terça-feira, 10 de maio de 2011

Academia Cearense de Literatura e Jornalismo




Em setembro de 2010 fui convidado pelo amigo Reginaldo Vasconcelos, jornalista, advogado e cronista por excelência, a integrar um movimento visando a fundação de uma nova academia literária no estado. A idéia dele era formar uma entidade dinâmica, que interagisse com nosso meio sócio-cultural, e não apenas um depositário de nomes ilustres já um tanto inertes.

O corpo da Nova Academia, como a temos chamado, seria formado por nomes ilustres e também por talentos a lapidar, resgatando o princípio da academia antiga, onde mestres conviviam com discípulos e aprendizes, por assim dizer. Outro diferencial idealizado por Reginaldo seria encampar a literatura ligeira, onde figuram a reportagem, crônicas, contos, cordel, como também editores de jornalismo. Todos essencialmente de bom texto.

De início não imaginei porque fora convidado, mas o amigo acabou por me convencer com seus argumentos, sendo a edição do jornal virtual Pelos Bares da Vida uma das mais fortes razões. À época respondi: "Se não bastassem os bêbados e vagabundos, aparecem-me agora esses intelectuais. Sorte minha que eles podem acumular também essas outras duas qualidades. Se me têm com bom texto e letra, que seja".

Seguiram-se vários encontros informais. A maioria teve lugar na residência de Reginaldo, num recanto que ele denomina de Tenda Árabe. Muito uísque, cerveja e papo sobre todos os assuntos rolaram... Até sobre a Academia, pois esses encontros serviam mais para fortalecer os laços de amizade e identidade desse grupo inaugural, que para tratar de formalidades e acertos.

Aos poucos nomes foram sendo propostos, contatos foram feitos, e a coisa foi tomando corpo. A ânsia em ver tudo correndo às mil maravilhas era grande, mas com tantas pessoas envolvidas, tudo tinha que ir acontecendo a tempo certo. Sempre sob o comando do perseverante, paciente, obstinado e malabarista Reginaldo (lidar com egos é uma ciência!).

Consolidado o corpo de imortais, patronos definidos, passou-se à fase de programar a solenidade de instalação da Academia. Trajes formais, hora, local, convites, etc, etc. Depois de muitas delongas a data de 04 de maio de 2011 foi confirmada. A solenidade realizou-se no auditório da Associação Cearense de Imprensa, quando fui empossado, com muita honra e imensa humildade, na cadeira Nº 16, cujo patrono escolhido é o poeta jornalista Syndulpho Câmara.





Para mim esta solenidade não foi um fim, um coroamento, até porque não possuo credenciais para isso. É, pois, um novo começo, e, em companhia de grandes mestres, espero aprender mais e mais sobre a vida.

Agradeço a todos os leitores do Pelos Bares da Vida e do blog Opinião em Perspectiva pelo estímulo e apoio, aos meus parceiros no site Renato, Attila, Robson, Beto Vasconcelos e Luciano Osório pela colaboração, e à minha família pela paciência e cumplicidade.


Altino Farias
Membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Tradição Quebrada



O espaço é mínimo, o suficiente apenas para duas poltronas antigas, umas quatro cadeiras para espera e um pequeno banheiro. À frente das poltronas, um balcão de fórmica acomoda produtos, brochas, escovas, navalhas, pentes e tesouras utilizadas pelos dois barbeiros, que são parceiros no negócio há anos.

A calçada é o único elemento que separa a movimentada rua asfaltada do primeiro posto. Vez por outra alguém para com seu automóvel e pergunta: “Dá certo às seis?”, ao que o veterano profissional responde: “Tô com três cabelos, passe amanhã que dá.”. Antes de ouvir a resposta, o freguês já entende o “não” e arranca em primeira marcha, aproveitando o sinal verde, calando as impacientes buzinas que soaram à sua parada.

Raramente a sorte baixa e consegue-se cortar o cabelo sem grande espera. Entre um corte e outro o barbeiro pede licença para beber “água”, e vai a um botequim vizinho, voltando rapidinho, pronto para mais um corte, às vezes ainda fazendo careta.


O ambiente é simples. Um grande rádio “portátil” repousa sobre o balcão. Embrulhado num saco plástico, combina com as poltronas antigas e cadeiras capengas. As paredes, sem ver pintura nova há tempos, casam bem com o grande e desengonçado ventilador de teto, que espalha picotes de cabelo pelo ar. A conversa despretensiosa que rola no ambiente, somada ao cenário, remete a barbearias de pequenas cidades do interior.

E foi nessa barbearia que cortei meu cabelo nos últimos vinte anos. Uma tradição! Chegava, cumprimentava a todos e aguardava ser atendido lendo revistas mais que surradas. Para mim do jeito que estiver está bem. Detesto cortar cabelo. Nunca gostei. Na minha vez, sentava na poltrona, e em poucos minutos, bem ou mal, tudo estava resolvido.

Trabalhava lá próximo, o que facilitava o acesso. Depois meu ofício exigia deslocamentos pela cidade, e, sempre que necessário, acomodava a agenda de modo a passar pelo local. Ultimamente, trabalhando longe, havia se tornado um verdadeiro suplício manter esse hábito devido ao trânsito caótico e ao pouco tempo disponível. Insisti mais uma vez, e mais outra. Os engarrafamentos no percurso, cada vez mais insuportáveis, sempre me faziam pensar.

Um dia desses olhei atento para um salão moderno, que fica no meu trajeto trabalho-casa. Anotei o telefone e guardei. O cabelo ansiava por um corte, mas adiei o quanto pude. Enfim, desisti, rendi-me, capitulei, pedi arrego e joguei a toalha. Liguei para o dito salão, avisando que em dez minutos estaria lá. Com cabeleireiro disponível (aqui se suprime a figura do barbeiro), a operação foi rápida, porém não indolor, pois naquele momento mais uma tradição foi por terra, engolida pela selvageria da cidade, e por uma vida sem tempo para perder tempo com o que se preza e gosta.



Pedro Altino Farias, em 09/05/2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

Aconteceu em Florença



Florença: berço do Renascimento, cidade monumento da humanidade, cheia de charme e vida. Naquele dia resolvemos, eu e minha mulher, fazer diferente. Ao invés de emendar o dia com a noite, tiramos um breve cochilo após o almoço para darmos uma “esticada” depois.

Saímos do hotel ao fim da tarde sem destino certo, perambulando pela cidade. Sorvetes, doces, dois cálices de vinho. Nessa época a noite em Florença teima em não chegar, obrigando a tarde a se prolongar por mais algum tempo, colorindo o céu com um azul diferente, ao mesmo tempo intenso e calmo.

Caminhamos sem a atenção do dia, quando cada detalhe dessa bela cidade é observado. Atravessamos o rio Arno pela ponte Carraia. Voltamos. Entramos numa viela, desembocamos numa praça. Ficamos ali um pouco, vendo as pessoas, os prédios, o ar de Florença.

Em algum outro lugar da cidade um artista popular saiu de casa para tocar na rua e arrecadar uns trocados. Instalou-se com seu equipamento modesto bem no meio da ponte Vecchio. Tudo arrumado, começou a cantar, atraindo pessoas de todas as idades, línguas, costumes. Todos ali, naquele magnífico fim de tarde, unidos pela música. Uma festa!

Em nova investida chegamos também à ponte Vecchio. As vitrines das joalherias exclusivas que ocupam parte da ponte chamavam atenção. Ofuscavam de tanta luz e explodiam em brilho, ainda sob um céu de azul estranho. Foi quando avistamos o artista popular bem no meio da ponte a entoar canções. Resolvemos parar um pouco para vê-lo.

Recostamo-nos no guarda corpo de pedra da ponte. O cantor havia terminado uma música e escolhia a seguinte, folheando uma pasta preta já desgastada. Passaram-se alguns instantes. Ouviam-se vozes e risos. Florentinos passavam apressados de um lado para outro, talvez estranhando tanto movimento por algo tão banal para eles.

