domingo, 31 de julho de 2011

O Eletricista


Gosto de carros. Gosto, não, sou apaixonado por eles, especialmente os nacionais dos anos 60/70. Dessa época todos me atraem. Dos atuais, uns poucos, pois a maioria segue “tendências” que os tornam sem personalidade.

A meio tempo entre o “antes” e o “agora”, tive o Opala Diplomata como sonho de consumo. Acabei adquirindo um usado, ano 1987, quatro portas, verde metálico. O carro era completo e sem defeitos aparentes, porém, vez por outra sua bateria descarregava totalmente, ao ponto de fazê-lo parar por falta de corrente elétrica. O problema se tornou verdadeiro mistério, visto que ninguém conseguiu descobrir sua origem.

Embora fosse um sábado de carnaval, eu havia agendado alguns compromissos profissionais com um colega. No roteiro duas cidades, ambas a cerca de 70 quilômetros da Capital. Na primeira fomos a um distrito, num percurso de 15 quilômetros para ida, e tanto igual para volta à sede do município.

Durante a volta, bem a meio caminho, numa estradinha carroçável, com o sol das 12:30 horas a maltratar nossos miolos, a luz alerta da bateria acendeu no painel. Gelei! Continuei em frente, agora pisando mais forte no acelerador, tentando, pelo menos, chegar à cidade, onde poderia obter ajuda. Tentativa frustrada, pois o “possante” morreu no meio do nada.

Ainda restava um pouco de carga na bateria, e pedi auxílio a uns caboclos que passavam. Eles ajudaram a empurrar o carro, que pegou no tranco, apagando-se de novo bem na entrada da cidade. “Agora estou tranqüilo”, pensei, com relação a um socorro elétrico. Perguntamos a um e outro, porém, como era sábado de carnaval, nenhum profissional foi encontrado na ativa, todos estavam na gandaia momina.

Enfim, apareceu um não sei de onde. Assustado e vendo as coisas complicarem, perguntei logo se havia possibilidade do Diplomata ser guardado na oficina dele, caso uma solução imediata não fosse possível. “Dá não, doutor. Minha oficina é pequena, é de bicicleta!”, respondeu o curioso que fazia as vezes de eletricista de automóveis. Perdi a fé no homem, e a esperança de sair dali dirigindo meu carro, mas como ele se mostrava muito prestativo, dei-lhe mais um tempo, afinal era carnaval e minha programação já havia ido mesmo para a lata do lixo.

Sem mais esperar por notícia boa, o “eletricista” emerge a cabeça de dentro do compartimento do motor com um fio solto na mão, dizendo: “Tá aqui o defeito!!”. E pegou um canivete, descascou a ponta do fio, soltou uma porca no alternador retirando um terminal partido, enroscou o fio lá, e apertou a porca. Depois disse animado: “Agora vamos fazer uma chupeta!”, acenando para que um amigo dele encostasse outro carro no meu, com o fim de fornecer a carga necessária para o motor de partida virar.

Sucesso! O motor pegou de primeira, com o alternador gerando a energia necessária para recarga da bateria. Conseguimos ainda cumprir parte do programado, terminando a tarde com uma cerveja gelada à beira das estrada e boas gargalhadas, lembrando a incrível história do mecânico de bicicleta do interior que resolveu o mistério que nenhum eletricista de grife da capital havia conseguido.

Altino Farias
altino.frs@gmail.com

domingo, 24 de julho de 2011

A Casa Aceita!


Potão era seu apelido. Imaginem a figura: mulato, tronco largo, estatura mediana, pouca instrução. Ainda falaremos dele aqui.

Dois casais amigos foram passar um fim de semana na casa de praia de um deles. Era um programa que estavam acostumados a fazer, de modo que os preparativos já seguiam certo modelo: carnes, carvão para churrasco, gelo, guloseimas para as crianças, queijos, defumados e... Cerveja, claro.

Determinado fim de semana, porém, foi diferente, pois o anfitrião convidou outro casal além dos amigos de sempre. O cara era um parceiro de negócios e havia certa cerimônia para recebê-lo. Notavam-se cuidados especiais com a casa, o arranjo da mesa, uma bela rede armada na varanda. Coisas que não se via no cotidiano. O casal amigo estava ali para dar um apoio, fosse nas conversas, no servir, ou na companhia, simplesmente.

Perto do meio dia do domingo os convidados chegaram. Ele, meio sério e sisudo, logo abriu um sorriso. “Melhor não descuidar, manter alguma distância e não tratar com intimidades”, pensou o anfitrião. Quanto à mulher, o conceito era outro. Metida a chique, maquiada, penteada e toda “não me toques”, era o que se chama hoje de perua.

O almoço estava em preparo. Peixada. Ainda demoraria um tanto, por isso o anfitrião pediu aos amigos que fossem até uma barraca com os convidados para que eles conhecessem a praia e tomassem uma cerveja, enquanto ele se ocuparia ainda com detalhes do almoço. Assim foi feito.

Ao chegarem na barraca de costume, Potão, cunhado do dono, estava fazendo as vezes de garçom. Pediram uma cerveja, a qual foi prontamente servida, acondicionada num porta cerveja de isopor. A mulher retirou a garrafa do suporte apenas o suficiente para ver o rótulo. Ao constatar que a bebida era de marca diferente da sua predileta, exclamou alto e em tom grosseiro: “Essa cerveja você pode levar de volta que eu não bebo!”. Em sua santa ingenuidade, Potão emendou, para horror da perua que estava bem ao seu lado: “A senhora não quer não, é? Pois a casa aceita!”, e tomou a garrafa inteirinha direto no gargalho e num só gole!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

domingo, 10 de julho de 2011

Liberal Demais



Com o senho franzido, um amigo confidenciava a outro o comportamento rebelde e excessivamente liberal de suas duas filhas adolescentes. Ele aproveitava que a turma ainda não havia chegado para o encontro habitual no bar para expor suas preocupações ao parceiro de mesa.

Segundo o confidente, conservador por natureza, suas filhas abusavam da boa vontade dele. Saíam sem dar satisfações, frequentemente dormiam na casa de amigas, relegavam os estudos a terceiro plano, e, cúmulo da heresia, insistiam em namorar no quarto... Com a porta encostada.

O amigo ouvinte, liberal por convicção (beirando o anarquismo), em tudo tentava minimizar as preocupações externadas pelo confidente. Dizia que também tinha duas filhas e que nada disso o preocupava. A cada posição liberal assumida, o outro esperneava, demonstrando grande indignação.

Várias situações preocupantes foram expostas, todas combatidas sob o argumento da liberalidade e confiança. Então, chegaram ao clímax da discussão: o direito das filhas namorarem no quarto. O liberal disse: “Lá em casa não tem isso, não. O namoradinho de qualquer uma das duas pode vir a qualquer hora e entrar direto para o quarto delas, com direito a fechar a porta. Confio nas minhas filhas”. Ouvindo isso, o outro quase endoida de vez.

Depois de meia hora de acirradas argumentações de lado a lado, e algumas doses, o conservador, já angustiado e exasperado diante de tanta moleza, perguntou: “E qual é a idade de suas filhas?”, ao que o líbero-anarquista respondeu: “Uma tem cinco e a outra, três...”.


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

domingo, 3 de julho de 2011

Ciclos



Vivemos em ciclos, e de ciclo em ciclo vamos completando nosso aprendizado de vida, tanto no campo material, quanto no espiritual. Infância, adolescência, estudos, dificuldades, relacionamentos, casamento(s), filhos... Nesta fase de formação e amadurecimento, quando fechamos um ciclo abrem-se muitos outros, numa progressão geométrica, e a vida da gente vai aos poucos se tornando mais e mais complexa, cheia de alternativas, responsabilidades, e compensações também.

Depois, na época do nosso ocaso, mais ciclos são fechados que abertos. Amigos que se vão para sempre, entes queridos idem, aposentadoria, limitações físicas. Nosso espírito luta, mas o corpo não obedece, e, aos poucos, vamos nos resumindo, fechando ciclos, e fechando, e fechando, sem mais abrir novos.

Em Janeiro de 2010 fechei um importante ciclo em minha vida com a formatura da Ana Maria, minha filha Aninha, em Arquitetura e Urbanismo. Primeiro a cerimônia de colação de grau, depois a missa de Ação de Graças e, por fim, a festa dos concludentes. Em cada uma dessas ocasiões, muita emoção e um filminho passando em minha cabeça o tempo todo: a morte prematura de meu pai, também arquiteto; meu casamento ainda muito jovem; a formação da família; a luta diária para proporcionar uma boa educação aos filhos; seus primeiros namoricos; o momento em que eles decidiram suas carreiras... Um longo caminho. Muitos ciclos fechados e outros tantos se abrindo. Continuamente.

No início de março do mesmo ano, o Instituto dos Arquitetos do Brasil – Seção Ceará prestou homenagem a todos os ex-presidentes da entidade. Ficamos todos muito sensibilizados, pois como meu pai, Armando Farias, foi um dos fundadores do Instituto, recebeu uma atenção especial por parte dos arquitetos presentes à solenidade.



Ver minha filha representando o avô ao receber a justa homenagem, foi como se um ciclo, repentinamente deixado aberto por ele, se fechasse, e o tempo, parado desde 1974, ano de sua morte, começasse a contar novamente.

