quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O Dia Que Mudou Tudo - Crônica de Natal 2019



Ele não sabe precisar o ano em que tal fato ocorreu, apenas que o Natal estava próximo. Caminhava normalmente pela rua quando tudo parou. Pessoas, máquinas, natureza. Assustou-se. O tempo parara completamente e, aparentemente, somente ele não sofrera tal efeito. Se não tinha uma explicação para o fenômeno dessa pausa temporal, tampouco imaginava o porquê de sua imunidade.

Num segundo momento percebeu que fitando os olhos inertes daquelas pessoas podia desvendar-lhes os sentimentos, tanto positivos, quanto negativos: alegrias, conquistas, angústias, frustações, decepções. Com um simples olhar passou a entendê-las e, mais que isso, a descobrir a vida de outra forma. 

Num instante pensou nos seus amigos e entes queridos, e movimentou-se para aonde estava cada um deles como se tele transportado fosse. Todos com os olhares congelados, porém, com suas almas expostas. Ficou chocado com o que “viu”. Mesmo tendo uma vida inteira de convivência, não imaginava a torrente de sentimentos que irrigava aquelas vidas, e lhes tirava a água também. Parou e olhou para si percebendo-se, ele próprio, imerso num emaranhado de sentimentos, positivos e negativos.

De súbito ouviu o choro de um bebê, sem distinguir de onde veio, ou se ouviu de fato. Imediatamente após percebeu nitidamente um homem com seus trinta e poucos passar por sua mente. Calmo e bondoso, parecia ser o guia a lhe apresentar a vida e as pessoas dessa outra forma, nuas, com todos os seus íntimos revelados.

Fim do transe, tudo voltou ao normal, numa movimentação urbana frenética. Agora sabendo como as pessoas são realmente, passou a compreendê-las, aceitá-las e ajudá-las no possível. Sentiu que todos agiam da mesma forma em relação a ele, e perguntou-se se elas não teriam passado pela mesma experiência surreal que ele. Talvez.

Enfim, noite de Natal. Família reunida para a grande ceia do ano, foi instado a dizer algumas palavras. De novo ouviu, ou pensou ter ouvido, aquele choro de bebê. Então se ergueu lentamente, olhou no olho de cada um e disse: O Natal chegou, não deixemos que ele se vá! E todos se abraçaram e dividiram o pão e o vinho postos à mesa numa grande comunhão, e a partir daí passaram a viver uma nova vida. Para eles e para os outros, a quem Alguém um dia chamou de próximo.



Altino Farias, em 16/12/2019 


terça-feira, 5 de novembro de 2019

Oração de Sexta Feira


Que a semana tenha sido abençoada,
E a cachaça não seja malvada;
Que o tira gosto seja saudável,
E o dono do bar, afável;
Que a sexta seja de alegria.
E ninguém chore, somente ria;
Que a noite não seja fugaz,
E o sábado, de muita paz.
Assim seja!

Pedro Altino Farias, em 18/10/19 

Lamento de Sexta Feira


                                                         

Ah, Sexta feira, 
Por que tens apenas as vinte e quatro horas como todos os dias?
E dessas mais de vinte 
Apenas umas poucas se aproveitam à boemia?
Por que não és eterna como o Sol, a Lua e a poesia?
Ah, Sexta feira dos meus sonhos, 
À qual sempre sucede um sábado de luz,
O dia passa, arrastado, mas à noite o copo reluz,
Trazendo com ele amizades e sorrisos, 
Que a outros mundos nos conduz.
Ah, Sexta Feira, amiga efêmera e fugaz,
Faz de ti a minha paz,
Para que de enfrentar uma nova semana eu seja capaz!

Altino Farias, em 01/11/2019

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Olhar e Ver

A pressa, o desinteresse e a distração pura e simples, fazem-nos cegar ante mil coisas bacanas que desfilam frente a nossos olhos diária e continuamente. Verdadeiras maravilhas. É preciso calma, interesse e um pouco de poesia para nos darmos conta do mundo real que nos envolve, caso contrário teremos uma visão seletiva, composta somente das imagens que satisfazem nossas necessidades no momento, criando um “mundo virtual” só nosso.