Quando soou a primeira nota fez-se o silêncio. Então ouvimos, em italiano: “O que será que será, que andam suspirando pelas alcovas...”. Que coincidência! Ficamos ali, estáticos, ouvindo a canção que tanto fala aos nossos sentidos. Ao fim da música quis me aproximar e falar alguma coisa ao cantor anônimo, elogiar, mas ele emendou outra música e depois mais outra. Seguimos nosso caminho, não sem antes deixarmos nossa contribuição em retribuição a esse momento único que ele nos proporcionara.

Depois jantamos num simpático restaurante com um bom vinho a acompanhar nossa conversa. Enquanto conversávamos, brincávamos com o pessoal da casa, e o tempo passou. Fomos os últimos a sair. A essa altura o salão já estava vazio e à meia luz, mas a cortesia italiana ainda se fazia presente. Fomos caminhando sem pressa pelas ruas de uma Florença agora mais sossegada, cantarolando dentro de nossos corações para toda a cidade ouvir: “O que será que será, que andam suspirando pelas alcovas...”

Altino Farias

terça-feira, 15 de março de 2011

Os Mais Rápidos do Mundo

Completei 50 anos dia 12 de março último. Ao chegar em casa no dia anterior, meu filho, Altino José, chamou-me ao seu quarto. Queria dar seu presente. Abriu seu computador, selecionou um arquivo, e eis que surge na minha frente a crônica que vocês poderão ler a seguir.

Para um pai com quase 50 anos (ainda era véspera do aniversário, afinal), amante de carros antigos e de boa escrita, receber do filho um presente que concilia ambas as paixões, e ainda por cima relembra situações passadas... Só poderia mesmo despertar grande emoção. Com vocês...






Os Mais Rápidos do Mundo
Por Altino José de A. Farias





Década de 90.
Essa história começa quando um garoto, com seus 5 ou 6 anos, distraído com a paisagem, vê passar velozmente um carro esportivo. Esse fato chama sua atenção. Afinal, para ele, o carro mais rápido do mundo era o Opala do seu pai, no qual se encontrava no momento. Depois de algum tempo, ele pergunta:

- Pai, que carro é esse?
- É um Mitsubishi, meu filho.
- E ele é mais rápido que o Fusquinha? – (Fusquinha era o outro carro da família).
- É mais rápido sim.
- E é mais rápido que o Opala do senhor?
- É mais rápido que o Opala também.

Essa resposta foi um choque. Para ele, saber que tinha um carro mais rápido que o Opala do pai dele era ter um mundo abalado na sua cabeça. A partir disso, o garoto passou a buscar no trânsito mais respostas.

- Pai, qual é o carro mais rápido que o Mitsubishi?
- Não sei, meu filho.

Outro dia, quando voltava da escola, viu uma moto passar ao lado do Fusquinha. Ela sabia que motos eram bicicletas com motores, apesar de saber só que motores moviam os carros.

- Pai, uma moto é mais rápida que um Mitsubishi?
- Não, não é mais rápido.
- E é mais rápida que um Opala?
- Também não.
- E que um Fusquinha?
- É, acho que é mais rápido que um Fusquinha.

Assim, na lista dos mais rápidos o Mitsubishi liderava, seguido de perto do Opala. Infelizmente, o Fusquinha amargava o último lugar.
Novamente, quando via os carros na rua, avistou um carro de formas quadradas. Logo não tardou a perguntar:

- Pai, esse carro branco, qual o nome dele?
- É o Gol Mil.
O gorato logo pensa. Havia aprendido na escola que havia as unidades, dezenas, centenas e unidades de milhar. E que “Mil” era uma unidade de milhar, maior que todas as centenas. Para esse carro ser Mil, só podia ser bem rápido. Animado, volta a questionar:

- E ele é mais rápido que o Mitsubishi?
- Não é.
- E é mais rápido que o Opala?
- Também não, meu filho.
“Ufa, nem tudo estava perdido”, pensou. “O Gol Mil fica na frente da Moto”.

Assim, cada carro que lhe chamava atenção na rua, ele perguntava se era mais rápido do que cada elemento da sua lista. Quando ele ouvia um sim, acrescentava o veículo na sua lista, reposicionando o ranking. E foi o que aconteceu com o Chevette Hatch da Vovó, com o Gol (imediatamente acima do Gol Mil), Escort, Uno Mille, D20. A lista foi crescendo.

No seu aniversário, ele ganha dois pequenos carrinhos de presente: um vermelho e o outro dourado com o teto branco. Seu pai pega esse último e fala:
“Olha filho, esse carro tem o volante no outro lado. O nome é Mini Austin. Não é legal?”
Ele olha impressionado, abre as portas, dá corda empurrando o brinquedo com as rodas girando para trás, depois solta e vê o carrinho em disparada pela sala. Ele se anima pergunta:

- O Mini Austin, pai, é mais rápido que o Mitsubishi?

Seu pai o olha com carinho e fala mais uma vez pacientemente:

- Não, ele não é mais rápido que o Mitsubishi.

E o garoto repete, para cada carro da sua lista, em ordem decrescente de “velocidade”, até ouvir o sim, e encaixá-lo na lista.
Outra ocasião, ele vê um carro bem diferente na rua, com linhas que lembravam a do Opala do seu pai, mas estranhamente mais esportivas. Ele novamente pergunta:

- Pai, qual o nome desse carro?
- É o Marevick.
- E ele é mais rápido que o Mitsubishi.
- Não.
- E ele é mais rápido que o Opala do senhor?
- É sim, esse é mais rápido que o nosso Opalinha, infelizmente.

Um momento de tristeza bate. O Opala do seu pai já não era o segundo mais rápido. Mas ele rapidamente tem uma idéia e pergunta novamente:

- Pai, tem algum carro mais rápido que o Maverick?
- Tem sim, é o Dodge Charger R/T.
- E ele é mais rápido que o Mitsubishi?
- Não, ele não é.

Melhor não perguntar mais por hoje. O Opala já perdera duas posições. Meses se passam, sua ingênua lista cresce. Mais carros eram acrescidos: Ômega, carro da polícia, Kombi, Belina, enfim, inúmeros outros. Mas o Mitsubishi era invicto, campeão. Um dia, andando no Fusquinha, brincando com seus carrinhos, ele olha para o carrinho de brinquedo vermelho, que levantava os faróis com um botão embaixo do carro, e pergunta:

- Pai, a Ferrari é mais rápida que o Mitsubishi?

O pai olha para o banco traseiro com um sorriso mordaz, e fala calmamente balançando a cabeça:

- É sim. A Ferrari é mais rápida que o Mitsubishi.

O menino vibra. Finalmente sua busca chegara ao fim. Encontrou um carro mais rápido que o Mitsubishi, e conseqüentemente, o carro mais rápido do mundo. De certa forma, o Opala do seu pai finalmente fora vingado.

PS: A valiosa lista, obtida por horas a fio de procura durante meses e a “paciência” do seu pai, foi perdida com o tempo. Porém, sabemos hoje que a Bugatti é mais rápida que a Ferrari.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Divagando Durante o Carnaval













Escrevi um pensamento na areia. Logo uma onda o apagou. “Duração efêmera”, pensei. Mas pensamentos não precisam de meios físicos para existir. Essa efemeridade me fez lembrar de um a amigo que já se foi, Eduardo Ramos. Lutou, constituiu família, lutou. Aos quarenta anos, quando começava a colher resultados de tanta batalha, foi-se. Sua vida aqui foi breve, mas, na verdade, nunca nos deixou, e continua vivo em nossas lembranças.

Pensamentos em cadeia, lembrei de papai. Arquiteto assim como Eduardo, nos deixou aos quarenta e sete anos. Também batalhou muito, e, mesmo em pouco tempo, deixou razoável legado profissional e pessoal. Quando há substância, pensamentos não precisam da areia para existir, nem pessoas de seus corpos.