Agora temos o caçula, Altino José, nosso Tininho, concluindo seu curso de Engenharia Mecânica em breve. Tininho, cheio de idéias e sonhos assim como eu, já vive em meio a mil ciclos abertos, e outros mil se abrirão à sua frente de uma só vez quando concluir o curso... E mais um se fechará para mim, agora com um gosto de missão cumprida e vitória na educação dos filhos, única herança a deixar.

Antevejo viver as mesmas emoções quando da formatura de Aninha, o mesmo filme passando na mente. Às vezes rápido, às vezes lentamente. Dificuldades, incertezas, lutas, alegrias, união, conquistas.

Aos dois, desejamos sucesso em suas vidas adultas e profissionais. Que muitos ciclos se abram, e que eles saibam aproveitar o que cada abertura dessa pode trazer de bom, de sábio. Ficaremos na primeira fila da arquibancada torcendo. Sempre.

Quanto a nós, em plena maturidade, ainda passaremos algum tempo abrindo mais ciclos que fechando. Uns se sobrepondo uns aos outros num movimento frenético, pois assim é a vida... Até que tudo comece a seguir em câmara lenta e último deles se feche para sempre.





Altino Farias




sábado, 25 de junho de 2011

E Viva a República!


Essa um amigo me contou numa mesa de bar. Disse que o caso ocorrera com um amigo, mas tenho cá minhas dúvidas, acredito que ele mesmo pode ter sido o personagem central desta história.

O fato é que o cara chegou num bar para o happy hour da sexta acompanhado de sua esposa, que fora apenas deixá-lo. Como ainda não havia ninguém da turma, ela ficou um pouco a lhe fazer companhia. Nesse meio tempo uma mulher, passando pelo mesa do casal, cumprimentou-o. “Uma antiga colega de colégio”, explicou ele à esposa, que logo depois foi embora.

Passou da hora combinada e os amigos, nada! Sozinho, olha daqui, sorri dali; resolveu sentar-se à mesa da antiga colega. Drinks, lembranças do passado, prestações de contas com o presente. Cada um fez um rápido retrospecto de suas vidas desde aqueles tempos até a atualidade. Sem se notarem estavam a trocar carícias e... Eis que surge um beijo!

Ocorre que a mulher dele retornou ao bar por um motivo qualquer, e deparou-se com os dois bem na hora do ósculo, num tremendo azar da dupla de colegas. A esposa, enfurecida, perguntou quase aos gritos: “Fulano, você pode me explicar o que é isso?”. Nosso protagonista, um coroa boa praça, pacato, gentil, e muito espirituoso (além de azarado), levantou-se energicamente, ergueu a mão direita com o punho cerrado e bradou: “E viva a república!”.

“E viva a Republica!?”, quis saber eu a esta altura da narrativa, “Mas o que ele quis dizer com isso?”, perguntei, ingênuo. “E o que ele poderia dizer de melhor numa situação dessas?”, respondeu meu amigo candidamente. Depois, pensando sozinho, conclui: “É, faz sentido... Uma boa resposta... Talvez a melhor de todas!”


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

terça-feira, 14 de junho de 2011

A Itália em 15 Dias




Vou aqui fazer um relato sobre os quinze dias de férias que passei em viagem à Itália em companhia de Gorette, minha esposa. A narração seguirá a cronologia dos dias, e o enfoque dado será, prioritariamente, o da logística, de modo que possa conter informações úteis a todos.

De antemão agradeço ao meu irmão mais velho, Fábio Farias, que, como comandante do Airbus A340, foi um grande incentivador dessa empreitada, inclusive viabilizando o trecho aéreo através das condições especiais de preços de passagens às quais tem direito na companhia. Valeu!

Percorremos seis cidades, tendo quatro delas como sede: a cosmopolita Milão, a apaixonante Florença, a monumental Roma e a bucólica Arona. Além delas, estivemos na curiosa Veneza, e na sossegada Locarno, esta situada no sul da Suíça.

Alguns Valores serão mencionados como referência, e sempre em euros.


Dia 19/03, sábado:

Nossa empreitada se iniciou dia 19 de março, sábado. Como o vôo a Milão partiria de Guarulhos, São Paulo, embarcamos em Fortaleza num vôo às 8 da manhã, chegando ao destino três horas depois. O embarque a Milão se daria somente às 22 horas, então fomos a um hotel próximo ao aeroporto para descansar à tarde. Vários hotéis da cidade disponibilizam vans e ônibus a cada meia hora para fazer o translado de quem está em trânsito, facilitando bastante a vida dos viajantes.

De volta ao aeroporto, encontramos o Fábio, que seria um dos comandantes do vôo. Como o tempo de duração da viagem é de cerca de 12 horas, o Airbus da TAM decola com duas tripulações completas, que se revezam a cada seis horas.

Embarcamos no horário previsto e a viagem transcorreu sem sobressaltos. A convite do comandante, passei boa parte do vôo na cabine, sobrevoando todo o litoral brasileiro, passando por Fernando de Noronha e rumando para a Europa sobre o Atlântico. Como era noite de lua cheia todo o visual ficou especial. Entre os destaques dessa parte da viagem posso citar o visual estranho do “Fogo de Santelmo”, e a ultrapassam de outro avião que trafegava na mesma aerovia e sentido, porém num nível mais acima. Tanto um quanto outro proporcionou um show visual.


Dia 20/03, domingo:

Desembarcamos em Milão no domingo, e quatro horas à frente do nosso fuso-horário. Ao final do vôo a comissária de bordo transmitiu ao Fábio vários cumprimentos de passageiros pelo excelente pouso, suave e sem trancos. De lá fomos direto a Arona, cidade turística situada a cerca de 70 quilômetros ao norte de Milão. Às margens do Lago Maggiore, Arona é uma cidadezinha charmosa e bucólica. Fizemos um passeio a pé pelas proximidades, e um jantar fechou o longo dia.


Dia 21/03, segunda-feira:

Pegamos um trem para Milão num percurso de cerca de uma hora de viagem. O Fábio nos acompanhou dando as primeiras coordenadas de como são as coisas na Itália. Dicas valiosas. Chegando, fomos ao hotel, que fica próximo à estação Pasteur do metrô. Depois, à Catedral Duomo e à galeria Vittorio Emanuele, que fica vizinho à Catedral e abriga lojas elegantes. Neste ponto Fábio nos deixou, pois ao fim da tarde já embarcaria de volta ao Brasil, e ficamos por nossa conta e risco.




Passei então a procurar o Teatro Alla Scala. Rodei as adjacências munido de mapa e, estreando meu italiano, fui perguntando aqui e ali pela localização do teatro. Ora entendia o que falavam, ora não. Ora me entendiam, ora não. Depois de muito rodar encontrei, enfim, o teatro, que fica exatamente no ponto de onde partimos, em frente a uma praça que leva o mesmo nome do teatro, e ao lado da galeria Vittorio Emanuele.




Depois desse primeiro “mico” rodamos, sempre orientados pelo mapa, por pontos de destaque, até chegarmos à Corso Venezia/Buenos Aires, avenida repleta de lojas de confecção e artigos de couro. Entre uma e outra passamos em frente ao Museu de História Natural e à Villa Comunale. Esticamos um pouco a programação e encerramos a jornada do dia com um lanche, nos recolhendo ao hotel.


Dia 22/03, terça-feira:

Tiramos a terça para visitar museus. Fomos ao de História Natural ($ 3,00 cada) e em seguida ao Castelo Sforzesco, onde funcionam museus de variados temas ($ 6,00 cada com direito a visitar todos). Essas visitas nos consumiram todo o dia, mas permitiram ainda um passeio na Via Dante, que quase une o castelo à Catedral. Cheia de lojas chiques, a Via Dante é só charme, e aproveitamos o fim de tarde para sentar numa calçada para apreciar o movimento da rua tomando um vinho e saboreando uma massa.


Dia 23/03, quarta-feira:

Na quarta acordamos cedo, tomamos café no hotel e pegamos o metrô rumo à estação de trens. Na Central embarcamos com destino a Veneza ($ 31,00 cada), onde passaríamos o dia. Perdemos um pouco de tempo, pois a viagem dura duas horas e meia, fazendo com que chegássemos a Veneza um pouco tarde. Mas aqui para nós, mesmo sabendo da duração do percurso, acredito que não partiríamos mais cedo do que conseguimos.

Em Veneza fomos de barco direto para a Basílica e Praça de São Marcos. Depois fomos voltando à estação, ponteando a cidade no que tinha de interessante. Chato que os prédios que ladeiam a Ponte dos Suspiros estavam em manutenção, com um grande tecido plástico azul protegendo-os. Com isso a ponte ficou visualmente espremida entre esses dois volumes, quase sumindo.




O último trem partiria às 18:20hs, e não podíamos perdê-lo de forma alguma, fato que nos fez ter sempre um cuidado com o cronômetro. O passeio da gôndola ficou para outra oportunidade, pois o fator tempo unido ao fator custo ($ 150,00) tornou o programa desinteressante. Particularmente acho o maior mico passear naquele negócio, mas...

