quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Bomba Relógio



Os riscos e irregularidades que podem culminar em tragédias como a de Santa Maria ocorrem todo dia, a todo momento, em todos os lugares. Nós mesmos facilitamos, transgredimos normas, desdenhamos orientações. Depois, "Oh!, que tragédia!!", lamentamos.

Deixando as obrigações não cumpridas do estado de lado (e são muitas), voltemos nossos olhares críticos a nós mesmos. Adoramos comprar um Iphone no preço (contrabandeado) e DVD’s piratas. Contratamos pedreiros para serviços que exigem a expertise de engenheiros. Aconselhamo-nos com balconistas de farmácias ao invés de procurarmos médicos. A lista é imensa...

Como resultado, mantemos ativas quadrilhas de contraventores, edifícios desmoronam, doentes gastam e não resolvem seus problemas... E até pioram, voluntariamente, seu estado de saúde.

Incêndios. A grande maioria ocorre de surpresa, mas não sem aviso prévio. Há várias causas, a maioria  previsível, evitável. Dentre todas, o curto circuito nas instalações elétricas prediais aliado ao contato com materiais inflamáveis, que propaga o fogo rapidamente, é a mais corriqueira. O curto circuito pode ocorrer pela simples fadiga do material, ou por circuitos sobrecarregados e materiais subdimensionados, e pergunto: cadê a figura do engenheiro eletricista?? Ah, não precisou, o “Seu Zé Bundasuja” disse que dava conta. Puxou um fio daqui, emendou noutro acolá e pronto. Foi embora e deixou uma bomba relógio silenciosa pronta para matar a qualquer momento.

Faço esse comentário ignorando a causa da tragédia de Santa Maria, que, parece, ocorreu por uma irresponsabilidade gritante dos integrantes da banda, tendo como co-autores os donos da boate, que receberam um número muito, muito superior de frequentadores ao que a casa comportava.

Faço esse comentário para chamar a atenção para a questão da RESPONSABILIDADE CIVIL de empresas, profissionais e cidadãos em geral, que muitos parecem menosprezar. O certo não é caro, o errado é que é um pouco "mais barato". Então, se vai a algum lugar, se vai contratar alguém, certifique-se ser um lugar seguro, certifique-se que contratará alguém competente, senão... Pode haver muito choro no final da história.


Pedro Altino Farias, em 30/01/2013

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Por Apenas R$ 10,70


Outro dia fui dar entrada num documento no CREA – Conselho Regional de Engenharia e  Agronomia, cuja sede fica no centro de Fortaleza. Parei o carro na Rua Castro e Silva, quase defronte ao prédio. O atendimento não demorou mais que três minutos, o que me deu cerca de uma hora sem nada a fazer. Então... Resolvi perambular, admirando nossa cidade.

ANTIGO SAN PEDRO HOTEL

Era meio dia, e comecei meu trajeto apreciando o próprio edifício do CREA, anterior e originalmente, San Pedro Hotel. Um luxo à época, com apartamentos com vista para nosso verde mar. Depois percorri a Rua Gal. Bezerril. Bucólica, ela conserva paisagens de outros tempos. Bares, lojas de ferragens, de chapéus, redes, artigos de couro e aviamentos se misturam numa miscelânea de cores e formas. 

TRAVESSA CRATO
A travessa Crato é um caso à parte. Ali o tempo parece passar mais lento, as pessoas  sorriam umas para as outras, a correria dá espaço à vida...


PRAÇA DOS LEÕES: TROCA-TROCA DE LIVROS 

Percorrendo a rua no sentido praia-sertão passei ao lado do Edifício General Tibúrcio, projeto de arquitetura de meu saudoso pai, arq. Armando Farias. Logo ali em frente, a Praça dos Leões, na qual estavam montados estandes padronizados para o comércio de livros didáticos usados em bom estado (troca-troca). Um serviço à comunidade.