Às vezes fico pensando sobre quanto tempo ainda tenho aqui. Será que parto logo, ou vou ser daqueles que parecem esquecidos e vão ficando? Não vejo muita vantagem em demorar demais nesse mundo. Entes queridos se vão, amigos idem, limitações físicas nos transformam, e temos que ficar... Até quando tiver de ser. Só não quero ir antes de minha mãe. Não é natural, nem justo para os pais, que os filhos partam antes deles.

Vi uma pequena jangada entrando ao mar. Seguia com rapidez, fazendo-me pensar ser o pescador dono de grande habilidade. Mas nem podia ser ao contrário, senão, além de não obter resultado em sua pesca, ainda correria sério risco de perder-se naquela imensidão.

"Vem um carro ali. Será a polícia?". Agora é assim: não se pode beber dirigindo nem trafegar na praia de carro. Se me pegam, incorro em dupla infração. Um caso grave!

E por falar em cerveja, meu tempo na praia é determinado por ela. Coloco umas tantas latas na bolsa térmica e vou tomando de forma moderada, porém regular. Quando começam a esquentar é porque está chegando a hora de recorrer aos serviços do Veinho, dono da barraca onde costumamos fazer pouso.

Quadriciclos. Ainda não me despertaram emoção. Por enquanto sou mais meu buggy no qual posso passear pela beira da praia com certo conforto, apontando uma nuvem curiosa, uma duna recém formada, uma bela enseada... E isso tudo desfrutando das tais cervejas da bolsa térmica e boas companhias.

Quanta gente por aqui! Bons são os fim de semana comuns, quando, à tardinha, vê-se apenas um ou outro pescador nativo encerrando suas atividades. Sempre fazemos um passeio para ver o por do sol. Bom demais! Pode-se conversar ouvindo o ronco do mar, tomar um banho gostoso, fazer nada. Nessas ocasiões sungas e biquínis pesam demais. Acho que é porque nossos espíritos ficam mais leves e qualquer peça posta sobre nós, por mínima que seja, tem seu peso multiplicado. Confesso que o único receio é que apareça um peixe curioso o morda o que não deve... Mas estou perdendo esse medo, já que até hoje nada aconteceu.

Abri mais uma lata. Talvez fosse a última antes de levantar acampamento, pois sua temperatura já deixava a desejar. Lembrei da cerveja geladíssima do Flórida Bar. Bom seria se pudesse tomar uma daquelas naquele momento...

Contrações no abdômen sinalizaram que precisava interromper meus afazeres de nada para uma escala técnica. Mas ir em casa e voltar... Nem pensar! Peguei o buggy, rodei passando das ditas pessoas até que encontrei o lugar perfeito. Quando cheguei lá notei que alguém já havia tido a mesma idéia. “Até para escolher onde cagar se precisa de lógica e bom senso”, pensei ante a coincidência. Mas aquele era, realmente, um excelente local para o serviço, e assim deixei minha marca ali, recobrindo tudo de areia depois, à moda felina. Inevitável não lembrar de nossos políticos que “cagam” publicamente a sociedade sem nenhum pudor.

Fui ao mar “restaurar as configurações originais”. Aproveitei para um bom mergulho na maré forte, que subia rapidamente. Fora d’água, abri mais uma. Quase não deu para beber, mas a ocasião inusitada merecia pelo menos dois goles.

Voltei ao ponto de partida, recolhi o pessoal e fomos à barraca. No Veinho ouvimos o “melhor” da música baiana, funk e forró, e assim dei um descanso aos meus neurônios, que tanto já haviam trabalhado para mim. Meus tímpanos é que não gostaram muito da idéia, mas...

Pedro Altino Farias, em 10/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Quatro!


Quatro! Nem três, nem cinco, o número era quatro, decididamente. Por quê? Ah, quem sabe? Só sei que era quatro e fim.

O fato é que estava trabalhando em assunto do site Pelos Bares da Vida, e tomava uma cerveja gelada. A ação não era criar, coisa que muito me apraz, e sim, transcrever um texto manualmente direto de uma gravação de áudio. Reclamar de que se eu mesmo fui um dos inventores dessa empreitada?

Tomei uma lata como lenitivo para árdua tarefa. Ótimo! Desceu bem. Tomei a segunda. Idem. Ocorre que esqueci de gelar mais outras. Cerveja é bebida nojenta para se beber em casa. A gente tem que ter vontade minutos antes para poder, minutos depois, degustá-la gelada e com prazer.

Desisti. Não da tarefa, da cerveja. “Vou é tomar umas canas”, pensei. Em meu local de trabalho doméstico há uma pequena estante ao lado da mesinha do micro. Bem à altura da mão estão lá: um tonelzinho de cachaça, um bom uísque (em casa bebo cawboy) e sempre uma garrafa de cachaça artesanal do nosso interior, daquelas de esquentar as orelhas a cada talagada. Optei pela última.

Depois de duas doses senti falta de algo para tira-gosto. “Azeitonas”, pensei. Apanhei o pote na geladeira e escolhi quatro delas. Por que quatro? Não sei, mas tinha que ser quatro. Fui escolhendo uma a uma e colocando num pires. Eram as mais vistosas do pote.

A meio caminho, na volta à labuta, eis que uma delas resolve pular fora do prato. Fiquei só com três! Como pode alguém querer tomas umas canas com apenas três azeitonas? Eram as melhores, eu sei, mas, mesmo assim, insuficientes. “Deveria ter escolhido cinco”, pensei num instante para logo emendar: “Não, cinco é demais!”

A danada caiu e rolou para baixo de um armário. Não fosse isso, apanharia e tudo bem, afinal, quem foi que viu? Mas não, ela se escondeu mesmo. Sem alternativa, voltei ao pote. Olhei, olhei, olhei. Não consegui ver mais nenhuma outra que se comparasse àquela revoltosa. Nenhuma mais chamava minha atenção. Um “Porra, que saco!!” me veio à cabeça naquele momento.

O trabalho me aguardava e eu ali, enrolado por uma simples azeita. Apenas uma dentre quatro. Mas não dava mesmo. Bloqueou. Voltei à cozinha, devolvi as azeitonas restantes ao pote e... Lasquei um pedaço de provolone!

Altino Farias
altino.frs@gmail.com

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Aconteceu no Carnaval


Aconteceu no Carnaval

Raúl adorava uma boa farra. Às vezes dava uma fugida discreta, outras nem tanto. Sua doce mulher era tida como santa por aceitar suas traquinagens. Ela sempre dizia que na próxima não o perdoaria, mas acabava perdoando. Sempre.

Nos dias de carnaval ele sempre encontrava uma forma de dar uma escapada e curtir um pouco a festa pagã, mas esse ano seria diferente. Sua mulher havia combinado com parentes e amigos de passar os dias de folia no sossego de um pequeno sítio que arranjaram emprestado.

O sítio era, na verdade, quase um terreno nu. Algumas poucas fruteiras, Uma pequena casa de alvenaria, uma boa cacimba, e mato, muito mato. A energia vinha de uma gambiarra puxada de um vizinho rabugento, que vivia ameaçando cortar o fornecimento ao menor sinal de barulho.

A casa comportava, teoricamente, quinze pessoas, mas a lista já ia para mais de trinta, entre mulheres, crianças e marmanjos, que levariam Dreher e cachaça para beber. Para sonhar, uísque e cerveja. K-Suco, panelada, buchada, frango, farofa, manga e banana completavam o cardápio do grupo.

O pessoal se organizou como pôde, formando uma verdadeira caravana de Chevettes, Belinas, Del Reys e Fuscas. Na última hora Raúl conseguiu uma Brasília emprestada, fato que deixou sua mulher muito feliz, pois viajariam sozinhos ao invés de irem na Kombi de um compadre, onde o filho do casal já tinha lugar garantido.