Toda terça feira vou ao Mercado São Sebastião e percorro seu entorno fazendo compra de insumos para a cozinha do meu comércio, a Embaixada da Cachaça, rotina repetida religiosamente nos últimos dois anos e meio. A pressa é grande, a lista de tarefas, enorme, e a cabeça totalmente ocupada com projetos e pensamentos que vão até o ano de 2035. Nunca dá tempo para ver além do olhar.

Terça última, no entanto, foi diferente. Amanheci a segunda com o propósito de entrar num ritmo mais lento, dando mais atenção a pequenas coisas do dia a dia, e deixando que as grandes questões percorram seu curso mais naturalmente. O universo parecia em sintonia comigo, porque naquele dia tudo estava, também, mais calmo: pessoas, trânsito, e o movimento habitualmente frenético do mercado e lojas, uma tranquilidade só.

Foi dentro desse panorama que, ao sair pela lateral do Mercado, consegui ver uma bela e antiga construção camuflada atrás da testada comercial de uma loja de ferragens. Parecia até que eu nunca estivera ali, que nunca saíra por aquela mesma porta lateral. Ah, como é boa a sensação de olhar e conseguir ver além dos olhos!
          

           
Não resisti e atravessei a rua. Fiquei por ali, olhando as ferragens expostas à venda, mas, na verdade, estava sondando o ambiente. A fachada da casa estava perfeitamente visível (para quem estivesse disposto a vê-la). De longe podemos ver detalhes em alto relevo e a inscrição “Laboratório”. Conta com recuo frontal, pequena área de acesso à porta principal e três janelas altas com vitrais. Pedi licença a um funcionário e fui entrando.

                     

                     

                     

Embora utilizada com depósito de ferragens e materiais pesados, o imóvel se encontra em estado de preservação bastante razoável. Piso mosaico na entrada e madeira corrida na parte interna, portas, bandeirolas trabalhadas, forro em lambri num pé direito alto, vitrais. Estão todos lá. Ainda. Fiz uma viagem no tempo voltando aos anos 40, talvez. Imaginei que funcionou como um laboratório de análises clínicas, com balcão de atendimento, sala de espera, salas da coleta de material e a parte laboratorial em si. É possível que tenha sido ocupado originalmente como residência. Uma bela residência, com todas as nuances de uma família completa: idosos, adultos, jovens, parentes, criados. No quintal, animais e fruteiras. Portas e janelas sempre abertas durante o dia.

Minha incursão foi limitada pelo pouco tempo que dispunha e pela falta de autorização oficial para ir mais adentro. Volto outro dia, quando os astros se alinharem novamente, para fazer o serviço completo. Espero que em breve... E que ela ainda esteja lá.



Altino Farias, em 11/09/2019  























domingo, 30 de dezembro de 2018

Um Presente Chamado Ano Novo - 2019



O ano novo é o futuro embrulhado como um presente.

Na forma, ele será igual ao que findará: terá 365 dias de alegrias ou nem tanto, distribuídos em 12 meses e 52 semanas iguais e consecutivas. É assim ano após ano, desde sempre. Um tédio? Não, absolutamente não!

O conteúdo do ano novo é misterioso, ninguém sabe, e nem deve querer saber, o que ele trará, mas, com certeza, cada instante vivido será um presente.

O presente “ano novo” deverá ser aberto aos poucos, lentamente... E as surpresas irão surgindo, uma trás da outra. Umas nos trarão alegrias, outras, tristezas; mas todas nos farão aprender mais um pouco sobre a vida. Para isso, no entanto, é preciso que estejamos sempre atentos, ligando passado e presente, para chegar a um futuro melhor para todos.

Está quase na hora de começarmos a desembrulharmos, juntos, nosso presente: o ANO NOVO. Façamos dele uma nova emoção a cada dia, uma nova lição, uma nova amizade, uma nova luz na vida de outras pessoas, uma nova história a cada momento, assim, ele será realmente um ANO TODO NOVO para nós.

Pedro Altino Farias, em 30/12/2018

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

E Viva a Democracia!


Reta final das eleições presidenciais, a coisa tá pegando fogo no Bar do Toim, com argumentos positivos, negativos e contraditórios de lado a lado. Chico Litro já se declarou totalmente a favor da liberdade de ingestão; Zé Siriguela anunciou que vai votar no candidato que prometer estender a safra de seriguela, cajá e caju; o Espinhela Caída é comunista de carteirinha, e defende subsídios na produção para ter birita barata pra todo mundo; Chico Matuto é direita e, igualmente ao amigo, quer cachaça com preços baixos pra todos, mas via redução de impostos. Polêmicas!