Perdemo-nos e achamo-nos várias vezes durante esse percurso, pois é impossível se andar numa direção reta na cidade, pois o caminho é sempre entrecortado por passarelas e canais, porém conseguimos chegar à estação a tempo. Ainda fizemos um lanche antes de partir de volta, quando comemos sanduíches com uma garrafa de vinho. Interessante assinalar que é comum tratorias, osterias, pasticerias e restaurantes disporem de mesas na calçada, ocupando o espaço público. Mas saibam que para usufruir deste privilégio cada freguês paga cerca de dois euros ou preços majorados. No caso do nosso lanche cada “panini” saiu a $ 3,00, e a garrafa de vinho a $ 8,00. Sentados os valores seriam $ 5,00 e $ 10,00, respectivamente. Comemos sentados nas escadarias da Central, como tantos outros turistas.




Chegamos ao hotel em Milão por volta das 22hs, cansados, porém satisfeitos com a empreitada. Cedo partiríamos para Florença, então evitamos programa esticado.


Dia 24 a 26/03, de quinta-feira a sábado:

Na quinta partimos com nossas mochilas para Florença. A viagem foi tranqüila, com 1:45hs de duração ($ 53,00 cada). Como nas outras, o trem era confortável, pontual e rápido. Desembarcamos na estação central, denominada de Santa Maria Novela. Ela fica a cerca de trezentos metros da Catedral, num percurso tranqüilo e prazeroso. Aqui vai uma dica. Se levar pouco peso a mochila é ideal, pois, carregada às costas, nos confere muita agilidade. Mas se o peso for maior, melhor mesmo é a mala com rodízios. Particularmente prefiro as mochilas, mas a mala é bem prática quando mais pesada.

Nosso hotel se situava a uns trinta metros da Catedral, numa transversal. Logo que chegamos passei um susto, pois o número do endereço do hotel que constava na reserva, 13, simplesmente não existia na rua indicada. De novo meu “fluente” italiano nos salvou, e fui informado que a numeração da rua era desordenada. Já havíamos passado do lugar correto, que era exatamente onde eu havia visto na internet.

Instalado num prédio antigo, bem no centro histórico da cidade, o hotel se assemelha mais a uma de nossas acolhedoras pousadas, e dele nada temos a reclamar. Sua localização foi o ponto alto, pois estávamos bem no meio de onde as coisas acontecem.

Florença se parece mais com a gente. Pequena, acolhedora. Uma mistura de Ouro Preto, Olinda, Parati e Jericoacoara. Igrejas, praças, palácios, pontes, sorvetes... Tudo muito gostoso e dentro de uma atmosfera de animação e cores.

Nesta tarde rodamos pela cidade em reconhecimento, privilegiando a visita à Catedral. Depois almoçamos num restaurante na praça cujo garçom falava português com fluência. Através dele conhecemos o dono do estabelecimento, que tem um filho casado com mineira de Uberlândia e reside no Brasil há quatro anos.




No dias que ficamos em Florença caminhamos para todos os lados. Saímos do centro histórico, entramos em quitandas, açougues, oficinas, vistamos antiquários. Para nós os destaques da cidade, além da Catedral, claro, são a Casa di Dante, a Ponte Vecchio e o Palácio Pitti.

No Palácio funcionam dois museus ($ 12,00 individual para cada museu). A construção é lindíssima, imponente. Por trás existe um grande parque, Jardins do Bóboli, com muitas alamedas e jardins. Na parte posterior do parque há o Museu da Porcelana (visitação franqueada ao público), que exibe peças antigas e raras. Mais um delírio para os olhos. Numa das pontas há o Forte de Belvedere, que não podemos visitar por estar em manutenção. Quando já estávamos de saída nos deparamos com um recanto cheio de estátuas imitando uma gruta ou algo assim. As imagens assemelham-se a formações de calcário que encontramos em cavernas. Belíssimo!!

Os sorvetes são um show à parte. Deliciosos, eles são expostos de maneira irresistível em vitrines geladas, numa combinação de formas e cores que saltam aos olhos. Os restaurantes também fazem seu papel, sempre com uma decoração de bom gosto e atrativos gastronômicos expostos.

Em Florença as atrações são muitas: praças, museus, palácios, igrejas, parques, lojas, restaurantes... Artistas expõem trabalhos nas ruas, corais ensaiam cantos em igrejas, exposições de arte se sucedem. Só mesmo indo para ver.

No domingo partimos para Roma de trem ($ 45,00 cada passagem) dando continuidade à nossa programação, numa viagem de 1 hora e 35 minutos.


Dia 27/03, domingo:

Chegamos à Roma ao meio dia, totalmente desnorteados. Da estação liguei para o hotel, que confirmou nossa reserva e deu algumas orientações. Pegamos um táxi (pela primeira vez), e em pouco tempo estávamos devidamente instalados. Ocorre que era domingo, e tudo estava fechado, deserto. Saímos caminhando em direção à Basílica de São Pedro, procurando pegar um ônibus. Mas era necessário antes comprar um bilhete, que é vendido em tabacarias. Como era domingo, todas estavam fechadas.

Continuamos caminhando. Paramos numa espécie de padaria/lanchonete e fizemos uma pausa para comer algo. Conversamos com a pessoa que nos atendeu, e ela deu algumas dicas, inclusive indicou que estávamos mais perto que longe da Basílica, então decidimos continuar para não perder o dia. Decisão sábia, pois a Basílica, além de lindíssima, é enorme e conta com várias opções de visitação.




Neste domingo visitamos a Basílica em si, a Tumba, que fica abaixo do piso e é onde estão sepultados papas e religiosos (a de João Paulo II é a mais reverenciada), e subimos até a cúpula, cuja primeira etapa é de elevador e a segunda uma seqüência de escadas com 322 degraus no total ($ 7,00 cada).

Voltamos ao hotel já à noitinha e cansados. Compramos queijos, pães e vinhos, e fizemos um pic-nic na suíte do hotel.


Dia 28/03, segunda-feira:




A segunda amanheceu chuvosa e fria. Tomamos o café no hotel (muito bem servido, aliás), e esperamos um pouco. As nuvens pesadas estavam baixas e o vento forte, e logo deu uma clareada. Retornamos à Basílica para concluir a visita. A Praça de São Pedro, apesar do frio e tempo duvidoso, estava lotada, com uma grande fila contornando-a toda pelo lado direito, passando de sua metade. A fila é para ordenarem o acesso e revistarem os visitantes. Algumas áreas interditadas no domingo estavam liberadas. Além disso, visitamos o museu da Basílica ($ 6,00 cada).

Na área da Basílica há um ponto de parada de ônibus turísticos. Optamos por apanhar um deles ($ 15,00 cada) para um city tour, e conhecer os pontos principais da cidade com menos tempo e caminhadas. O bilhete do ônibus permite que se desça num ponto, visite na calma e apanhe o próximo. Com tempo pode-se fazer todo o percurso parando em cada local e prosseguindo quando for conveniente, fazendo, assim, uma programação em ritmo próprio.

Paramos primeiramente na Fontana de Trevi, um monumento que impressiona pela realidade dos movimentos e força que impõe. Muito turistas: jovens, idosos, orientais, americanos... Havia até italianos. No entorno da Fontana há várias tratorias e osterias para lanches e refeições completas, além de lojinhas variadas. É um local bem agradável e aconchegante, movimentado e vibrante. Aproveitando uma dica que recebi, procurei um estúdio que grava a imagem das pessoas em três dimensões num cubo de vidro ($ 30,00). O trabalho é rápido e o resultado é excepcional. Uma ótima lembrança de viagem personalizada.




Da Fontana fomos ao Coliseu ($ 12,00), já no final da tarde. Aqui cometemos um erro por puro desconhecimento, pois o ingresso comprado dava direito a visitar também o Foro Romano, que fica bem ao lado. Além de não termos sido informados disso, o tempo não permitiria a visita, tendo sido preferível se tivéssemos priorizado a visita ao Coliseu em relação à Fontana, mas...

No Coliseu encontramos alguns brasileiros e um casal cearense, Vera e Carlos Alberto, que residem no Meireles e acompanharam-nos na visita. A construção é impressionante, ainda mais se levando em conta a época em que foi concebido e construído. É bom parar um pouco e contemplar o cenário, imaginando o agito ali nos dias de glória do Império Romano.




No retorno passamos na Praça Veneza, onde comemos alguma coisa enquanto a leve chuva que caía passava. Depois voltamos ao ponto de partida, jantamos comentando as andanças, mancadas e impressões do dia... E dando boas risadas também.


Dia 29/03, terça-feira:

Reservamos este dia para visitar o Museu do Vaticano, aonde chegamos por volta das 9:30. Fomos de metrô e aqui vai um comentário. O sistema de Roma é antigo, mal conservado e limitado. A limitação é compreensível, pois a cidade é repleta de tesouros da antiguidade, mas a má conservação não se justifica.

Na entrada do Vaticano também encontramos uma grande fila, porém organizada e sempre em movimento, com pessoas de todos os lugares, de todas as idades. O museu é bem variado, o prédio em si já é uma atração, e anda-se bastante em meio a uma multidão para se chegar à Capela Sistina, ponto alto da visitação.




Saímos do museu já à tarde e almoçamos num restaurante ali perto. A atendente era paulista. A dona também. Ainda pensamos em ir ao Foro Romano, mas desistimos, preferindo ficar mais na de tomar um vinho e bater papo num lugarzinho gostoso até chegar a hora de se recolher.