Desde que decidiram passar os dias de folia nesse sítio, Raúl pensava numa forma de dar uma fugidinha, mas a tal propriedade era no meio do nada, quase impossível arrumar uma desculpa para sair de lá sozinho. O tempo passava rápido, e ele cada vez mais angustiado não vendo solução para seu caso. Enquanto pensava em mil artimanhas para escapulir, a esposa o pressionava com típicas chantagens emocionais em doses hemeopáticas.

Enfim chegou o dia. A maioria já havia seguido para o sítio na sexta, mas como Raúl trabalhava no sábado, teve que sair já de tarde. Ele e sua doce esposa seguiam na Brasília quando ela, muito amorosa, pediu-lhe que parasse numa padaria a fim de comprar mais algumas coisinhas. Ao estacionar o carro, Raúl perguntou à mulher, que exercia forte marcação sobre nele: “Quer que eu entre na padaria com você!?”, “Não benzinho, espere aqui”, respondeu ela com a voz mais meiga a apaixonada com a qual alguém poderia falar.

“É agora ou nunca!”, pensou ao ver a mulher entrando na padaria e sumindo de sua vista. Engatou uma ré e foi embora, sem nem ao menos olhar para trás. Dos dias que se seguiram ninguém tem notícia. Sabe-se apenas que na quarta feira de cinzas Raúl estava numa ressaca moral sem fim, e por isso emendou na gandaia até a segunda-feira seguinte, quando voltou para casa sem tostão, cansado e desconfiado. A mulher dele estava furiosa e quase não o perdoa desta vez. Quase!


Pedro Altino Farias, em 20/02/2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Moça da Revista


Tinha mania de guardar revistas. Economia e política interessavam no cotidiano. Carros e mulheres interessavam também, mas por gosto pessoal. Como resultado foi juntando umas e outras ao longo dos anos para repassá-las calmamente, quando um dia lhe sobrasse tempo. Tudo começou por volta de 1980, fazendo-o acumular razoável volume até a virada do século.

Nesta época, com pouco espaço disponível e a crescente digitalização de publicações passadas, pensou em desmontar seu brinquedo de quando se aposentasse. Mas resistiu. Quem tem apreço à leitura não renuncia ao manuseio do papel impresso. Livros e revistas antigos guardam em seu corpo marcas indeléveis do passado. Anotações manuais à margem das páginas, aquela folha amassada, um pingo de bebida que enrugou o papel. “Ainda não”, pensou.

Ocorre que, depois dos quarenta e poucos, ganhou a companhia de uma renite alérgica de tirar a paciência. Impressos guardados por longo período são morada ideal para fungos e acúmulo de fina poeira doméstica, tiro certo para desencadear uma reincidência da alergia. Fatores somados, chegou a hora de desmantelar a estante de fero.

Foi fazendo aos poucos, apesar de sempre sofrer efeitos colaterais. Levava um lote de revistas para a sala, e repassava as páginas de forma rápida e continuada. Parecia fotografar na memória cada uma antes do adeus final. Ao deparar com suas favoritas, dava-se ao direito de demorar um pouco. Uma entrevista com Paulo, Brossard, a caça ao boi gordo durante o plano cruzado, as “travessuras” do Delfim, a morte trágica de Tancredo, as crônicas do Veríssimo, as alegrias do esporte... Tudo desfilava perante seus olhos, às vezes lacrimosos.

Quando chegou a vez das especiais, de automóveis e belas mulheres, diminuiu o ritmo. Queria tudo mais nítido antes da separação. Divertia-se lendo sobre carros ainda segredo à época da publicação, hoje já fora de linha há anos. Equipamentos de última geração, que atualmente provocam risos pela obsolescência, eram descritos com entusiasmo e ineditismo. Uma pena, mas o adeus era necessário.

Por fim, as de mulheres. Muitas foram suas namoradas sem que tivessem sabido. Noites deslumbrantes, passeios em carros esporte, paisagens fantásticas, champanhe, música... Ah, sonhos! Certa vez, o filho dele, contando então uns dez anos, aproximou-se e conversaram entre um espirro e outro. Ele mostrou ao filho alguns exemplares que deixara por último. Eram as preferidas e mereciam mais uma vista.

Interessado, o menino escutava e observava o pai, talvez tentando aprender algo novo, talvez achando o pai o máximo. Foi quando se depararam com uma mulher monumental. No pôster central de uma publicação de meados de 1980, pele branca como a neve, cabelos longos, volumosos e negros, olhos esverdeados. Tudo na medida perfeita. Olhar, boca, coxas, seios e uma leve penugem encobrindo seus segredos... Uma miragem! Então o menino, maravilhado, já exercitando seus instintos de macho, perguntou:
- Papai, quem é essa moça?
O pai, com a sensibilidade própria dos homens, respondeu de pronto:
- Sei lá! Só sei que hoje em dia ela é uma véia!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

domingo, 30 de janeiro de 2011

Boletim de Ocorrência Dois em Um




Boletim de Ocorrência Dois em Um


Nó Cego, separado duas vezes e morando sozinho num apartamento de bairro de classe média, adora tomar umas por aí, mas sempre mantém vigilância atenta em seu copo com receio de colocarem alguma droga na bebida. Em casa seus passatempos preferidos são brincar na internet e com o “playstation”. O apartamento conta com três quartos, dois dos quais permanecem fechados, pois são para uso de suas filhas, quando elas o visitam.

Pagode, forró, noitada. Nó Cego é doidinho por isso. Num sábado foi a um bar que freqüentava habitualmente. Chegou jogando charme, e logo havia três garotas em sua mesa: uma bonitinha e duas “morromeno”. Passado algum tempo, depois de dançarem um pouco e muito papo furado, nosso amigo deu aquela cantada para seguirem viagem. Elas toparam. Comprou algumas latas de cerveja para beberem no trajeto e foram. Ele, alegre e satisfeito, elas com risinhos contidos.

Com um pretexto bobo, uma delas pediu para parar o carro “ali”, indicando o local com o dedo. Ele convidou a bonitinha a passar ao banco de trás do carro enquanto esperavam. Com isso, a outra “morromeno” foi para o banco da frente.

Aí foi uma conversa daqui, um tal de aperta dali, toma um golinho, vem cá nenezinha, peraí garanhão, vamu começar agora... E ela foi fazendo carinho nele, e ele foi amolecendo, amolecendo, amolecendo até que... Dormiu. E profundamente!

Acordou às sete do domingo, sem o som do carro, sem dinheiro, cartões, cheque. Muito puto da vida foi fazer um boletim de ocorrência, mas apenas uma delegacia distante estava com o sistema no ar. Resolveu deixar para depois.

Passou na casa da ex-mulher para pegar uns cinqüenta contos emprestados, foi para seu apartamento, tomou um banho e foi a ao bar de sempre, pertinho de casa. Lá foi aconselhado por amigos a ir imediatamente à delegacia fazer registrar a ocorrência, e assim fez. Mesmo que longe.

No caminho passou por uma churrascaria. A casa exalava animação. Superlotada, com gente dançando ao som de música popular e em altíssimo volume. Do jeito que ele gosta. Seguiu firme ao seu destino sem se deixar levar, mas, ao chegar, também esta delegacia estava com o sistema fora do ar, sendo impossível fazer o boletim de ocorrência. “PQP”, pensou. “Dar uma viagem dessa perdida!”. Perdida nada, voltou e parou na dita churrascaria para tomar umas.

Incontinente, sentou, pediu uma e olhou ao derredor. Logo identificou uma mesa com uma mulher quarentona, duas novinhas e um rapaz, que acompanhava uma delas. A que estava disponível ostentava um piercing super sensual no nariz. Nó Cego ficou encantado. Em poucos minutos já dividiam a mesma mesa e um papo animado.

Cavalheiro, preveniu aos outros que estava com pouco dinheiro, comentando sobre o roubo. Animado com o andamento dos papos, mas quase sem grana, convidou todos para tomar mais umas no bar de sempre, pois lá podia fazer um vale, e, quem sabe, até arrumar mais algum emprestado caso o pessoal topasse seguir adiante. A de quarenta resolveu ficar, seguindo os quatro para o dito bar.