A grande preocupação, no entanto, é se o bar do Toim vai abrir ou não, pois a lei eleitoral não permite a venda de bebidas alcoólicas neste dia. Mas por que? Porque pode ser (pode ser) que uns “alguéns” bebam demais, e que, dentre estes, alguns botem boneco, e que, dentre estes, uns poucos causem problemas ao processo eleitoral a tal ponto que... É o Estado com sua mão forte tutelando o cidadão como muitos defendem.

Toim avisou que o bar vai fechar, sim, mas só para os outros, os amigos podem entrar pela porta lateral que a turma vai tá toda entocada lá dentro tomando umas. Alívio geral, problemas imediatos do Brasil resolvidos. E viva a democracia!


Pedro Altino Farias, em 04/10/2018

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Palavras? Cuidado!




Final dos anos 70, início da década de 80. Amigos do colégio, cada um seguiu sua vida universitária. Vez em quando ele dava uma passada na casa dela para conversarem, por os papos em dia. Certa vez ela comentou, muito feliz e entusiasmada, que estava namorando um rapaz de Brasília, que viera a Fortaleza para participar dos jogos universitários. Ora, em 1979 não havia internet e seu mundo sem fronteiras, e uma garota de uma cidade namorar um cara de outra distante era complicado. Pensou ele: “Deixa de ser besta, menina, num tá vendo que o cara tá lá em Brasília comendo todo mundo e você aqui, bancando a Amélia?”. Mas ela estava tão animada, que ele preferiu calar e deixar o alerta para outra oportunidade, que nunca aconteceu. 

Errantes numa tarde de sábado, dois amigos de faculdade foram a um bar para tomar umas. O estabelecimento se encontrava fechado, porém, o dono estava na varanda de sua casa, que ficava ao lado, bebendo com dois amigos dele, um dos quais armado com um combalido violão. Osmar, esse era o nome do dono do bar, chamou a dupla para beberem juntos. Violão truando, um dos universitários soltou a voz. Incontinenti, o violonista fez mudo o violão, olhou para o cantor amador e disparou: “Mas tu canta ruim, heim, bicho?”. 

Anos passaram. A garota do namorado distante casou com ele. O pai dela faleceu e a mãe casou com o pai dele, que já era viúvo. Todos vivem bem até hoje, e o amiguinho dela poderia ter estragado tudo isso com seu alerta simplista. Sorte dela! 

Enquanto isso, aquele universitário, cantor amador  de outrora, continua calado, cantando apenas para si mesmo, dentro de sua mente. 

Palavras: é bom ter cuidado com elas, pois podem causar grandes estragos! 


Pedro Altino Farias, em 30/08/18

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

SE FOR PRA MIM, DIGA QUE FUI PRU VIETNÃ!


Domingo é Dia dos Pais. Devo passar o dia em casa com minha filha e meu filho, desejando, também, a presença de genro e nora. Sem falar na Gorette, minha mulher, amiga, companheira e filha mais velha (acho que a recíproca é verdadeira e, da mesma forma, ela me considera seu filho mais velho... hehehe). Fafá, minha cunhada irmã, sempre presente. Mais tarde, à noitinha, vou estar com minha querida mãe. O dia promete loooongoooo...

A saudade de meu pai já conta quarenta e quatro anos. É muito tempo... E quase nada, considerando-se a eternidade. As lembranças são bem presentes, apesar do tempo e dos meus irrisórios treze anos quando ele se foi.

Papai adorava trabalhar em casa, mas sozinho, em seu gabinete, e aborrecia-se quando o procuravam nesses momentos para tratar de assuntos profissionais. Telefonema na hora do almoço, então, ih... Ficava muito bravo mesmo. Começo dos anos 70, a guerra fria troando nos quatro cantos do mundo, quando o telefone tocava na hora do almoço papai esperava que um de nós fosse atender. Esperava que se tirasse o fone do gancho quando bradava em alto e bom som: “SE FOR PRA MIM, DIGA QUE FUI PRU VIETNÃ!”.