INTERIOR DA IGREJA DO ROSÁRIO

Continuando no mesmo sentido, desci à esquerda continuando minha caminhada pela Rua do Rosário. Dei uma rápida olhada no interior da igreja do mesmo nome e no Palácio da Luz (Rua Rosário Nº1), onde funciona a Academia Cearense de Letras. Fundada em 1894, nossa academia precedeu à própria Academia Brasileira de Letras - ABL. Quantos sabem disso?

ENTRADA DO PALÁCIO DA LUZ
                                             
Continuando pela Rosário, passei em frente ao prédio do antigo Flórida Bar (Rua do Rosário, 38), onde hoje funciona uma loja de consórcios da Caixa... Saudades!! 


PRÉDIO ONDE FUNCIONOU O FLÓRIDA BAR

Depois me deparei com uma casa de consertos de máquinas de escrever e telex, imaginem. Na mesma rua, uma mercearia, com cereais expostos em surrões à calçada e um mundo de mantimentos lá dentro, entupindo todos os improváveis três metros de largura do comércio. E a casa estava lotada!


MÁQUINA DE ESCREVER, CALCULAR E TELEX: QUEM VAI QUERER?

COM APENAS TRÊS METROS DE FRENTE, MAS MUITO SORTIDA

Mais um pouco à frente, na esquina com a praça dos voluntários, dobrei à esquerda na Perboyre Silva observando suas lojas. Desci até a Sena Madureira, entrei na Melvin Jones (nunca mais havia andado por ali) com suas lojas de rações e equipamentos antigos. Cheguei até o Bar e Restaurante Ipueiras, onde bebi água gelada e bem vinda. 


RUA MELVIN JONES - BAR E RESTAURANTE IPUEIRAS

Olhando para o alto, roupas e toalhas penduradas nas janelas anunciando: “Aqui há vida!”.


AQUI HÁ VIDA!

Fiz o percurso de volta à Praça dos Voluntários, agora a admirando. Surpreendeu-me seu florido jardim, coisa difícil de encontrar em Fortaleza. 


PRAÇA DOS VOLUNTÁRIOS: CANTEIROS FLORIDOS

Continuei pela tortuosa Perboyre Silva, passando pelo edifício sede da gloriosa Associação Cearense de Imprensa - ACI, na esquina com Floriano Peixoto, erguido com muita luta pelo mesmo Perboyre que empresta o nome ao logradouro.


PRÉDIO SEDE DA ACI: LEGADO DE PERBOYRE

Obviamente fui merendar pastel de carne (a azeitona do pastel tem caroço) com caldo de cana na tradicional Leão do sul.



Ao sair da mercearia, a Praça do Ferreira, saudosista e contemporânea ao mesmo tempo, estava aos meus pés com sua coluna da hora e seus jardins. À minha esquerda, a Farmácia Oswaldo Cruz, com sua fachada, mobiliário e muitas lembranças doutros tempos. E pensar que ameaçaram fechá-la  há pouco tempo... Vizinho, a tradicional MILANO, loja de roupas masculinas.




EDIFÍCIOS LOBRÁS E CINE SÃO LUIZ

Ainda à esquerda, o Edifício Lobrás, também projeto de meu pai.  Na sequencia, o Edifício do Cine São Luiz e o do Excelsior Hotel.

EXCELSIOR HOTEL

No fundo, por trás da onipresente Coluna da Hora, avistei o edifício do Hotel Savanah, onde homens de negócios se hospedavam com requinte, e o prédio da Sul América. À direita, a Caixa Econômica.

SAVANAH E SUL AMÉRICA: MAIS DOIS EDIFÍCIOS
REVERENCIAM A PRAÇA DO FERREIRA

A TRADICIONAL CAIXA
                        
Continuando pela Floriano Peixoto, passei pelo Museu do Ceará e o Palácio do Comércio, que passou por recente restauro completo. 



MUSEU DO CEARÁ

Entrei no hall do edifício onde funcionou a Livraria Arlindo, da qual ainda conserva os antigos armários e prateleiras de madeira. A porta de acesso às escadas é do tipo pantográfica, e há um vazio no centro do hall até o último andar, com corredores ao seu redor. Além de tudo isso, um cheiro de nostalgia no ar.