Chegando, tomaram mais umas tantas, e ele sugeriu que fossem todos a um motel. O rapaz alertou que a garota que o acompanhava era menor de idade, então o programa gorou. Mas Nó Cego não desistiu e: “Então vamu todo mundo lá pra casa!!”. E foram.

Nó Cego organizou o lance. O casal ficou na sala, ele e a de piercing na suíte. Ainda se recuperando do “boa noite Cinderela”, continuou a brincar. Bebida vai, carinho vem. A garota disse que iria à sala falar com a amiga. Ela foi e ele... Relaxou e capotou. E dormiu profundamente.

Acordou no outro dia. Procurou a garota, e não viu. Foi à sala. Ninguém. Logo notou que seu estimado Playstation não estava no local de hábito. Começou a imaginar que algo dera errado. Tentou sair, mas não achou a chave da porta. Com uma cópia conseguiu sair. Embaixo do prédio, nem garotas, nem rapaz, nem piercing, nem carro... Nada!

“Ora de pedir ajuda”, pensou. Foi com um irmão, enfim, fazer o boletim de ocorrência. Enquanto narrava o acontecido desde a noite do sábado, o escrivão começou a rir, e a rir, e a rir. Ria a tal ponto que uma chefe não-sei-de-quê veio lá de dentro saber o que estava se passando, que brincadeira era aquela na delegacia. Mas não era brincadeira, era só o Nó Cego contando ao escrivão esta história que vocês acabaram de ler. E assim foi registrado o boletim de ocorrência “dois em um”.


Altino Farias & Antônio José Felício Pinho
altino.frs@gmail.com

domingo, 23 de janeiro de 2011

Será Que Foi Sonho?








Estava dormindo. Com certeza eu dormia naquele momento. O dia que passara havia sido comum, sem novidades. A noite que se seguira transcorria da mesma forma. Nada de especial, nada. Nenhuma preocupação ocupava minha mente, como também nenhuma grande expectativa inquietava minha alma naqueles dias.

No meio da madrugada acordei com alguém falando ao meu ouvido. Nem imagino de onde poderá ter vindo, nem tampouco para aonde foi. Sonho? Não, definitivamente não foi sonho. A voz era límpida, serena e envolta em ternura. Disse o que queria dizer e foi-se, deixando-me ali, estático, pensando no que acabara de acontecer e ouvir.

Ao acordar pela manhã o que ocorrera ainda era muito presente, e eu ouvia a voz a soprar aquela frase a cada momento. Aliás, ela vem ao meu pensamento ocasionalmente até hoje. Naquela época enviei por email aos meus contatos o que havia ouvido, e, agora, faço o mesmo neste espaço internético, para que todos saibam que um dia alguém veio, não sei de onde, e disse-me carinhosamente enquanto eu dormia:




“Tenha sempre uma visão clara dos campos durante o dia para que à noite não se perca na escuridão.”



Altino Farias
altino.frs@gmail.com




quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Um Clássico!


Amante de carros antigos, sempre fico atento quando surge algum comentário ou situação que faça referência a essas jóias. Outro dia assisti a um filme que me deixou de “alma lavada”. Na trama, uma jovem advogada mantém um romance com um executivo dos seus cinqüenta anos. Ele, bem sucedido, divorciado, e pai de uma adolescente que de tudo faz para chamar atenção. Ela; morena clara, cabelos escuros e cacheados, ativa e perspicaz; dirigia um Karmann Guia conversível, automóvel que fez grande sucesso nos anos 60 em todo o mundo. O carro, íntegro e muito bem preservado, apresentava pintura desbotada e alguns amassados, fatos que o credenciavam a uma operação de restauro, findo a qual estaria como novo.

Em certa passagem a menina pede ao pai que a leve na festinha na casa de um amigo. Um imprevisto, porém, não o deixa cumprir o compromisso. A namorada, então, é acionada para suprir sua falta, apanhando a filha na casa da ex-esposa e levando-a a casa do amiguinho.

Claro que a menina tinha ciúmes da namorada do Pai, e fazia o possível para infernizá-la. Na hora marcada a jovem buzina à porta da casa da adolescente, que entra no carro com a cara emburrada e logo pergunta pelo pai. Explicação dada, seguem o trajeto entre uma e outra tentativa sem sucesso da bela advogada em estabelecer um diálogo.

De repente a menina começa a falar. Diz que os pais de seus amigos têm carros esporte e de luxo, como BMW, Mercedes e Jaguar. A jovem até se anima, imaginando o início de um papo. Fútil, verdade, mas melhor que nada. Depois de enumerar as qualidades dos automóveis de seu próprio pai e dos pais dos amigos, pergunta à advogada:
- E afinal, que carro é esse seu?
A jovem olha para a menina com certo desdém, e responde simplesmente:
- Um clássico!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011


Depois de ler interessante e oportuno texto que meu amigo e confrade Reginaldo Vasconcelos levou ao ar em seu programa "TENHO DITO!", na TV Fortaleza, imediatamente pedi sua anuência para publicá-lo neste espaço.
Com texto claro e precisa análise dos fatos, Reginaldo, advogado, jornalista e excelente cronista, faz uma rápida explanação sobre a vida no sertão de hoje em dia. Com vocês, "Eldorado", por Reginaldo Vasconcelos.
Altino Farias





Eldorado




Como de costume, fui a minha cidade do sertão central assistir à festa do orago padroeiro, que ocorre sempre no dia primeiro de janeiro. Para meu espanto, desta vez não havia mesa disponível no bar de sempre, e o estoque de cerveja se esgotou antes que a procissão passasse em frente. Na pizzaria não havia mais pizza às seis da tarde, e no restaurante do hotel fui informado de que, pelo extraordinário acúmulo de pedidos, se quisesse jantar eu teria que esperar por uma hora. No outro dia, já não havia onde sentar para o almoço na peixada às onze da manhã, e às onze e meia não havia mais peixe na cozinha. Enfim, o comércio da cidade entrara em colapso, porque a população local passou a gastar mais que os visitantes e o consumo da festa superou a expectativa .

Foi alvissareiro notar que o poder aquisitivo do povo do interior do ceará se elevou muito, não só pelo exemplo da festa deste ano, mas pela quantidade de casas velhas reformadas, e pelo grande número de casas novas construídas. Aparelhos de televisão de tela fina e computadores domésticos nas residências, cada família com no mínimo uma motocicleta ou um automóvel seminovo. Em todas as esquinas das cidades do sertão há lan houses onde os jovens podem jogar e surfar pela internet o dia todo, e em cada bairro várias casas de shows, além de muitos bares ruidosos que, à noite, estendem um mar de mesas e cadeiras pelas ruas.

Porém, como em economia não há mágica, resta a dúvida sobre as fontes primárias e secundárias daquela riqueza dos sertões, que surpreendeu o próprio comércio na comemoração do padroeiro. Ainda não há fazendas tão prósperas na hinterlândia cearense, não há crescimento da indústria por lá, não se vêem caminhões gaiola transportando boiadas nem carretas com cereais a granel pelas estradas, sinalizando produção compatível com o progresso. Não há pleno emprego. Aliás, quase não há emprego, pois todos os pequenos negócios são movimentados por famílias. Não há melhoria em cultura e educação, pois não existem bibliotecas, museus, nem teatros de vergonha. Tampouco há melhoria no ensino, não obstante a ampla oferta de vagas nas escolas públicas, porque a prioridade dos governos é alimentar as estatísticas numéricas, sem investir em qualidade, e portanto só se produz analfabetismo de função.