O que aprendi com ele nesse breve período ficou em mim sedimentado. Logo aos vinte e quatro anos foi minha vez de começar a viver essa fantástica experiência que é ser pai, e que vai perdurar por toda a minha vida e, quem sabe, além dela. Nesses onze anos, entre treze e vinte e quatro, conheci um pouco do mundo pelas minhas próprias pernas para, junto com os ensinamentos de meu pai e minha mãe, completar minha formação moral e ética.

Hoje, aos cinquenta e sete e meio, filhos criados e felizes (que venham os netos!), quero mais é sossego. E se domingo ligarem pra mim... DIGAM QUE EU FUI PRU VIETNÃ!

Pedro Altino Farias, em 07/08/2018

sexta-feira, 30 de março de 2018

A Última Coca Cola



Olhava em volta, via somente o próprio umbigo. No máximo seu reflexo. Acreditava não haver mais alguém além dela. Nem uma água para aplacar a sede, nem uma sombra para aliviar o calor.

E lá estava ela, a dita "última Coca Cola do deserto". Comparável apenas ao "general da banda" e ao "rei da cocada preta". Tampinha intacta, geladíssima, única, necessária.

E se aproxima um forasteiro sedento, vagando por aquele deserto de dimensões universais. Avista a Coca Cola, a qual se mostrou indiferente, afinal, ela se achava coisa rara.

O forasteiro chega perto dela e... Passa em frente, rumo a uma fonte de águas límpidas e cristalinas, bem ali, atrás dela, da "ultima Coca Cola do deserto", onde palmeiras e arbustos formavam um verdejante oásis. 

Pois é... A fonte estava bem ali, e só aquela Coca Cola não viu... Coitada! 

Pedro Altino Farias, 20/04/17

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Mascarada



Cerveja, cachaça, uísque, lança perfume, paqueras e muita brincadeira. Pela manhã, praia; à tarde, corso na cidade e à noite, baile no clube. Assim era o carnaval no Aracati, Ceará, no início dos anos 80. Uma turma de amigos, todos jovens e solteiros, instalou-se numa casa na praia de Majorlândia e começou a folia.

Noite de domingo de carnaval, depois de já terem curtido todo o sábado e cumprido com louvor as duas primeiras etapas daquele dia, circulavam pelo clube com desenvoltura, instalando-se numa mesa à beira do salão. Uísque e cerveja e lança à mão, prontos para a caça. 

Eis que o mais pintoso da turma é avistado de braços com uma das meninas mais feias de toda a festa (desculpem o politicamente incorreto, mas foi assim que aconteceu). Primeiro a turma ficou em choque vendo o amigo dar rodadas e rodadas no salão abraçado àquela moça. Depois começaram a mangar mesmo. 

Todos estavam observando o flerte do pintoso, quando ele levou a moça para um canto e falou algo no ouvido dela que, incontinenti, deu-lhe um belo tapa na cara. Mas como? Tá com a mulher mais feia da festa e ainda leva um tapa na cara? Ficaram curiosos.

E lá vem o amigo pintoso de volta à base massageando o rosto e rindo. Todos querendo saber o porquê da agressão, primeiro ele tomou uma dose de tudo o que havia na mesa e deu uma cheirada no lança. Então, respirou fundo e contou o que acontecera.

Ao chama-la para conversar foram feitas as apresentações de praxe, então ele disse-lhe: “Pronto, agora que já nos conhecemos você já pode tirar máscara!”. E deu no que deu! 

Pedro Altino Farias, em 09/02/2108


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Fraquinha...




A mulher entra no bar e decreta com voz firme, em alto e bom som:
- Juventino, vamos pra casa!
- Mas eu tô em casa, meu amor...
- Em casa? Haha... Nesse bar imundo, bebendo com todos esses homens?
- Aqui é onde me sinto em paz e esses homens que bebem comigo todos os dias são meus irmãos.
- Juventino, seus filhos estão em casa lhe esperando!
- O meus filhos são também seus filhos. Já são adolescentes e não estão nem ai pra mim...
- Juventino, e eu? Snif, snif... Sua esposa?
- Hummm... Fraquinha...! Por que é que você acha que venho pru bar todo dia?

Essa história poderia terminar aqui, mas não terminou.

Seis meses depois...

O bar ainda está em reparos. Depois da reabertura ser anunciada e adiada três vezes, parece que mês que vem reabre mesmo.