Dia 30/03, quarta-feira:

Iniciamos a viagem de retorno. Pegamos um trem de volta a Milão ($ 91,00 cada), num percurso de 3:30hs (partida às 11:15hs com chegada às 14:45hs). A viagem foi tranqüila e tivemos uma família americana como vizinhos até Florença. Como estávamos em assentos desencontrados pedi ao nosso parceiro de viagem para trocar de lugar falando meu bom inglês colegial: “I and my wife travell toghther. You se importa de trocar de lugar comigo?”. Obviamente a pergunta foi acompanhada por gestos, o que facilitou um pouco a compreensão. Lugares trocados, curtimos a viagem na boa.

Chegando em Milão, pegamos outro trem para Arona ($ 5,20 cada). Quando fui comprar os bilhetes havia um horário com partida quase imediata, e fiquei em dúvida se daria tempo de embarcar ou era melhor esperar o próximo. O funcionário que me atendia quis perder a paciência e tive, de novo, que lançar mão de meus conhecimentos lingüísticos para explicar-lhe: “We are brasilians tourists. I and my wyfe traveled by Italy on treno Trenitália. We going for Florence, Venzia, Roma, Arona e Milano. You tem que ter paciência com a gente!!” . Acabei optando pelo segundo horário, o que nos fez ficar por uma hora na estação, chegando a Arona ao fim da tarde. À noite fizemos um passeio pela cidade e jantamos no mesmo restaurante em que estivemos em nossa chegada.




31/03, quinta-feira:

Pegamos um trem rumo a Domodôssola ($ 3,90 cada). De lá pegamos outro, panorâmico, com destino a Locarno ($ 20,00 cada, incluída a volta), cidade situada no sul da Suíça, na extremidade norte do Lago Maggiore, o mesmo que banha Arona. O percurso é de quase duas horas por entre montanhas de cumes congelados e pequenas vilas. Uma paisagem lindíssima.


Em Locarno subimos a montanha Cardada, que fica a 1360 metros acima do nível do mar. A subida se dá em duas etapas: a primeira, num trenzinho ($ 5,50 cada incluindo a descida), e a segunda, de teleférico ($ 25,00 cada, incluindo a descida). Em cima da montanha há várias trilhas, cabanas para alugar e uma pista de esqui. A paisagem é lindíssima, com vista para o lago e para Arcona, que fica na outra margem do lago. Estávamos com o horário apertado, pois tínhamos que retornar a Domodôssola a tempo de pegar o último trem para Arona. Enquanto esperávamos o teleférico inocentemente no restaurante, vimo-lo, incrédulos, partir, silencioso, deslizando pelos cabos de aço... E outro só em mais meia hora. Mas tudo acabou dando certo, e chegamos bem.




À noite demos uma circulada na cidade, curtindo o friozinho gostoso. Mais algumas fotos, vitrines, sorvetes. Acabamos por encostar numa cantina, sendo atendidos por um cara muito simpático e conversador. A massa era muito gostosa, e tomei umas cervejas enquanto comia e papeava. Uma parada mais adiante, uma conversa fiada, e chegou a hora de nos recolhermos, afinal o dia foi bastante longo e proveitoso.


01/04, sexta-feira:

Amanhecemos a sexta com a sensação do dever cumprido. Começou aquela vontade grande de voltar para casa, para os filhos, a família, os amigos, o trabalho, os bares da vida. A essa altura a vontade de degustar uma picanha gorda e mal passada era enorme. Tomar umas canas e umas cervejas bem geladas (lá só as servem frias) tinha se transformado numa quase obsessão. Para aliviar, parei numa choperia artesanal e tomei uns tantos. Gimmy, o atendente, era simpático e comunicativo, e acabei experimentando todos os tipos de chope produzidos pela casa. Passamos o dia assim, beliscando uma guloseima aqui, tomando uma ali, batendo pernas.




No começo da tarde o Fábio chegou para nos “resgatar”. Sua companhia é ótima. Além disso, ele conhece bem a pequena cidade, pois há mais de dois anos fica hospedado lá quando vai a Milão. Quando pensávamos que iríamos somente cumprir tabela até a volta no sábado, eis que no fim da tarde uma grande feira começa a ser armada bem ao lado do hotel, no espaço que margeia o lago. Era uma feira de produtos europeus: doces, perfumes, artesanato, flores, queijos, defumados, porcelanas, vinhos, chopes, chocolates... Uma festa multicolorida. Em pouco tempo pessoas já transitavam entre uma barraca e outra. Para nós foi um achado ter toda a Europa ali, em poucos metros, bem vizinho à nossa casa provisória. Aproveitamos e demos uma prévia logo na sexta.

Mais tarde fomos jantar os três. O hotel no qual estávamos hospedados tem um restaurante na cobertura com vista noturna lidíssima. Ambiente animado, boa comida e atendimento. Um bom vinho para acompanhar e muito papo. Depois dormir.


02/04, sábado/domingo:

A feira tomou conta de nossa manhã. Compramos mais umas bobagens, algumas lembranças. Tomei uns chopes de marcas famosas. Não sei explicar porque, mas havia uma barraca de comidas da Argentina. Nunca pensei em ficar feliz ao ver argentinos, mas aqueles cortes de carnes na brasa... Almoçamos um bom e farto churrasco, coisa mais parecida com o que temos aqui.

Ao fim da tarde embarcamos no ônibus que nos levaria ao aeroporto de Milão. A viagem foi tranqüila e desembarcamos em Guarulhos às cinco da manhã do domingo, chegando em Fortaleza às 13 horas... Do aeroporto fomos direto para o Picanha do Miguel, onde tomei umas três cachaças e mais umas tantas cervejas com os filhos ao redor. Ô coisa boa é estar de volta à nossa terrinha!!



Altino Farias
altino.frs@gmail.com

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Mudanças



Voltei para a casa da mamãe. Não, não me separei. É que estou reformando meu apartamento, sendo impossível executar os serviços necessários residindo no local. Então fomos todos passar essa temporada na casa dela.

Toda mudança é dramática. Esta minha não fugiu à regra. Tivemos um trabalhão, pois acumulamos uma boa tranqueira durante os últimos vinte e dois anos. Além do mais, voltaremos ao ponto de partida cerca de dois ou três meses depois, quando a reforma estiver concluída. Será então a mudança da mudança.

Mas tudo tem seu lado divertido. A família estava toda em casa: eu, mulher, filha e filho. Cada um fazia a parte que lhe cabia. Ao selecionar objetos e documentos, deparei-me com preciosidades, algumas das quais julgava perdidas para sempre. À medida que encontrava algo inusitado, dizia em voz alta: “Achei meu cartão do CPF!!”, “Olhem meu certificado de alistamento militar!!”, “Encontrei a nota fiscal do nosso primeiro fogão!!”... E a cada anúncio todos corriam para ver o achado.

De estressante a mudança passou a ser uma curtição, pois todos entraram na brincadeira, divulgando em alto e bom som raridades encontradas escondidas pelo peso dos anos. Um celular tipo “tijolão”, um toca-fitas, notas fiscais de lojas que fecharam as portas há anos, um bichinho de pelúcia, cédulas de um dinheiro esquisito que um dia já havia sido dinheiro de verdade, roupas desaparecidas, relógios em desuso... Uma verdadeira volta ao passado.

Selecionamos somente objetos de uso imediato ou de valor para levar, o resto ficou aguardando nosso retorno. Mudamo-nos num domingo, sendo recebidos de braços abertos pela minha mãe, Dona Concita, em nossa casa que, pelos padrões de espaço atuais, é uma verdadeira mansão.

Em tudo a casa lembra papai, que a projetou e construiu. Muitos detalhes e acabamentos foram feitos por ele próprio, que costumava nos chamar sempre para participar de suas atividades. Assim, os quarenta e três anos de convivência que tenho com ela me levaram a uma segunda viagem de volta a outros tempos.

Fruteiras sombreiam o quintal, algumas das quais conheci ainda em estado de mudas, “bebês” de árvores. Outras vieram depois, e hoje várias gerações convivem em harmonia nesse privilegiado espaço, onde há também passáros em profusão e os mesmos encantos de antigamente.

Estou aqui pensando na mudança de volta ao apartamento renovado. Almas renovadas, documentos e objetos antigos reciclados e organizados, como que corrigindo a rota de nossas vidas. O passado presente, lembrando quem fomos um dia, fazendo-nos refletir sobre quem somos hoje e apontando para o amanhã.

E enquanto isso estiver acontecendo, Dona Concita estará onde sempre esteve, na já antiga mansão da família, portas abertas, braços abertos. Tanto ontem, como hoje, amanhã e sempre.


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Meus Primeiros 50 Anos

Fiz muitos planos para comemorar meus primeiros cinqüenta anos, mas todos foram por terra. Da grande festa de aniversário, embalada com luz negra e músicas dos anos 60/70, ficou só a vontade, pois a data este ano ficou espremida entre o carnaval e uma viagem de férias.



De volta à terrinha depois de quinze dias me deleitando com as maravilhas da Itália, muito trabalho por fazer... E contas a pagar.