A conclusão lógica a que se chega é que entre as causas misteriosas da prosperidade no sertão está o assistencialismo do governo, que tem a virtude de matar a fome dos mais carentes, mas com o efeito colateral de desestimular o trabalho dos jovens e desprestigiar as profissões. Além disso, concorre para os sinais de riqueza o crédito facilitado em até cinco anos, que esconde os juros extorsivos nele praticados, um veneno econômico financeiramente diluído. Tudo isso transborda em consumismo insustentável, em ociosidade perniciosa, nas festas imensas que enriquecem as muitas bandas de forró. Ademais, isso desestimula o trabalhismo, cada um querendo se “apropriar” de alguma coisa para ser independente, na direção de um socialismo canhestro em que todos sejam proprietários de algo, mesmo que não produzam nada.

Essa teoria é humanitária e doce, mas não funciona na prática, pois não pode cada família produzir no próprio quintal o que precise – não só os alimentos, mais também o vestuário, o remédio, o celular, a motocicleta, o automóvel, que somente o conhecimento técnico-científico, o trabalho formal e a empresa organizada oferecem à sociedade. Tudo faz crer que esse estado de coisas que ocorre no sertão pode configurar uma bolha de prosperidade aparente, sustentada pelo crédito fácil e pelos programas do governo, este ano ainda mais inflada pelas verbas da política, derramadas pelo esforço eleitoral. Já que não tem base na educação, no trabalho e na produção, em determinado momento a bolha pode explodir no ar – como ocorreu no mercado imobiliário americano, que produziu um mundaréu de falidos e endividados, espalhando decepção e pobreza e causando sofrimento. Tenho dito!

Reginaldo Vasconcelos


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Quase Abraçados




O público foi chegando aos poucos, e aos poucos a casa de show foi tendo seus espaços preenchidos. Alegria, cores, festa, agitação. Um DJ animava o ambiente antes da atração principal, um grupo musical norte americano que fez estrondoso sucesso nos memoráveis anos 70.

Informais e descontraídas conversas agregavam grupos de amigos que aguardavam a apresentação, embalados por boa música e boas doses de alguma bebida. Quanto mais próximo do show, mais pessoas chegavam, alegres e ansiosas, para assistir à exibição e relembrar tempos idos.

Um casal chamava atenção. De pé, na platiea, encostado a uma grade, ele segurava a bolsa dela com a alça enrolada à mão. Parecia temer assaltos e violências, como em ambiente aberto. Quase abraçados, notava-se certa cerimônia, por isso o “quase”.

Tem início o show. Luzes, sons e febre invadem a casa. Todos se agitam, aplaudem, vibram. E o casal lá, encostado à grade, imóvel. Ele, alça da bolsa enrolada firmemente à mão e olhar gélido em direção ao placo. Ela, quase abraçada a ele, e olhos que faltavam saltar das órbitas rumo ao burburinho do público eufórico.

Vai e vem frenético no bar. Jovens e cinqüentões igualmente abrem espaço no balcão com os cotovelos. Copo na mão, música na cabeça, amor no coração e movimentos no corpo. Alheio a tudo, o casal continuava rígido na mesma posição. Olhos arregalados rumo ao palco, ele, ainda com a bolsa segura pela alça com vigor. Ereto ali, transpirava em abundância, agora com uma simplória garrafa de água na outra mão. A cena, traduzida, mostrava um homem de cinqüenta e poucos contando que os minutos passasem rapidamente para voltar ao lar quieto e seguro.

Ela, quase abraçada a ele, tinha os olhos também no palco, mas seu olhar era outro. Com certeza seu coração vibrava com intensidade a cada música. Os olhos, arregalados, queriam transportar o corpo para o meio da multidão, e não fugir dela. Queriam pulsar e viver o momento, sem deixar que ele se fosse impunemente. Ambos com olhos arregalados, porém, sentimentos diferentes os afastavam, fazendo-os “quase” se abraçarem por pouco mais de duas longas horas.

Ao fim do show os dois sumiram. Pareciam tele-transportados instantaneamente. Ao chegar em casa, ele tomou um banho quente, suco de fruta fresco e deitou-se, vendo pela TV a cabo filme enfadonho e insosso. Ela, depois de banho demorado, pretexto para ficar só, deitou-se quase ao lado dele. “Quase” não pela distância física, que era nenhuma, mas pelo pensamento. Ele, com seu filme de nada, esperava o sono lhe abater. E ela torcia por isso. Excitada, queria ainda ficar um pouco sozinha, lembrar um dia especial de muitos anos. Quem sabe, quieta, até se masturbasse pensando nesse dia... Que talvez nem tenha existido de fato. Depois dormiriam assim, um “quase” ao lado do outro. Como sempre.

Pedro Altino Farias

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010



Internet, Um Fantástico Mundo Livre e Sem Fronteiras – II


Dia 27 de outubro passado postei aqui um texto com esse mesmo título, no qual falei do meu fascínio com esse fantástico mundo da internet. A informação viaja a uma velocidade estonteante, sem fronteiras nem barreiras. A distância, no mundo virtual, não existe. Sem censuras, nem mesmo limitada pela distância, o que se vê é uma explosão informações. Boas e ruins, cabendo a nós fazermos nossas escolhas.

No texto a que me referi no início, listei algumas cidades de onde houve acessos ao blog. Somavam, então, vinte e oito municípios. Fiz uma atualização desses acessos, que demonstra que houve acessos de dezessete outros municípios, além dos de outros países. Assim temos:

Ceará:
Aquiraz
Crato
Caucaia
Fortaleza
Maranguape

São Paulo:
Franca
Guarulhos
Jacareí
Novo Horizonte
Mauá
São Paulo
São José dos Campos

Rio de Janeiro:
Macaé
Niterói
Petrópolis
Rio de Janeiro

Santa Catarina:
Blumenau
Caçador
Chapecó
Florianópolis
Joinville

Paraná:
Cascavel
Curitiba
Ibiporã
Londrina
Maringá
Rolândia

Minas Gerais:
Belo Horizonte
Barra Longa
Juiz de Fora

Pernambuco:
Recife
Santa Cruz do Capibaribe

E mais: Ponta Porã (MS), Rondonópolis (MT), Brasília (DF), Goiânia (GO), Iúna (ES),
Salvador (BA), Natal (RN), Parnaíba (PI), Belém (PA), Rio Branco (AC), Porto Alegre (RS), Ariquemes (RO), Maceió (AL).

Fora do Brasil houve acessos em Arona (Itália), Trípoli (Líbia), Cabot (Vermont – EUA), Miami (Flórida – EUA) e Moutain View (Califórnia – EUA).

Como puderam ver, as fronteiras ruíram e as distâncias não são impedimento para que a informação e comunicação cheguem até nós. No total 1600 internautas de 50 cidades acessaram o “Opinião em Perspectiva” desde o final de junho, a quem agradeço os acessos, esperando que os textos postados tenham correspondido às expectativas.


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Metade da Metade da Metade da Metade...








Outro dia fui ao casamento de um amigo e, após a cerimônia, nosso grupo seguiu para o buffet onde haveria a recepção do casal aos convidados. Além de o casamento em si ter sido de muito bom gosto, a festa também foi. O lugar era agradabilíssimo, ricamente decorado, mas sem afetação nem exibicionismos. A cozinha estava um esplendor, com salgadinhos finos transitando entre os convivas, camarões e filés pedindo para serem degustados, bebidas para todos os gostos e boa música a embalar as conversas e danças. Lá pelas duas da madrugada o buffet ainda estava completo. Tudo uma delícia. Perfeito.


A dado momento uma pessoa veio à nossa mesa recolher pratos e talheres que haviam sido utilizados. Foi quando um amigo que estava ao meu lado não permitiu que levassem os dele ainda, pois restavam dois camarões, já cortados em pedacinhos. Além de não permitir que recolhessem seu prato, ele ainda pegou de volta um potinho que continha um molho para dar um incremento no camarão e ficou ali, curtindo seu tira-gosto em doses para lá de hemeopáticas, enquanto no bufett os camarões transbordavam num vaso de vidro esperando serem flambados e servidos. Esse comportamento é típico do bebedor de cachaça (o legítimo!!), que com uma pequena porção de qualquer coisa toma doses e doses e doses. Por horas e horas e horas.