Juventino, com fraturas múltiplas, começa a fisioterapia de reabilitação na semana que vem. Se tudo correr bem, com mais uns três meses começa terapia para tratar a síndrome do pânico, adquirida na mesma ocasião das fraturas.

Os amigos de Juventino presentes no bar naquele dia, ou fizeram promessa para parar de beber, ou se converteram a uma religião que proíbe a bebida.

Novamente essa história poderia terminar aqui, mas...

A mulher de Juventino, sentido-se sozinha e com a vida vazia, sem o marido e com os filhos adolescentes cuidando de suas próprias vidas, começou a beber com as amigas. Hoje bebe diariamente e está se sentindo muito feliz. Só não está mais feliz porque começou a ver certa razão naquelas biritagens do marido e aí lhe bate um remorso...

Altino Farias, em 07/02/2018

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Feliz da Vida



Respondia pelo nome de Severino, mas podia ser João, José, Pedro, Sebastião ou outro qualquer. Cinquenta e tantos anos, escolaridade a desejar, trabalhava como porteiro num condomínio que já fora dos mais elegantes da cidade, mas que os anos providenciaram certa decadência.

Véspera de Natal todos ficam com um sentimento fraterno e solidário à flor da pele, e naquele ano não foi diferente. Severino, no seu posto, trabalharia até vinte e duas horas, quando seria substituído por um colega, João Paulo, nome que ganhou quando da vinda do Papa ao Brasil. Estava feliz porque chegaria em casa a tempo de ficar com a família, embora nada fosse ter de especial. Talvez conversassem descontraidamente e fizessem uma oração de agradecimento antes de deitarem.

No condomínio o dia foi movimentado, todos correndo nos últimos preparativos para a ceia da noite. Doutor Malheiros, que Severino poucas vezes viu em carne e osso, pois o homem só entrava e saia do prédio de carro por trás do fumê dos vidros, veio até a portaria e cumprimentou-o apertando-lhe a mão e desejando-lhe feliz Natal com uma voz pausada e firme. Bruna, com seus dezessete anos, a mais patricinha do pedaço, foi até ele e fez um selfie, que logo postou nas mídias sociais, tendo muitas curtidas dos amigos. Salete, a perua do 902, interfonou para Severino desejando um feliz Natal e pedindo que ele subisse quando tivesse uma folguinha para pegar umas roupas usadas, mas que “estavam novinhas”, para que examinasse o que lhe aproveitava. Dona Genoveva, a vovó do prédio, deu a Severino com um vistoso panetone. “Ganhei quatro desses e nem posso comer por conta da minha diabetes”, comentou em tom de lamento enquanto entregava o pão a Severino, que adorou o presente. Já noite, ao sair para a ceia em casa de parentes, o pequeno Jonas, de cinco apenas anos, incomodou-se ao ver Severino na guarita e perguntou, inocente: “Na sua casa não tem Natal não?”.

Severino largou o serviço pontualmente às 22 horas, passando o posto a João Paulo, a quem cumprimentou com apertado abraço e um carinho na cabeça. “Coitado, vai passar a noite de Natal trabalhando.”, pensou solidário. Não fosse a mulher e filhos esperando em casa, por certo trocaria o turno com o colega. 

Apressado, a caminho de casa, pensava nos acontecimentos do dia. Passou num mercadinho e comprou uma tubaína já gelada. Com as roupas usadas, o panetone e o refrigerante, a surpresa para os de casa estava garantida. Seguia feliz da vida, como não importasse as atitudes mesquinhas que observou naquelas pessoas no decorrer de seu expediente e durante todo o ano. De relance, jura que viu um rasgo de luz no céu e teve consigo a certeza de que era Papai Noel com seu trenó. A noite não foi tão longa quanto ele gostaria, mas teve um FELIZ NATAL.

Pedro Altino Farias, em 24/11/2017



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Dezembro 2017


Saímos da última curva e entramos na pequena reta final de 2017. O tempo passa acelerado. O que está feito, está feito, em que lugar estamos não interessa mais, o importante é chegar, apenas. 

Embora com pé embaixo, agora nos atrevemos a dar uma olhada em volta e, principalmente, no retrovisor. O que ficou para trás nesse momento é destaque. Alguns bons companheiros e entes queridos não conseguiram estar ao nosso lado agora e, com certeza, assistem-nos da arquibancada, e torcem por nós... E nós por eles.