“Mas um bom texto sobre o evento ‘50 anos’ vou escrever e publicar no blog”, pensei. Compromissos, falta de inspiração, cachaçadas. Passou um dia, outro, e mais outro. Então veio a solenidade de instalação da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e tomou todos os espaços ocasionalmente livres. Assim já vou com cinqüenta anos e dois meses. Melhor deixar as tais comemorações para ano que vem. O bom texto também.



Porém, para a data não passar totalmente em branco, reproduzo um texto de Mário Coelho Pinto de Andrade, escritor e político angolano (1928-1990), que fala sobre “O valioso tempo dos maduros”. Espero que gostem.





O Valioso Tempo dos Maduros





Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro.



Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.



Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.



Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.



'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...



Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.



O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

terça-feira, 10 de maio de 2011

Academia Cearense de Literatura e Jornalismo




Em setembro de 2010 fui convidado pelo amigo Reginaldo Vasconcelos, jornalista, advogado e cronista por excelência, a integrar um movimento visando a fundação de uma nova academia literária no estado. A idéia dele era formar uma entidade dinâmica, que interagisse com nosso meio sócio-cultural, e não apenas um depositário de nomes ilustres já um tanto inertes.

O corpo da Nova Academia, como a temos chamado, seria formado por nomes ilustres e também por talentos a lapidar, resgatando o princípio da academia antiga, onde mestres conviviam com discípulos e aprendizes, por assim dizer. Outro diferencial idealizado por Reginaldo seria encampar a literatura ligeira, onde figuram a reportagem, crônicas, contos, cordel, como também editores de jornalismo. Todos essencialmente de bom texto.

De início não imaginei porque fora convidado, mas o amigo acabou por me convencer com seus argumentos, sendo a edição do jornal virtual Pelos Bares da Vida uma das mais fortes razões. À época respondi: "Se não bastassem os bêbados e vagabundos, aparecem-me agora esses intelectuais. Sorte minha que eles podem acumular também essas outras duas qualidades. Se me têm com bom texto e letra, que seja".

Seguiram-se vários encontros informais. A maioria teve lugar na residência de Reginaldo, num recanto que ele denomina de Tenda Árabe. Muito uísque, cerveja e papo sobre todos os assuntos rolaram... Até sobre a Academia, pois esses encontros serviam mais para fortalecer os laços de amizade e identidade desse grupo inaugural, que para tratar de formalidades e acertos.

Aos poucos nomes foram sendo propostos, contatos foram feitos, e a coisa foi tomando corpo. A ânsia em ver tudo correndo às mil maravilhas era grande, mas com tantas pessoas envolvidas, tudo tinha que ir acontecendo a tempo certo. Sempre sob o comando do perseverante, paciente, obstinado e malabarista Reginaldo (lidar com egos é uma ciência!).

Consolidado o corpo de imortais, patronos definidos, passou-se à fase de programar a solenidade de instalação da Academia. Trajes formais, hora, local, convites, etc, etc. Depois de muitas delongas a data de 04 de maio de 2011 foi confirmada. A solenidade realizou-se no auditório da Associação Cearense de Imprensa, quando fui empossado, com muita honra e imensa humildade, na cadeira Nº 16, cujo patrono escolhido é o poeta jornalista Syndulpho Câmara.





Para mim esta solenidade não foi um fim, um coroamento, até porque não possuo credenciais para isso. É, pois, um novo começo, e, em companhia de grandes mestres, espero aprender mais e mais sobre a vida.

Agradeço a todos os leitores do Pelos Bares da Vida e do blog Opinião em Perspectiva pelo estímulo e apoio, aos meus parceiros no site Renato, Attila, Robson, Beto Vasconcelos e Luciano Osório pela colaboração, e à minha família pela paciência e cumplicidade.


Altino Farias
Membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Tradição Quebrada



O espaço é mínimo, o suficiente apenas para duas poltronas antigas, umas quatro cadeiras para espera e um pequeno banheiro. À frente das poltronas, um balcão de fórmica acomoda produtos, brochas, escovas, navalhas, pentes e tesouras utilizadas pelos dois barbeiros, que são parceiros no negócio há anos.

A calçada é o único elemento que separa a movimentada rua asfaltada do primeiro posto. Vez por outra alguém para com seu automóvel e pergunta: “Dá certo às seis?”, ao que o veterano profissional responde: “Tô com três cabelos, passe amanhã que dá.”. Antes de ouvir a resposta, o freguês já entende o “não” e arranca em primeira marcha, aproveitando o sinal verde, calando as impacientes buzinas que soaram à sua parada.

Raramente a sorte baixa e consegue-se cortar o cabelo sem grande espera. Entre um corte e outro o barbeiro pede licença para beber “água”, e vai a um botequim vizinho, voltando rapidinho, pronto para mais um corte, às vezes ainda fazendo careta.


O ambiente é simples. Um grande rádio “portátil” repousa sobre o balcão. Embrulhado num saco plástico, combina com as poltronas antigas e cadeiras capengas. As paredes, sem ver pintura nova há tempos, casam bem com o grande e desengonçado ventilador de teto, que espalha picotes de cabelo pelo ar. A conversa despretensiosa que rola no ambiente, somada ao cenário, remete a barbearias de pequenas cidades do interior.

E foi nessa barbearia que cortei meu cabelo nos últimos vinte anos. Uma tradição! Chegava, cumprimentava a todos e aguardava ser atendido lendo revistas mais que surradas. Para mim do jeito que estiver está bem. Detesto cortar cabelo. Nunca gostei. Na minha vez, sentava na poltrona, e em poucos minutos, bem ou mal, tudo estava resolvido.

Trabalhava lá próximo, o que facilitava o acesso. Depois meu ofício exigia deslocamentos pela cidade, e, sempre que necessário, acomodava a agenda de modo a passar pelo local. Ultimamente, trabalhando longe, havia se tornado um verdadeiro suplício manter esse hábito devido ao trânsito caótico e ao pouco tempo disponível. Insisti mais uma vez, e mais outra. Os engarrafamentos no percurso, cada vez mais insuportáveis, sempre me faziam pensar.

Um dia desses olhei atento para um salão moderno, que fica no meu trajeto trabalho-casa. Anotei o telefone e guardei. O cabelo ansiava por um corte, mas adiei o quanto pude. Enfim, desisti, rendi-me, capitulei, pedi arrego e joguei a toalha. Liguei para o dito salão, avisando que em dez minutos estaria lá. Com cabeleireiro disponível (aqui se suprime a figura do barbeiro), a operação foi rápida, porém não indolor, pois naquele momento mais uma tradição foi por terra, engolida pela selvageria da cidade, e por uma vida sem tempo para perder tempo com o que se preza e gosta.



Pedro Altino Farias, em 09/05/2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

Aconteceu em Florença



Florença: berço do Renascimento, cidade monumento da humanidade, cheia de charme e vida. Naquele dia resolvemos, eu e minha mulher, fazer diferente. Ao invés de emendar o dia com a noite, tiramos um breve cochilo após o almoço para darmos uma “esticada” depois.

Saímos do hotel ao fim da tarde sem destino certo, perambulando pela cidade. Sorvetes, doces, dois cálices de vinho. Nessa época a noite em Florença teima em não chegar, obrigando a tarde a se prolongar por mais algum tempo, colorindo o céu com um azul diferente, ao mesmo tempo intenso e calmo.

Caminhamos sem a atenção do dia, quando cada detalhe dessa bela cidade é observado. Atravessamos o rio Arno pela ponte Carraia. Voltamos. Entramos numa viela, desembocamos numa praça. Ficamos ali um pouco, vendo as pessoas, os prédios, o ar de Florença.

Em algum outro lugar da cidade um artista popular saiu de casa para tocar na rua e arrecadar uns trocados. Instalou-se com seu equipamento modesto bem no meio da ponte Vecchio. Tudo arrumado, começou a cantar, atraindo pessoas de todas as idades, línguas, costumes. Todos ali, naquele magnífico fim de tarde, unidos pela música. Uma festa!

Em nova investida chegamos também à ponte Vecchio. As vitrines das joalherias exclusivas que ocupam parte da ponte chamavam atenção. Ofuscavam de tanta luz e explodiam em brilho, ainda sob um céu de azul estranho. Foi quando avistamos o artista popular bem no meio da ponte a entoar canções. Resolvemos parar um pouco para vê-lo.

Recostamo-nos no guarda corpo de pedra da ponte. O cantor havia terminado uma música e escolhia a seguinte, folheando uma pasta preta já desgastada. Passaram-se alguns instantes. Ouviam-se vozes e risos. Florentinos passavam apressados de um lado para outro, talvez estranhando tanto movimento por algo tão banal para eles.

Quando soou a primeira nota fez-se o silêncio. Então ouvimos, em italiano: “O que será que será, que andam suspirando pelas alcovas...”. Que coincidência! Ficamos ali, estáticos, ouvindo a canção que tanto fala aos nossos sentidos. Ao fim da música quis me aproximar e falar alguma coisa ao cantor anônimo, elogiar, mas ele emendou outra música e depois mais outra. Seguimos nosso caminho, não sem antes deixarmos nossa contribuição em retribuição a esse momento único que ele nos proporcionara.