Na semana seguinte comentei o assunto num bar com outro amigo, Romeu Duarte, que, como aquele, também aprecia uma boa pinga (também faço parte desse clube, vale salientar). Além de concordarmos com o óbvio, ficamos nós dois fazendo considerações mil a respeito do assunto. Ele contou um fato interessante e bem ilustrativo desse comportamento minimalista típico do bebedor de cachaça. Disse que um certo amigo dele chegou no “bar de sempre” e pediu uma dose de cana e azeitona. O dono do bar, por certo querendo agradar, trouxe a dose e um pires com umas quatro azeitonas. Nosso amigo bebedor de cana olhou para o pires e disse ao dono do bar: “Eu pedi foi um tira-gosto não foi almoço, não!!”


Noutro caso, também relatado por Romeu, o cidadão levou ao bar um queijinho tipo polenguinho. Sentou, pediu uma dose, abriu cuidadosamente o papel laminado que envolvia o queijo, tirou uma Gilette zerada do bolso, e a cada dose fatiava uma lâmina do queijo pra tirar o gosto, tão fina e frágil que se não dispensasse todo o cuidado nada lhe chegaria à boca.


E assim somos nós, os apreciadores de uma boa cachaça: minimalistas, cuidadosos, experimentalistas. Sim experimentalistas, pois sempre aparece alguém dizendo: “Olhem o que descobri, é jóia para tira-gosto!!”. E todos experimentam incontinenti... E aprovam. Uma só cajá ou seriguela pode durar horas. Alguns curtem dar uma lambida num píper depois de um trago. Cajú, abacaxi, limão, laranja, tangerina... Um caldinho numa xícara pequena... A mínima parte de uma fatia de salame... Aquele restinho de pão molhado no melado do molho que ficou no prato... Tudo vai bem, tudo basta.


Mas para mim o campeão do tira-gosto é o queijo, porque vai bem com qualquer bebida, seja cerveja, uísque, vinho ou... Cachaça. Mas acompanhando a cachaça no ritual da biritagem é que o queijo se revela valioso, pois permite subdivisões que a própria física não compreende ainda, sendo o último pedaço sempre dividido na metade pelos confrades presentes à mesa. Depois, na metade da metade, depois, na metade da metade da metade, depois ainda na metade da metade da metade da metade... Não sei se é verdade, mas ouvi dizer que em certa mesa se dividiu tanto o último pedaço de queijo que se chegou a uma partícula de dimensões subatômicas!! E eu acredito, pois quase cheguei lá uma vez. E só não cheguei porque, enquanto fui ao banheiro, levaram o pires da minha mesa com o pedaço de queijo restante. Ainda fui até o balcão, o prato estava lá, e o que restava de tantas metades do queijo subdivididas em seqüência também, mas o cara insistia em teimar comigo dizendo que não estava vendo coisa alguma, que o pires estava vazio. Nesse momento eu pensei que ele estava querendo me fazer de bobo... E ele pensou, talvez, que eu fosse louco. Mas que com aquele queijim ainda dava para tomar umas três doses, dava!

Altino Farias
altino.frs@gmail.com

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sopa de Letras

O Ceará, que este ano disputou a Série “A”, conseguiu se manter na elite do futebol brasileiro, classificando-se para a Copa Sul Americana, inclusive. O Icasa, que havia ascendido à Serie “B” de 2009 para 2010, soube se segurar e continuar firme na categoria intermediária do nosso futebol. Já o Fortaleza este ano disputou a Série “C” do Brasileirão. Sempre jogando com seu time “A”, não conseguiu subir para a “B”. Por fim o Guarani de Sobral mudou da Série “D” para “C”. E assim iniciaremos 2011.

Como veremos adiante “A”, “B”, “C” e “D” têm pesos bastante diferentes, pois a que se considerar que, se de “B” para “A” a distância é um certo “X”, de “C” para “B” esta distância cresce exponencialmente, sendo no final algo como a décima potência de “X”. E o que dizer então se for considerada a distância de “C” para “A”? Ah, aí amigos chegaremos a certo “Y” que nem é bom imaginar... Devido a essas distâncias é que o Santa Cruz pernambucano vem estagnado na “D” há anos. Se de “C” para “B” já é um percurso e tanto, partindo de “D” para se chegar a algum lugar é osso!!

Engraçado notar que essas distâncias não se observam quando o sentido é oposto, ou seja: De “A” para “B”, de “B” para “C”. Basta um cochilo e, quando se abre os olhos, já se chegou lá. E isso vale para todos, tanto os que estão na “A”, como na “B”. Mas em se tratando de “C” para “D” nem tanto, pois há uma certa tendência de os times, por inércia, manterem-se onde estão.

De qualquer forma, renovam-se as esperanças para 2011, já em clima de Copa do Mundo. Que o Ceará consiga chegar na Libertadores e uma boa posição na Copa Sul Americana, Que o Icasa tenha um bom desempenho na “B”, que o Tricolor consiga sair da “C” (para a “B”, claro), e que o Guarani também tenha o direito de sonhar com uma ascensão. Que os amigos de todas as torcidas continuem a beber juntos e a se amarem mutuamente. Que se amem tanto, que a amizade seja tão forte, que às vezes briguem e discutam, apostem e sofram quando seus times forem derrotados, mas que, ao fim, tudo termine numa grande festa, regada a muita cerveja, uísque e cachaça, porque a vida é muito doce para cultivarmos amarguras.


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

domingo, 28 de novembro de 2010

Brisa Que Te Quero Brisa



Ah, brisa; suave brisa! Passaste tão rápido que nem pude te sentir plenamente. Mas estavas tão gostosa, insinuante e sedutora, que vou ficar aqui parado, esperando que passes novamente, mesmo sabendo que quando vieres mais uma vez não serás a mesma, pois terás arrebanhado os odores das flores e dos suores que tiveres encontrado pelo teu caminho, e capturado os ruídos da madrugada e os sonhos mais puros com os quais te deparaste... E os mais profanos também.

Ah, brisa; inquieta brisa! Nem ouso te pedir que fiques um pouco, pois o movimento está na tua própria delicada essência de ser, então, vou estar preparado para que quando passares pela segunda vez, eu possa sorver-te e sentir-te por todo meu corpo, e, logo depois, ficar novamente esperando tua volta. Sei que quando voltares pela terceira vez estarás irreconhecível, embora as sensações de frescor, leveza, saudade, e tantas outras que trazes, sejam as mesmas.

Ah, brisa; querida brisa! Peço-te que quando por aqui passares de novo, traga os bons fluidos e energias que carreastes pelo teu caminho, e que leves meus melhores pensamentos para os quantos que encontrares daqui por diante. Só não te peço que me leves junto a ti, porque aqui tenho os que amo, e ir contigo, soprando suavemente mundo afora, seria uma grande aventura, mas a saudade que se abateria sobre mim seria maior ainda, e eu acabaria por sucumbir a meio caminho, estragando tua louca viagem.

Ah, brisa; inconstante brisa! Vamos continuar a nos sentir assim, casual e espiritualmente. Vamos continuar na cumplicidade dessa troca de sentimentos: tu me trazes os alheios e leva os meus bons para outros, estejam onde estiverem esses outros... E em que tempo. Mas agora tenho que ir. Meu mundo não é como o teu. Embora tenhamos que continuar indo e vindo para nos mantermos vivos, tu o fazes naturalmente, e eu, sofridamente, pois assim é a vida.


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Carros Antigos: Cor, Alegria, Classe, Personalidade

Ser amante de carros antigos dá um grande prazer. Sensorial, inclusive, pois suas cores, formas e emoções que provocam, são um show à parte. Para mim, ser proprietário de um antigo, mesmo que não seja de um modelo considerado dos mais clássicos, é antes de tudo uma satisfação pessoal. Conseguir adquirir (e manter) aquele modelo que era o sonho de adolescente ou lembrança da infância, é uma grande conquista, além de sinal inequívoco de muita coragem ou pura insanidade. Mas o importante é ser feliz, e se um antigo for pré-requisito para essa plenitude de felicidade, que assim seja.

