domingo, 1 de fevereiro de 2026

O meu é melhor do que o teu!


Trabalhava na área de vendas de uma empresa, cujo gerente geral era do tipo enfezado, coisa que aqui no Ceará chamamos de “caga raiva”. Era, também, um tanto arrogante, mas seu maior predicado era ser tudólogo. Sim, tudólogo, aquele que estudou tudologia e entende de tudo em geral. Para completar o pacote, tudo dele era o melhor. Um ciço, como se diz hoje em dia. Obviamente, na empresa havia a figura do babão. Toda empresa tem. Ele era uma espécie de faz tudo da diretoria e gerência, mas sua verdadeira função era concordar, elogiar e bajular os superiores. Pois bem...

Ocasionalmente, ao final do expediente, colegas se reuniam na modesta cantina da firma, cotizavam-se, mandavam vir cervejas e tira gostos de uma churrascaria próxima, e ficavam papeando um pouco. Em um desses dias, o assunto que veio à baila foi “caranguejo”. O caranguejo tem presença marcante na culinária do nosso litoral, sendo muito apreciado, principalmente, nas barracas de praia. Então, logo o gerente proclamou: “Eu faço um caranguejo que ninguém mais faz!”, e logo o babão emendou: “É mermo, eu já comi e é o melhor!”. O assunto parecia encerrado, pois o homem era o gerente, chefe de todos os presentes, mas...

Nosso protagonista ousou perguntar ao superior tudólogo como ele preparava o caranguejo, e aí gerente começou a narrativa de sua odisséia. Contou que, no domingo, saía às cinco da madrugada para ir comprar os bichinhos. Seu fornecedor era um certo Seu Antônio, que fazia ponto na Bezerra de Menezes, uma grande avenida de Fortaleza, que o deixava escolher as cordas (os caranguejos são comercializados agrupados em cordas) que quisesse.

Feita a aquisição, a primeira providência ao chegar em casa era a limpeza. Os carangas eram minunciosamente lavados no tanque da lavanderia para tirar quaisquer vestígios de lama. Depois, começava o preparo do caldo, no qual os bichos seriam cozidos, com um sem número de ingredientes: leite de coco, cheiro verde, tomate, pimentão, sal, isso e aquilo. Tudo narrado em detalhes, e na maior calma para uma plateia forçadamente atenta.

A sangria dos caranguejos foi um capítulo à parte, seguido da colocação deles na panela para o cozimento. Tudo tinha uma ordem, um método, um jeito certo que só ele sabia fazer. Essa marmota terminava já a não se sabe que horas e, depois de apreciados, começava a limpeza rigorosa do ambiente com a retirada de todos os vestígios dos ex-caranguejos para não ficar aquela inhaca que conhecemos bem. Encerrada a narrativa, ouvintes entediados, o babão, que que prestara a máxima atenção em tudo, pronunciou-se: “Não tem quem faça igual, é o melhor!”. O gerente soltou um discreto sorriso com o sucesso da sua receita, mas...

Nosso protagonista logo emendou: “O jeito que eu como caranguejo é melhor do que o teu”! Pânico entre os colegas, protesto veemente do puxa-saco, que saiu em defesa do chefe: “Não pode! Impossível! Essa é a melhor receita! Não tem igual!”. Silêncio. Depois de breve pausa, o tudólogo, vermelho de raiva, embora contido, argumentou que escolhia os melhores caranguejos, todos os ingredientes eram selecionados e sua receita era consagrada e reconhecida por quem já havia provado como excelente. Excelente não, a melhor de todas, e desafiou o subordinado em alto e bom som: “Pois como é que você faz?”. Silêncio. Todos entreolharam-se. Agora quem deu o sorrisinho de satisfação vendo o colega encurralado foi o babão, então...

Nosso protagonista rompeu aquele silêncio sepulcral afirmando com segurança: “Eu faço assim ó: GARÇOM, TRAGA MAIS CINCO POR FAVOR!”.

Pedro Altino Farias, em 30/01/26

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