HALL DE ENTRADA ONDE FUNCIONOU A LIVRARIA ARLINDO
FACHADA DO PALÁCIO DO COMÉRCIO 


Saindo, ainda passei pelo prédio dos Correios, já olhando os ponteiros do relógio, que pareciam avançar mais rapidamente que minutos atrás. Fim de percurso, fim de passeio.

PRÉDIO DOS CORREIOS

Depois que apanhei o carro num tenebroso edifício-garagem, passei em frente à Sé, ao Paço do Bispo, à Fortaleza da 10ª Região Militar, ao Passeio Público, Santa Casa, Emcetur e Estação Ferroviária, mas esse vai ser outro passeio...

... E tudo isso por apenas R$ 10,70 e uma hora de meu tempo vadio, com direito a estacionamento, caldo de cana e pastel.


Pedro Altino Farias, em 24/01/2013


ATENÇÃO:
Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº 9.610 de 19/02/1998. Não copie, reproduza ou publique sem mencionar os devidos créditos. 


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Entre Dois Mundos


Aquele lugar ficava entre dois mundos. Quem chegava não entendia o porquê da irritação e angústia dos “antigos”, mas logo que se tornava um deles, sabia perfeitamente as causas e... Consequências.

Ali não era ruim, nem bom. Tudo era estável e previsível. Até demais. Ocorre que a essência do ser humano é desafiar, questionar, lutar. Apenas sobreviver, como acontecia ali, equivale a uma punição, uma sentença de morte lenta, gradual e impregnada de tédio.

O que deixava todos à beira da loucura era essa previsibilidade, a falta de perspectiva de mudança. Para melhor ou para pior, que fosse, mas que houvesse possibilidades de eventuais mudanças. O novo traz junto com ele o vigor, o brilho no olhar, o pulsar apressado do coração. O “mesmo” nada traz que valha a pena. Ele representa, de forma simultânea, passado, presente e futuro como uma linha reta e gelada no tempo.

Guerras e paixões acontecem por causa dessa inquietude do homem. Ideias brilhantes também, mas como fazer algo de novo naquele lugar? Como ir contra toda aquela grandiosa inércia?

Em determinado momento, ele passou a entender com exatidão toda a irritação interior, angústia e pesar dos “antigos” que habitavam aquele lugar, pois acabara de se tornar um deles. Após muitas reflexões, chegou a uma dramática conclusão: estava onde estava em consequência única e exclusiva de seus próprios atos e pensamentos. E pior, não havia possibilidade de arrependimento ou penitência, já que tudo ali estava definitivamente definido... Pelos menos até enquanto ele assim desejasse.


Pedro Altino Farias, em 20/06/2012


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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Embriaguez


Ei, rapaz!! Não leva meu copo ainda... 
Tenho mais uma saideira a tomar.
Sei que estou com a roupa amarrotada pelo dia de trabalho; 
e a fisionomia, pela vida...
Mas a saideira tenho que tomar.

Ei, rapaz, não te preocupes, vais receber os teus.
Não sou vagabundo,
Estou  precisando apenas de um pouco da paciência alheia...

Ei, rapaz!! Não conta aos outros da minha embriaguez.
Não me orgulho disso,
Mas se contares, problema teu!!

Pedro Altino Farias, em 01/11/2012


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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Soltem Seus Balões


Em 2013, soltem seus balões!

Eu... Já estou voando!

Pedro altino Farias, em 25/12/2012


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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

domingo, 9 de dezembro de 2012

Apocalipse Now



A civilização maia deixou inestimável legado cultural e científico ao mundo. Excelentes astrônomos, possuíam dois calendários: um solar, de 365 dias; e outro para eventos e cerimônias religiosas, de 360 dias. 

Segundo informações colhidas em enciclopédias e livros, eles observavam ciclos, eras, e em 21 de dezembro próximo se encerraria o 13º b'ak'tun, fato interpretado por alguns como sendo o fim do mundo.

Bem, baseado nessa suspeita de fim dos tempos, tenho duas recomendações importantes a fazer:

1ª) Até 21/12/12: Queimem seus estoques.


