sentadinhos”. Conforme o combinado, os que estavam sentados levantaram-se, cedendo seus tamboretes aos que estavam cansados de estarem de pé. Nessa troca de posições, um deles acabou confundindo os copos e pegou o copo errado. Quando já aí tomando um gole, o verdadeiro dono do copo exclamou em alto e bom som: “Ei, peraí! Rodízio de bundas tudo bem, mas de copos, aí já é putaria!”. Nesse momento um dos forasteiros olhou para o outro e disse: “Cumpade, vamu s’imbora daqui que esse bar num é pra nós, não!”

Altino Farias, em 14/01/2024

Imagem postada no site
https://www.conhecaminas.com/2021/03/16-vendas-botecos-e-mercearias-antigas.html

Eu, Prisioneiro


Nesse momento me encontro no estômago da Mobydick. Aqui é escuro, frio, quieto, estranho. Lutei, resisti muito para não chegar até aqui. Criei situações, inventei estórias, fiz amizades, planejei mil estratégias diferentes de tudo que já se viu. De nada adiantou. Fui engolido pela famosa e temida Mobydick.

Daqui posso ouvir o barulho das ondas e correntes marinhas e ver um pouco do mundo exterior através dos olhos dela, mas nada posso fazer, estou preso, imóvel, impotente. Temo não pela minha vida, mas pelos sentimentos dos que estão lá fora e gostam de mim, afinal, isso não são modos de se sair dessa existência. Aliás, a pior hipótese para mim é continuar existindo assim, nas entranhas dessa baleia.

Mas tenho um plano para sair dessa situação. Não, não posso contar a vocês porque ela pode me ouvir, e então minha ideia iria por terra, ou melhor, por mar. Mas o plano é bom! Sei que nada que planejei funcionou até agora, mas quem sabe dou sorte dessa vez e me livro dessa insólita prisão.

Agora tenho que ir. Vou trabalhar no meu plano. Vai dar certo! Qualquer dia chego numa praia distante. Sei que não irão acreditar na minha fantástica história, então vou inventar outra, bem simples. Um quase afogamento, ou o naufrágio de um pequeno barco, ou que me perdi no mar praticando kitesurf, para mim não importa, o que importa é ver o Sol e a Lua, sentir a brisa no rosto e ver o sorriso no rosto das pessoas amadas. E nunca mais ser prisioneiro novamente onde quer que seja.

Altino Farias, em 14/01/24  



 



quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Meu 2024 ainda não começou


Para mim 2024 ainda não começou. Explico. Passei todo o mês de dezembro extremamente cansado, preocupado e estressado com mil problemas e imprevistos. E me sentindo mal, cheio, empachado. A coisa aperto mesmo foi depois do Natal, com sintomas de dores na boca do estômago e nas costas, lado direito, e noites em claro.

Atribui as dores no estômago a distúrbios digestivos, e a das costas e mal jeito na dormida. À base de antiácidos e analgésicos fui levando e cumprindo os últimos compromissos operacionais e legais do ano até o dia 28, ao qual seguiu mais uma noite em claro.

Na sexta, 29/12, procurei um atendimento de emergência e veio o diagnóstico bombástico: eu estava com um cálculo renal obstruindo o ureter, tubo que liga o rim à bexiga. Essa era a causa de todo o mal estar que estava sentindo há dias. Foi operado no mesmo dia às 19 horas.

Tive alta hospitalar dia 30 e a graça de passar o réveillon em casa com a família, lamentando apenas não passar com minha mãezinha, dona Concita, que esse ano vai a 94 anos, e irmãos como é tradição na família desde os tempos do meu saudoso pai, mas a maravilha da internet hoje permitem as chamadas de vídeo, que quebram o maior galho nessa situação.

Enfim, meia noite, e na minha taça para o brinde, água! Brindei feliz por estar me recuperando, pelo bem estar de todos da família e amigos. Pelo nosso Brasil e pela paz no mundo.

Água. A gênese da vida dos primeiros seres se deu na água. Animais e vegetais são compostos de água. A água nos mantém vivos. Água é o solvente universal. Na virada do ano, que para mim ainda não começou, tomei água e um decisão: de ora em diante brindarei a chegada de mais um ano com água, simbolizando a simplicidade e a purificação. Cachaça a gente bebe antes e depois.

Meu 2024 começa semana que vem, pois devo me submeter a um procedimento médico para a retirada de um cateter colocado para facilitar a drenagem dos resíduos do cálculo renal. Estou ansioso para ver e sentir 2024!

       

Altino Farias, em 11/01/2024