Depois jantamos num simpático restaurante com um bom vinho a acompanhar nossa conversa. Enquanto conversávamos, brincávamos com o pessoal da casa, e o tempo passou. Fomos os últimos a sair. A essa altura o salão já estava vazio e à meia luz, mas a cortesia italiana ainda se fazia presente. Fomos caminhando sem pressa pelas ruas de uma Florença agora mais sossegada, cantarolando dentro de nossos corações para toda a cidade ouvir: “O que será que será, que andam suspirando pelas alcovas...”

Altino Farias

terça-feira, 15 de março de 2011

Os Mais Rápidos do Mundo

Completei 50 anos dia 12 de março último. Ao chegar em casa no dia anterior, meu filho, Altino José, chamou-me ao seu quarto. Queria dar seu presente. Abriu seu computador, selecionou um arquivo, e eis que surge na minha frente a crônica que vocês poderão ler a seguir.

Para um pai com quase 50 anos (ainda era véspera do aniversário, afinal), amante de carros antigos e de boa escrita, receber do filho um presente que concilia ambas as paixões, e ainda por cima relembra situações passadas... Só poderia mesmo despertar grande emoção. Com vocês...






Os Mais Rápidos do Mundo
Por Altino José de A. Farias





Década de 90.
Essa história começa quando um garoto, com seus 5 ou 6 anos, distraído com a paisagem, vê passar velozmente um carro esportivo. Esse fato chama sua atenção. Afinal, para ele, o carro mais rápido do mundo era o Opala do seu pai, no qual se encontrava no momento. Depois de algum tempo, ele pergunta:

- Pai, que carro é esse?
- É um Mitsubishi, meu filho.
- E ele é mais rápido que o Fusquinha? – (Fusquinha era o outro carro da família).
- É mais rápido sim.
- E é mais rápido que o Opala do senhor?
- É mais rápido que o Opala também.

Essa resposta foi um choque. Para ele, saber que tinha um carro mais rápido que o Opala do pai dele era ter um mundo abalado na sua cabeça. A partir disso, o garoto passou a buscar no trânsito mais respostas.

- Pai, qual é o carro mais rápido que o Mitsubishi?
- Não sei, meu filho.

Outro dia, quando voltava da escola, viu uma moto passar ao lado do Fusquinha. Ela sabia que motos eram bicicletas com motores, apesar de saber só que motores moviam os carros.

- Pai, uma moto é mais rápida que um Mitsubishi?
- Não, não é mais rápido.
- E é mais rápida que um Opala?
- Também não.
- E que um Fusquinha?
- É, acho que é mais rápido que um Fusquinha.

Assim, na lista dos mais rápidos o Mitsubishi liderava, seguido de perto do Opala. Infelizmente, o Fusquinha amargava o último lugar.
Novamente, quando via os carros na rua, avistou um carro de formas quadradas. Logo não tardou a perguntar:

- Pai, esse carro branco, qual o nome dele?
- É o Gol Mil.
O gorato logo pensa. Havia aprendido na escola que havia as unidades, dezenas, centenas e unidades de milhar. E que “Mil” era uma unidade de milhar, maior que todas as centenas. Para esse carro ser Mil, só podia ser bem rápido. Animado, volta a questionar:

- E ele é mais rápido que o Mitsubishi?
- Não é.
- E é mais rápido que o Opala?
- Também não, meu filho.
“Ufa, nem tudo estava perdido”, pensou. “O Gol Mil fica na frente da Moto”.

Assim, cada carro que lhe chamava atenção na rua, ele perguntava se era mais rápido do que cada elemento da sua lista. Quando ele ouvia um sim, acrescentava o veículo na sua lista, reposicionando o ranking. E foi o que aconteceu com o Chevette Hatch da Vovó, com o Gol (imediatamente acima do Gol Mil), Escort, Uno Mille, D20. A lista foi crescendo.

No seu aniversário, ele ganha dois pequenos carrinhos de presente: um vermelho e o outro dourado com o teto branco. Seu pai pega esse último e fala:
“Olha filho, esse carro tem o volante no outro lado. O nome é Mini Austin. Não é legal?”
Ele olha impressionado, abre as portas, dá corda empurrando o brinquedo com as rodas girando para trás, depois solta e vê o carrinho em disparada pela sala. Ele se anima pergunta:

- O Mini Austin, pai, é mais rápido que o Mitsubishi?

Seu pai o olha com carinho e fala mais uma vez pacientemente:

- Não, ele não é mais rápido que o Mitsubishi.

E o garoto repete, para cada carro da sua lista, em ordem decrescente de “velocidade”, até ouvir o sim, e encaixá-lo na lista.
Outra ocasião, ele vê um carro bem diferente na rua, com linhas que lembravam a do Opala do seu pai, mas estranhamente mais esportivas. Ele novamente pergunta:

- Pai, qual o nome desse carro?
- É o Marevick.
- E ele é mais rápido que o Mitsubishi.
- Não.
- E ele é mais rápido que o Opala do senhor?
- É sim, esse é mais rápido que o nosso Opalinha, infelizmente.

Um momento de tristeza bate. O Opala do seu pai já não era o segundo mais rápido. Mas ele rapidamente tem uma idéia e pergunta novamente:

- Pai, tem algum carro mais rápido que o Maverick?
- Tem sim, é o Dodge Charger R/T.
- E ele é mais rápido que o Mitsubishi?
- Não, ele não é.

Melhor não perguntar mais por hoje. O Opala já perdera duas posições. Meses se passam, sua ingênua lista cresce. Mais carros eram acrescidos: Ômega, carro da polícia, Kombi, Belina, enfim, inúmeros outros. Mas o Mitsubishi era invicto, campeão. Um dia, andando no Fusquinha, brincando com seus carrinhos, ele olha para o carrinho de brinquedo vermelho, que levantava os faróis com um botão embaixo do carro, e pergunta:

- Pai, a Ferrari é mais rápida que o Mitsubishi?

O pai olha para o banco traseiro com um sorriso mordaz, e fala calmamente balançando a cabeça:

- É sim. A Ferrari é mais rápida que o Mitsubishi.

O menino vibra. Finalmente sua busca chegara ao fim. Encontrou um carro mais rápido que o Mitsubishi, e conseqüentemente, o carro mais rápido do mundo. De certa forma, o Opala do seu pai finalmente fora vingado.

PS: A valiosa lista, obtida por horas a fio de procura durante meses e a “paciência” do seu pai, foi perdida com o tempo. Porém, sabemos hoje que a Bugatti é mais rápida que a Ferrari.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Divagando Durante o Carnaval













Escrevi um pensamento na areia. Logo uma onda o apagou. “Duração efêmera”, pensei. Mas pensamentos não precisam de meios físicos para existir. Essa efemeridade me fez lembrar de um a amigo que já se foi, Eduardo Ramos. Lutou, constituiu família, lutou. Aos quarenta anos, quando começava a colher resultados de tanta batalha, foi-se. Sua vida aqui foi breve, mas, na verdade, nunca nos deixou, e continua vivo em nossas lembranças.

Pensamentos em cadeia, lembrei de papai. Arquiteto assim como Eduardo, nos deixou aos quarenta e sete anos. Também batalhou muito, e, mesmo em pouco tempo, deixou razoável legado profissional e pessoal. Quando há substância, pensamentos não precisam da areia para existir, nem pessoas de seus corpos.

Às vezes fico pensando sobre quanto tempo ainda tenho aqui. Será que parto logo, ou vou ser daqueles que parecem esquecidos e vão ficando? Não vejo muita vantagem em demorar demais nesse mundo. Entes queridos se vão, amigos idem, limitações físicas nos transformam, e temos que ficar... Até quando tiver de ser. Só não quero ir antes de minha mãe. Não é natural, nem justo para os pais, que os filhos partam antes deles.

Vi uma pequena jangada entrando ao mar. Seguia com rapidez, fazendo-me pensar ser o pescador dono de grande habilidade. Mas nem podia ser ao contrário, senão, além de não obter resultado em sua pesca, ainda correria sério risco de perder-se naquela imensidão.

"Vem um carro ali. Será a polícia?". Agora é assim: não se pode beber dirigindo nem trafegar na praia de carro. Se me pegam, incorro em dupla infração. Um caso grave!

E por falar em cerveja, meu tempo na praia é determinado por ela. Coloco umas tantas latas na bolsa térmica e vou tomando de forma moderada, porém regular. Quando começam a esquentar é porque está chegando a hora de recorrer aos serviços do Veinho, dono da barraca onde costumamos fazer pouso.

Quadriciclos. Ainda não me despertaram emoção. Por enquanto sou mais meu buggy no qual posso passear pela beira da praia com certo conforto, apontando uma nuvem curiosa, uma duna recém formada, uma bela enseada... E isso tudo desfrutando das tais cervejas da bolsa térmica e boas companhias.

Quanta gente por aqui! Bons são os fim de semana comuns, quando, à tardinha, vê-se apenas um ou outro pescador nativo encerrando suas atividades. Sempre fazemos um passeio para ver o por do sol. Bom demais! Pode-se conversar ouvindo o ronco do mar, tomar um banho gostoso, fazer nada. Nessas ocasiões sungas e biquínis pesam demais. Acho que é porque nossos espíritos ficam mais leves e qualquer peça posta sobre nós, por mínima que seja, tem seu peso multiplicado. Confesso que o único receio é que apareça um peixe curioso o morda o que não deve... Mas estou perdendo esse medo, já que até hoje nada aconteceu.