O Brasil, ah, o Brasil! Vem devagar, lá trás. O projeto atual é ruim. Muitos problemas desde a primeira curva do ano. Todos preocupados, muitas opiniões, nenhuma solução à vista. Talvez ano que vem tudo seja melhor, talvez. 

Parentes, amigos e amores nos aguardam na linha de chegada, e nós aguardamos, também, a chegada deles próprios, cada um com sua corrida. Champanhe!

Após breve parada para respirar fundo, pensar no que vivemos, uma nova aventura nos espera: 2018, mas essa é outra corrida.


Pedro Altino Farias, em 01/12/2017

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

RO - Resto de Ontem


A conversa estava boa, a birita também. Nessa hora chegou uma moça bonita e gostosa. Papo bom, alegre e sorridente, logo surgiram uns carinhos. Nem ele nem ela sabem como começou o lero. Talvez tenham juntado a fome com a vontade de comer, quem sabe. Lá pelas tantas resolveram ir para lugar incerto, fugindo dos olhares indiscretos e invejosos dos outros.

Entre quatro paredes, pelados, livres das amarras das convenções sociais e morais, amaram-se loucamente, nem sabem dizer por quantas horas ao som de “Eu te amo”, de Chico Buarque e outras pérolas. Aí a notícia carece de uma exatidão. 

Manhã clara, de banho tomado, recuperado do êxtase intenso, bateu a fome e a necessidade de dar notícias em casa. Tentou matar dois coelhos com uma só paulada. Ainda entre quatro paredes, enquanto a jovem desnuda jazia adormecida na cama, ligou para a mulher contando uma história sobre seu sumiço mais fantástica que a mais fantástica visão de Dali, atrevendo-se a pedir que lhe preparasse um delicioso caldinho de carne do jeito que “só ela sabia fazer” para quando ele chegasse. Como a mulher lhe bateu com o aparelho na cara, olhou para cama e se conformou em comer o “RO”, resto de ontem. 

Esta crônica bem que poderia terminar por aqui, mas, como foi dito antes, a notícia carece de exatidão. 

Recém saída do segundo casamento aos trinta anos nesses tempos modernosos, ela nem pensava em sexo naquela noite, muito menos em começar algo sério, mas... A abstinência vinha de uns poucos meses, o cara era atencioso e divertido, então, “por que não?”, perguntara-se. Ao adentrar as tais quatro paredes, no entanto, decepção, pois o dito cujo parecia estar mais carente que ela umas cinco mil vezes, encerrando sua performance bem antes que o mínimo desejável. Papo vai, papo vem, deram um tempo e foram de novo. E mais uma vez o lanche foi rápido. Para ela, pelo menos, foi uma merendinha insossa tipo chá com bolacha. Como era madrugada, resolveu tirar um bom ronco e pinotar da cama cedinho sem nem olhar para o “RO”, resto de ontem. 

Pedro Altino Farias, em 25/11/2017





quinta-feira, 23 de novembro de 2017

22 de Novembro - Dia da Bandeira


Uma miniatura de máquina de escrever, um pequeno globo, alguns lápis, livros de automóveis antigos, cachaças, um violão de brinquedo, um velho vinil e fitas cassete, Patativa, Padre Cícero, um crucifixo, uma mini sela feita pelo Espedito Seleiro. Objetos que falam um pouco de mim, das coisas que gosto. Ao fundo, abraçando meu pequeno universo, o Pavilhão Nacional. Esse cenário é real e faz parte do meu dia a dia o ano inteiro, todo ano.

Dia 19 de Novembro foi o Dia da Bandeira, pouco se falou disso. Amar a Pátria se tornou piegas, cafona, ridículo. O governo militar usou mal o sentimento patriota. Os governos seguintes se esmearam em desvirtuá-lo ainda mais... Ou simplesmente ignorá-lo. E o povo, em sua maioria, entrou nessa. Lamentável. 

Vivemos atualmente uma situação crítica em termos morais e éticos. O Estado Brasileiro acabou, sobrevivemos apenas como Nação, a sociedade levando tudo nas costas. Até quando?

Patriota que sou, aproveito essa ocasião para ratificar meu amor BRASIL e meu repúdio veemente a toda essa lama que se tornou o Estado brasileiro, com seus executivos e legislativos e judiciários. Em todos os níveis.


Altino Farias, em 22/11/17