Como falei, considero curtir um antigo uma satisfação pessoal, e não me importo se há carros melhores e mais preservados que o meu, porque quando a gente ama realmente o antigomobilismo, e se une a uma certa "raridade", cria-se uma sentimento mútuo que ignora mesquinharias. Os encontros que reúnem os amantes de antigos são uma boa oportunidade para bater papo, trocar informações, tomar umas doses, ouvir histórias, saber de oportunidades, combinar outros eventos. Exibicionismo? Nem pensar, pois nessas ocasiões só deve reinar o alto astral e a cooperação entre os participantes.

Os encontros também exercem outra função, que é tornar visíveis ao público essas preciosidades, pois, sabe-se bem, muitos são antigomobilistas de coração, porém, por falta de coragem, ou excesso de sanidade, não são proprietários (ainda) de um carrinho com mais de vinte, pelo menos. Então, satisfação pessoal, intercâmbio de informações e exibição ao público simpatizante, são os motivos de acontecerem regularmente, em várias cidades do país, eventos que concentram veículos de marcas, modelos e anos variados, sempre sob a liderança de obstinados organizadores.

Diferentemente dos veículos atuais, quando todos seguem uma certa “tendência”, e acabam por se tornarem muito parecidos, os antigos possuem personalidade própria, tendo cada um seu charme particular. Se hoje veículos de uma mesma montadora têm a mesma linha de estilo, antes cada um nascia de uma concepção única. Outro aspecto em voga atualmente é a bicromia morna do preto e prata que impera no mercado, fazendo dos carros, mesmo os mais vistosos, figuras neutras, com suas formas sendo difusas sob o efeito de cores que hoje não são mais cores, e sim, apenas um padrão.

E quando chega o dia de um desses encontros, normalmente num sábado à tardinha ou domingo pela manhã, os antigomobilistas e seus carros maravilhosos vão surgindo aos poucos. Devagarzinho, mas sempre com certa ansiedade e alarde, e... A paisagem, até há pouco tempo preta e prata, vai ganhando cores e alegria com carros de cores exuberantes como azul-caixão-de-anjo, amarelo-laranja, verde-cana, amarelo-ovo, verde-abacate, vermelho-sangue, azul-piscina ou marrom-telha, quebrando a monotonia e fazendo sempre acontecer uma grande festa. E em volta desses “senhores idosos” se formam grupos onde há jovens e coroas a conversar, a sorrir e a comemorar essa gostosa paixão impregnada de cor, alegria, classe e personalidade.

Altino Farias
altino.frs@gmail.com

quarta-feira, 27 de outubro de 2010


Internet

Um Fantástico Mundo Livre e Sem Fronteiras



Dia 28 de julho passado formatei este blog, o Opinião em Perspectiva, com a intenção de aqui postar crônicas, pensamentos e textos de opinião de minha lavra. Nada terceirizado, e tudo sem a menor pretensão, sem nenhuma estratégia de divulgação, sem nem saber bem como esse “mundo blog” funciona. E até hoje não sei ao certo, sinceramente.

Passados três meses da primeira postagem, conto com cerca de 1200 acessos, que vieram de lugares que jamais imaginei. Uma boa parte deles teve origem em Fortaleza, como era de se esperar, por conta de meu ciclo de amizades na cidade. Além de Fortaleza houve acessos significativos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. A lista segue com Curitiba, Florianópolis, Londrina (PR), Joinville (SC), Caçador (SC), Chapecó (SC), Ponta Porã (MS), Niterói, Macaé (RJ), Iúna (ES), Mauá (SP), Novo Horizonte (SP), Salvador, Belo Horizonte, Natal, Maranguape (CE), Aquiraz (CE), Parnaíba (PI), Belém, Rio Branco, Santa Cruz do Capibaribe (PE), Crato (CE), Recife e Porto Alegre, além de outras de origem estrangeira ou não identificadas pelo sistema.

Trinta e três textos foram postados neste período, cobrindo assuntos variados. Procuro manter certa regularidade nas publicações como forma de prestigiar os internautas dessas vinte e oito cidades citadas que acessam o blog em busca de novidades, além dos de outras cidades no estrangeiro ou não identificadas precisamente. Ainda me causa surpresa acessar o blog e ver que há alguém em Rio Branco ou em Ponta Porã, por exemplo, conectado e lendo, calmamente, os textos que elaboro a partir da minha observação pessoal de fatos do cotidiano e de sentimentos vividos. E receber emails ou comentários sobre os assuntos abordados é recompensador, mesmo que sejam de opiniões opostas e discordantes, pois o que importa é a interação civilizada entre as pessoas e o bem querer comum.

Assim é a internet, democrática, sem censuras nem fronteiras, e que faz com que a informação viaje de norte a sul, leste a oeste, com a rapidez do acesso a um simples link, que se propaga de um para dez amigos, de dez para cem, de cem para mil... Esse movimento é definitivo, que ninguém o subjugue, que ninguém pretenda detê-lo, porque ele é LIVRE.

Agradeço, por fim, aos internautas e leitores que acessaram o Opinião em Perspectiva nesse período inicial, e espero contar com vocês por ainda muito tempo, pois a vida não pára, o mundo não pára, e se nós pararmos será nosso fim.


Altino Farias
altino.frs@gamil.com

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Copo de Cada Um




Certo dia estávamos, eu e mais uns bons amigos, em divertido papo num barzinho que frequentamos costumeiramente. De relance, notei que numa mesa próxima havia um sujeito sozinho, com o olhar longe e, talvez, o pensamento mais distante ainda. Ele, debruçado exageradamente por sobre a mesa, segurava um copo baixo e largo com as duas mãos, formando com a mesa e a cadeira uma só figura. Olhei para o copo dele, quase cheio, e intuí, pela cor e gelo, que continha uma dose de uísque. Se dos baratos ou mais caros, não saberia dizer.

Voltei a atenção para as conversas de nossa mesa novamente. Futebol, política, economia, assuntos variados. Passou o tempo. Muitas doses e muitas garrafas foram esvaziadas pela turma. E por mim também. Quando percebi, notei que o homem da dose e do copo baixo e largo da outra mesa ainda estava lá. Do mesmo jeito, na mesma posição, com o mesmo olhar longe e pensamento distante. Olhei novamente o copo com um olhar mais atento e sensível e perguntei-me o que haveria de fato dentro dele.

Pensando nesse sentido, logo percebi que em nossos copos, dos integrantes da mesa, havia bem mais que a habitual cerveja, uísque ou cachaça; havia também prazer, amizade, alegria, companheirismo, sonhos, lembranças passadas, planos futuros. E no copo do sujeito da mesa ao lado, o que haveria?

Lancei meu olhar mais uma vez para ele, que se curvara ainda mais olhando pra o fundo do copo, agora cheio de uma dose já aguada, abandonada por seus pensamentos longínquos. E, de novo, perguntei-me querendo adivinhar o que haveria naquele copo: mágoas profundas, cicatrizes doloridas, feridas ainda abertas, preocupações... Meu Deus, pensei, quantas coisas cabem dentro de um copo já cheio!

Chegou a hora de irmos embora e o sujeito, sempre só, continuava lá, quase imóvel, encurvado por sobre a mesa, segurando seu copo baixo e largo com as duas mãos, olhando para o fundo e pensando em algo que lhe doía muito, por certo. Antes de sair passei ao seu lado, parei e, instintivamente, o cumprimentei apalpando seu ombro, como quem diz: “Eu sei de suas dores e sinto muito”. Ele correspondeu silenciosamente, pressionando sua mão sobre a minha fazendo-me entender que dizia simplesmente: “Obrigado, obrigado por saber sobre meu copo”.

Pedro Altino Farias, 19 de outubro de 2010