Abri mais uma lata. Talvez fosse a última antes de levantar acampamento, pois sua temperatura já deixava a desejar. Lembrei da cerveja geladíssima do Flórida Bar. Bom seria se pudesse tomar uma daquelas naquele momento...

Contrações no abdômen sinalizaram que precisava interromper meus afazeres de nada para uma escala técnica. Mas ir em casa e voltar... Nem pensar! Peguei o buggy, rodei passando das ditas pessoas até que encontrei o lugar perfeito. Quando cheguei lá notei que alguém já havia tido a mesma idéia. “Até para escolher onde cagar se precisa de lógica e bom senso”, pensei ante a coincidência. Mas aquele era, realmente, um excelente local para o serviço, e assim deixei minha marca ali, recobrindo tudo de areia depois, à moda felina. Inevitável não lembrar de nossos políticos que “cagam” publicamente a sociedade sem nenhum pudor.

Fui ao mar “restaurar as configurações originais”. Aproveitei para um bom mergulho na maré forte, que subia rapidamente. Fora d’água, abri mais uma. Quase não deu para beber, mas a ocasião inusitada merecia pelo menos dois goles.

Voltei ao ponto de partida, recolhi o pessoal e fomos à barraca. No Veinho ouvimos o “melhor” da música baiana, funk e forró, e assim dei um descanso aos meus neurônios, que tanto já haviam trabalhado para mim. Meus tímpanos é que não gostaram muito da idéia, mas...

Pedro Altino Farias, em 10/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Quatro!


Quatro! Nem três, nem cinco, o número era quatro, decididamente. Por quê? Ah, quem sabe? Só sei que era quatro e fim.

O fato é que estava trabalhando em assunto do site Pelos Bares da Vida, e tomava uma cerveja gelada. A ação não era criar, coisa que muito me apraz, e sim, transcrever um texto manualmente direto de uma gravação de áudio. Reclamar de que se eu mesmo fui um dos inventores dessa empreitada?

Tomei uma lata como lenitivo para árdua tarefa. Ótimo! Desceu bem. Tomei a segunda. Idem. Ocorre que esqueci de gelar mais outras. Cerveja é bebida nojenta para se beber em casa. A gente tem que ter vontade minutos antes para poder, minutos depois, degustá-la gelada e com prazer.

Desisti. Não da tarefa, da cerveja. “Vou é tomar umas canas”, pensei. Em meu local de trabalho doméstico há uma pequena estante ao lado da mesinha do micro. Bem à altura da mão estão lá: um tonelzinho de cachaça, um bom uísque (em casa bebo cawboy) e sempre uma garrafa de cachaça artesanal do nosso interior, daquelas de esquentar as orelhas a cada talagada. Optei pela última.

Depois de duas doses senti falta de algo para tira-gosto. “Azeitonas”, pensei. Apanhei o pote na geladeira e escolhi quatro delas. Por que quatro? Não sei, mas tinha que ser quatro. Fui escolhendo uma a uma e colocando num pires. Eram as mais vistosas do pote.

A meio caminho, na volta à labuta, eis que uma delas resolve pular fora do prato. Fiquei só com três! Como pode alguém querer tomas umas canas com apenas três azeitonas? Eram as melhores, eu sei, mas, mesmo assim, insuficientes. “Deveria ter escolhido cinco”, pensei num instante para logo emendar: “Não, cinco é demais!”

A danada caiu e rolou para baixo de um armário. Não fosse isso, apanharia e tudo bem, afinal, quem foi que viu? Mas não, ela se escondeu mesmo. Sem alternativa, voltei ao pote. Olhei, olhei, olhei. Não consegui ver mais nenhuma outra que se comparasse àquela revoltosa. Nenhuma mais chamava minha atenção. Um “Porra, que saco!!” me veio à cabeça naquele momento.

O trabalho me aguardava e eu ali, enrolado por uma simples azeita. Apenas uma dentre quatro. Mas não dava mesmo. Bloqueou. Voltei à cozinha, devolvi as azeitonas restantes ao pote e... Lasquei um pedaço de provolone!

Altino Farias
altino.frs@gmail.com

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Aconteceu no Carnaval


Aconteceu no Carnaval

Raúl adorava uma boa farra. Às vezes dava uma fugida discreta, outras nem tanto. Sua doce mulher era tida como santa por aceitar suas traquinagens. Ela sempre dizia que na próxima não o perdoaria, mas acabava perdoando. Sempre.

Nos dias de carnaval ele sempre encontrava uma forma de dar uma escapada e curtir um pouco a festa pagã, mas esse ano seria diferente. Sua mulher havia combinado com parentes e amigos de passar os dias de folia no sossego de um pequeno sítio que arranjaram emprestado.

O sítio era, na verdade, quase um terreno nu. Algumas poucas fruteiras, Uma pequena casa de alvenaria, uma boa cacimba, e mato, muito mato. A energia vinha de uma gambiarra puxada de um vizinho rabugento, que vivia ameaçando cortar o fornecimento ao menor sinal de barulho.

A casa comportava, teoricamente, quinze pessoas, mas a lista já ia para mais de trinta, entre mulheres, crianças e marmanjos, que levariam Dreher e cachaça para beber. Para sonhar, uísque e cerveja. K-Suco, panelada, buchada, frango, farofa, manga e banana completavam o cardápio do grupo.

O pessoal se organizou como pôde, formando uma verdadeira caravana de Chevettes, Belinas, Del Reys e Fuscas. Na última hora Raúl conseguiu uma Brasília emprestada, fato que deixou sua mulher muito feliz, pois viajariam sozinhos ao invés de irem na Kombi de um compadre, onde o filho do casal já tinha lugar garantido.

Desde que decidiram passar os dias de folia nesse sítio, Raúl pensava numa forma de dar uma fugidinha, mas a tal propriedade era no meio do nada, quase impossível arrumar uma desculpa para sair de lá sozinho. O tempo passava rápido, e ele cada vez mais angustiado não vendo solução para seu caso. Enquanto pensava em mil artimanhas para escapulir, a esposa o pressionava com típicas chantagens emocionais em doses hemeopáticas.

Enfim chegou o dia. A maioria já havia seguido para o sítio na sexta, mas como Raúl trabalhava no sábado, teve que sair já de tarde. Ele e sua doce esposa seguiam na Brasília quando ela, muito amorosa, pediu-lhe que parasse numa padaria a fim de comprar mais algumas coisinhas. Ao estacionar o carro, Raúl perguntou à mulher, que exercia forte marcação sobre nele: “Quer que eu entre na padaria com você!?”, “Não benzinho, espere aqui”, respondeu ela com a voz mais meiga a apaixonada com a qual alguém poderia falar.

“É agora ou nunca!”, pensou ao ver a mulher entrando na padaria e sumindo de sua vista. Engatou uma ré e foi embora, sem nem ao menos olhar para trás. Dos dias que se seguiram ninguém tem notícia. Sabe-se apenas que na quarta feira de cinzas Raúl estava numa ressaca moral sem fim, e por isso emendou na gandaia até a segunda-feira seguinte, quando voltou para casa sem tostão, cansado e desconfiado. A mulher dele estava furiosa e quase não o perdoa desta vez. Quase!


Pedro Altino Farias, em 20/02/2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Moça da Revista


Tinha mania de guardar revistas. Economia e política interessavam no cotidiano. Carros e mulheres interessavam também, mas por gosto pessoal. Como resultado foi juntando umas e outras ao longo dos anos para repassá-las calmamente, quando um dia lhe sobrasse tempo. Tudo começou por volta de 1980, fazendo-o acumular razoável volume até a virada do século.

Nesta época, com pouco espaço disponível e a crescente digitalização de publicações passadas, pensou em desmontar seu brinquedo de quando se aposentasse. Mas resistiu. Quem tem apreço à leitura não renuncia ao manuseio do papel impresso. Livros e revistas antigos guardam em seu corpo marcas indeléveis do passado. Anotações manuais à margem das páginas, aquela folha amassada, um pingo de bebida que enrugou o papel. “Ainda não”, pensou.

Ocorre que, depois dos quarenta e poucos, ganhou a companhia de uma renite alérgica de tirar a paciência. Impressos guardados por longo período são morada ideal para fungos e acúmulo de fina poeira doméstica, tiro certo para desencadear uma reincidência da alergia. Fatores somados, chegou a hora de desmantelar a estante de fero.

Foi fazendo aos poucos, apesar de sempre sofrer efeitos colaterais. Levava um lote de revistas para a sala, e repassava as páginas de forma rápida e continuada. Parecia fotografar na memória cada uma antes do adeus final. Ao deparar com suas favoritas, dava-se ao direito de demorar um pouco. Uma entrevista com Paulo, Brossard, a caça ao boi gordo durante o plano cruzado, as “travessuras” do Delfim, a morte trágica de Tancredo, as crônicas do Veríssimo, as alegrias do esporte... Tudo desfilava perante seus olhos, às vezes lacrimosos.

Quando chegou a vez das especiais, de automóveis e belas mulheres, diminuiu o ritmo. Queria tudo mais nítido antes da separação. Divertia-se lendo sobre carros ainda segredo à época da publicação, hoje já fora de linha há anos. Equipamentos de última geração, que atualmente provocam risos pela obsolescência, eram descritos com entusiasmo e ineditismo. Uma pena, mas o adeus era necessário.

