domingo, 25 de janeiro de 2026

Não estou aqui!


Estou aqui e em muitos outros lugares ao mesmo tempo. Meu pensamento voa, fugindo do caos instalado meu redor, e me tele transporta para outras dimensões. Não me perguntem para aonde vou a cada viagem, porque nem eu mesmo sei meu destino.

Ora revivo lembranças boas e converso com meu saudoso pai, falecido precocemente. Hoje ele seria um menino de 47, e eu, um idoso de 65. Muito mais maduro que ele, porém, sempre filho, e pronto a ouvir um bom conselho, coisa que me fez, e faz, muita falta.

Noutro momento visito lugares que gosto, e minha querida Barra Nova me vem logo à cabeça. Outro lugar é a Lua. Ah, a Lua! Nova, crescente, cheia ou minguante é sempre poesia. Também viajo a paragens que nunca vi, que existem apenas na minha imaginação. Praias, campos, serras, terras distantes. Horizontes e céus surreais. Povos felizes, coloridos, comida farta, celebrações, vibrações positivas.

No instante seguinte entranho-me dentro da partitura de músicas gostosas, clássicos daqueles chamados anos dourados, tempo da inocência, embora a gente se achasse malicioso demais naquela época. Éramos, sim, inocentemente maliciosos, ou maliciosamente inocentes.

Noutro instante, vibro com as cordas de um pinho notas de uma melodia que só existe na minha mente. Música suave, que acaricia e acalma, e logo se perde na imensidão do meu pensamento. Procuro resgatá-la em desespero, mas ela se foi para sempre. Quem sabe noutra louca viagem eu a encontre, quem sabe.

De súbito, sinto aromas e sabores invadindo meu palato. Cheiro dos jardins da casa materna com perfumes de rosas e jasmins, que se misturam a chocolates, doces, churrascos, mar, cachaça e tantos outros. O desconhecido também se faz presente trazendo-me sensações que nunca vivi. Tudo muito real, tudo muito imaginário, tudo muito mágico.

Hora de voltar ao mundo concreto, no qual nossa limitada visão não permite atravessar uma simples parede, ou só consegue enxergar o próprio umbigo. A maioria das pessoas parece apenas “parecer”. Pelo menos é o que me parece, e o interesse pessoal de cada um atropela o que vê pela frente. Em grande parte, falta-lhes uma substância que deveria estar concentrada num coração caridoso, compreensivo, franco, amigo. Paciência!

Os que amo habitam todos os meus mundos, todas as dimensões pelas quais transito. Esse é o bom da minha história. Estou certo de que eles estão comigo o tempo todo, todo tempo, seja lá onde for, e em que tempo, abastecendo constantemente meu coração daquela “substância” a que me referi antes.

Não estou aqui, embora pareça estar. Posso estar em todos os lugares, ou em lugar nenhum. Em lugar desconhecido, ou no vácuo da existência. Posso até mesmo estar aqui com você, mas para eu estar com você, você precisa estar comigo, pois o “estar” é recíproco. Não estou aqui, mas tenho a certeza de que nunca estarei sozinho.


Pedro Altino Farias, em 24/01/2026

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

PERDIDOS


Esse fim de ano foi corrido para mim. Sempre é, nem sei porque continuo me iludindo achando que vai ser tudo só festa. Quando chega pelo dia 15 de dezembro, aí a coisa aperta, e o grande objetivo passa a ser entrar o ano vivo. Não riam, é assim mesmo comigo faz anos. Complicado.

2025 deixou um saldo de perdidos extenso, inexplicável e inédito. Primeiro foi o cortador de unha, que sumiu da minha mesa de trabalho. Ele fica lá todo o tempo, o tempo todo, mas... Sumiu! Demitiu-se sem aviso prévio. Abandono de emprego mesmo. Já foi substituído, porém, deixou-me intrigado. Terei eu o ofendido? Sei lá. Nem imagino o motivo do sumiço, nem tampouco qual seu paradeiro.

Depois foi a vez dos óculos de Sol. Sumiu também, simples assim. Pegou o beco, como se diz no popular. Escafedeu-se! É certo que ele me acompanhava no corre-corre do dia-a-dia: no trajeto para o trabalho, na ida a supermercados e demais demandas da empresa. É fato que, quando vou a lugares mais tranquilos, como um barzinho aos domingos, ou uma belíssima praia, prefiro ir na companhia do meu ray-ban, legítimo, diga-se, presente do meu filho. Será que, enciumado, ele se mandou e foi procurar um rosto mais amigo a ornar, e olhos mais sensíveis a proteger? Talvez...

A faca que uso exclusivamente para cortar frutas também sumiu. O amolador de facas idem. Suspeito que eles tinham um caso às escondidas e resolveram fugir juntos. Meu relacionamento com a faca era ótimo, mesmo sendo ferido por ela de vez em quando. Quanto ao amolador, sempre que precisava de seus serviços procurava tratá-lo da forma mais suave possível. Se caso é amor, então estão perdoados, pois ninguém pode com as coisas do coração, mas bem que podiam ter me avisado, né?

Por último, cansado de carregar o ano inteirinho, o meu carregador de celular deve ter encontrado alguém que, enfim, o carregasse. E me deixou incomunicável com o mundo inteiro em pleno réveillon, pode? Sacanagem!

Bem, de uma forma ou de outra comecei meu 2026. Vivo, é claro! Durante o ano espero continuar encontrando meus familiares, parceiros comerciais, amigos antigos, fazendo novas amizades e vivendo bons momentos. Começo torcendo para que tenhamos um mundo melhor, e com a esperança de reencontrar meu cortador de unha, meus óculos, minha faca, meu amolador e meu carregador de celular. Sinta falta deles.  

Pedro Altino Farias, em 02/01/2026