Por fim, as de mulheres. Muitas foram suas namoradas sem que tivessem sabido. Noites deslumbrantes, passeios em carros esporte, paisagens fantásticas, champanhe, música... Ah, sonhos! Certa vez, o filho dele, contando então uns dez anos, aproximou-se e conversaram entre um espirro e outro. Ele mostrou ao filho alguns exemplares que deixara por último. Eram as preferidas e mereciam mais uma vista.

Interessado, o menino escutava e observava o pai, talvez tentando aprender algo novo, talvez achando o pai o máximo. Foi quando se depararam com uma mulher monumental. No pôster central de uma publicação de meados de 1980, pele branca como a neve, cabelos longos, volumosos e negros, olhos esverdeados. Tudo na medida perfeita. Olhar, boca, coxas, seios e uma leve penugem encobrindo seus segredos... Uma miragem! Então o menino, maravilhado, já exercitando seus instintos de macho, perguntou:
- Papai, quem é essa moça?
O pai, com a sensibilidade própria dos homens, respondeu de pronto:
- Sei lá! Só sei que hoje em dia ela é uma véia!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

domingo, 30 de janeiro de 2011

Boletim de Ocorrência Dois em Um




Boletim de Ocorrência Dois em Um


Nó Cego, separado duas vezes e morando sozinho num apartamento de bairro de classe média, adora tomar umas por aí, mas sempre mantém vigilância atenta em seu copo com receio de colocarem alguma droga na bebida. Em casa seus passatempos preferidos são brincar na internet e com o “playstation”. O apartamento conta com três quartos, dois dos quais permanecem fechados, pois são para uso de suas filhas, quando elas o visitam.

Pagode, forró, noitada. Nó Cego é doidinho por isso. Num sábado foi a um bar que freqüentava habitualmente. Chegou jogando charme, e logo havia três garotas em sua mesa: uma bonitinha e duas “morromeno”. Passado algum tempo, depois de dançarem um pouco e muito papo furado, nosso amigo deu aquela cantada para seguirem viagem. Elas toparam. Comprou algumas latas de cerveja para beberem no trajeto e foram. Ele, alegre e satisfeito, elas com risinhos contidos.

Com um pretexto bobo, uma delas pediu para parar o carro “ali”, indicando o local com o dedo. Ele convidou a bonitinha a passar ao banco de trás do carro enquanto esperavam. Com isso, a outra “morromeno” foi para o banco da frente.

Aí foi uma conversa daqui, um tal de aperta dali, toma um golinho, vem cá nenezinha, peraí garanhão, vamu começar agora... E ela foi fazendo carinho nele, e ele foi amolecendo, amolecendo, amolecendo até que... Dormiu. E profundamente!

Acordou às sete do domingo, sem o som do carro, sem dinheiro, cartões, cheque. Muito puto da vida foi fazer um boletim de ocorrência, mas apenas uma delegacia distante estava com o sistema no ar. Resolveu deixar para depois.

Passou na casa da ex-mulher para pegar uns cinqüenta contos emprestados, foi para seu apartamento, tomou um banho e foi a ao bar de sempre, pertinho de casa. Lá foi aconselhado por amigos a ir imediatamente à delegacia fazer registrar a ocorrência, e assim fez. Mesmo que longe.

No caminho passou por uma churrascaria. A casa exalava animação. Superlotada, com gente dançando ao som de música popular e em altíssimo volume. Do jeito que ele gosta. Seguiu firme ao seu destino sem se deixar levar, mas, ao chegar, também esta delegacia estava com o sistema fora do ar, sendo impossível fazer o boletim de ocorrência. “PQP”, pensou. “Dar uma viagem dessa perdida!”. Perdida nada, voltou e parou na dita churrascaria para tomar umas.

Incontinente, sentou, pediu uma e olhou ao derredor. Logo identificou uma mesa com uma mulher quarentona, duas novinhas e um rapaz, que acompanhava uma delas. A que estava disponível ostentava um piercing super sensual no nariz. Nó Cego ficou encantado. Em poucos minutos já dividiam a mesma mesa e um papo animado.

Cavalheiro, preveniu aos outros que estava com pouco dinheiro, comentando sobre o roubo. Animado com o andamento dos papos, mas quase sem grana, convidou todos para tomar mais umas no bar de sempre, pois lá podia fazer um vale, e, quem sabe, até arrumar mais algum emprestado caso o pessoal topasse seguir adiante. A de quarenta resolveu ficar, seguindo os quatro para o dito bar.

Chegando, tomaram mais umas tantas, e ele sugeriu que fossem todos a um motel. O rapaz alertou que a garota que o acompanhava era menor de idade, então o programa gorou. Mas Nó Cego não desistiu e: “Então vamu todo mundo lá pra casa!!”. E foram.

Nó Cego organizou o lance. O casal ficou na sala, ele e a de piercing na suíte. Ainda se recuperando do “boa noite Cinderela”, continuou a brincar. Bebida vai, carinho vem. A garota disse que iria à sala falar com a amiga. Ela foi e ele... Relaxou e capotou. E dormiu profundamente.

Acordou no outro dia. Procurou a garota, e não viu. Foi à sala. Ninguém. Logo notou que seu estimado Playstation não estava no local de hábito. Começou a imaginar que algo dera errado. Tentou sair, mas não achou a chave da porta. Com uma cópia conseguiu sair. Embaixo do prédio, nem garotas, nem rapaz, nem piercing, nem carro... Nada!

“Ora de pedir ajuda”, pensou. Foi com um irmão, enfim, fazer o boletim de ocorrência. Enquanto narrava o acontecido desde a noite do sábado, o escrivão começou a rir, e a rir, e a rir. Ria a tal ponto que uma chefe não-sei-de-quê veio lá de dentro saber o que estava se passando, que brincadeira era aquela na delegacia. Mas não era brincadeira, era só o Nó Cego contando ao escrivão esta história que vocês acabaram de ler. E assim foi registrado o boletim de ocorrência “dois em um”.


Altino Farias & Antônio José Felício Pinho
altino.frs@gmail.com

domingo, 23 de janeiro de 2011

Será Que Foi Sonho?








Estava dormindo. Com certeza eu dormia naquele momento. O dia que passara havia sido comum, sem novidades. A noite que se seguira transcorria da mesma forma. Nada de especial, nada. Nenhuma preocupação ocupava minha mente, como também nenhuma grande expectativa inquietava minha alma naqueles dias.

No meio da madrugada acordei com alguém falando ao meu ouvido. Nem imagino de onde poderá ter vindo, nem tampouco para aonde foi. Sonho? Não, definitivamente não foi sonho. A voz era límpida, serena e envolta em ternura. Disse o que queria dizer e foi-se, deixando-me ali, estático, pensando no que acabara de acontecer e ouvir.

Ao acordar pela manhã o que ocorrera ainda era muito presente, e eu ouvia a voz a soprar aquela frase a cada momento. Aliás, ela vem ao meu pensamento ocasionalmente até hoje. Naquela época enviei por email aos meus contatos o que havia ouvido, e, agora, faço o mesmo neste espaço internético, para que todos saibam que um dia alguém veio, não sei de onde, e disse-me carinhosamente enquanto eu dormia:




“Tenha sempre uma visão clara dos campos durante o dia para que à noite não se perca na escuridão.”



Altino Farias
altino.frs@gmail.com




quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Um Clássico!


Amante de carros antigos, sempre fico atento quando surge algum comentário ou situação que faça referência a essas jóias. Outro dia assisti a um filme que me deixou de “alma lavada”. Na trama, uma jovem advogada mantém um romance com um executivo dos seus cinqüenta anos. Ele, bem sucedido, divorciado, e pai de uma adolescente que de tudo faz para chamar atenção. Ela; morena clara, cabelos escuros e cacheados, ativa e perspicaz; dirigia um Karmann Guia conversível, automóvel que fez grande sucesso nos anos 60 em todo o mundo. O carro, íntegro e muito bem preservado, apresentava pintura desbotada e alguns amassados, fatos que o credenciavam a uma operação de restauro, findo a qual estaria como novo.

Em certa passagem a menina pede ao pai que a leve na festinha na casa de um amigo. Um imprevisto, porém, não o deixa cumprir o compromisso. A namorada, então, é acionada para suprir sua falta, apanhando a filha na casa da ex-esposa e levando-a a casa do amiguinho.

Claro que a menina tinha ciúmes da namorada do Pai, e fazia o possível para infernizá-la. Na hora marcada a jovem buzina à porta da casa da adolescente, que entra no carro com a cara emburrada e logo pergunta pelo pai. Explicação dada, seguem o trajeto entre uma e outra tentativa sem sucesso da bela advogada em estabelecer um diálogo.

De repente a menina começa a falar. Diz que os pais de seus amigos têm carros esporte e de luxo, como BMW, Mercedes e Jaguar. A jovem até se anima, imaginando o início de um papo. Fútil, verdade, mas melhor que nada. Depois de enumerar as qualidades dos automóveis de seu próprio pai e dos pais dos amigos, pergunta à advogada:
- E afinal, que carro é esse seu?
A jovem olha para a menina com certo desdém, e responde simplesmente:
- Um clássico!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com