Coloquem na diária aquele jogo de porcelana que vocês nem sabem ao certo onde está guardado. Se quebrar alguma peça, o que é que tem? 


Vinho. Hum! Tome o vinho que ganhou do amigo vindo da Europa e estava esperando um dia especial. Ele chegou, afinal, o fim da aventura humana na Terra é ou não uma ocasião ímpar?

Contas. Faça novas, não pague as antigas. Repito, queimem seus estoques, inclusive de crédito.

Uísque escocês: beba com os amigos, sempre ávidos por um bom 12 anos na mesa a preço camarada. 

Se tiverem alguma pendência amorosa a hora é essa, lembrem-se, queimem seus estoques e... Navios.

2ª) Depois do dia 21/12/12: Refaçam seus estoques.



Pedro Altino Farias, em 09/12/2012 (quase lá)


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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O Mapa de Suco


Um descuido, copo tombado, suco derramado sobre a toalha da mesa. A mancha que se formou tinha a forma de um mapa de um lugar qualquer. De imediato veio-lhe à lembrança aulas de geografia do ginásio, quando tinha que decorar informações de países e estados brasileiros: área, população, densidade demográfica, atividade econômica.

O suco, espesso e de um amarelo denso, quase avermelhado, lembrou-lhe também épocas de férias, quando, ainda criança, passava temporada na casa de uma tia. Na hora do almoço, Lúcia, a empregada de anos, trazia uma jarra de suco de manga à mesa. Manga espada, tirada diretamente do pé, que ficava no quintal da grande casa.

Ela fazia o suco cedo e colocava-o numa jarra no congelador da geladeira. Ao servi-lo, pedaços congelados davam-lhe um sabor especial. Coisa de carinho, misturado com natureza e alimentação saudável, tão difíceis nos dias de hoje.

“Corre, corre, pega o pano de prato!”. Certo dia, naqueles tempos de menino, na casa da mesma tia, também tombou um copo de suco sem querer. “Desastrado!”, pensou de si mesmo naquele momento, sentindo-se cheio de culpa e vergonha pelo transtorno causado.

Voltando aos dias de hoje, olhou o suco em forma de mapa se espalhar até ser consumido pelo tecido da toalha, transformando-se num simples borrão. Depois, calmamente enxugou tudo, sentou novamente e apenas lamentou não haver mais uma gota sequer na jarra. Então, abriu uma cerveja e continuou pensando naquela outra época, na época das tias e tios, da inocência, época de mangueiras e quintais. E, qual criança, ficou imaginando como seria bom viver naquele lugar imaginário do mapa de suco.



Pedro Altino Farias, em 03/12/2012

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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Desencontros



A música que tocava era das piores, mas como não ouvir?

Meu celular descarregou na hora do “alô”, silenciando minha voz rouca.

A comida chegou antes da fome... E foi embora.

Perdi o que queria encontrar, encontrei o que queria esquecer.

O estômago vazio trai a concentração até que a gente se acostume com ele assim.

Entrei numa contra mão e dei de frente com a Lua. “Agora não”, pensei. “Mais tarde, talvez”.

O estômago vazio parece uma imensa cratera.

Enfim, hora de dormir. Sonhos desconexos completam os desencontros do dia.

Destempero de vida!

Amanheceu. É outro dia. Amém!


Pedro Altino Farias, em 06/11/2012

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terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Azeitona do Pastel tem Caroço!



“A azeitona do pastel tem caroço.”, são os dizeres dos cartazes na parede da casa de lanches, um dos poucos comércios tradicionais de Fortaleza, cidade que, ao longo dos anos, vem teimando em apagar sua história.

Quando, garotinho, ia ao Centro com sua mãe. Merendavam nessa casa. Comiam pastel com caldo de cana. A azeitona do pastel já tinha caroço nessa época, mas não havia cartazes. Um dia ele mordeu o caroço de uma azeitona sem querer. Surpresa e dor no pequeno dente de leite.

O tempo passou. A casa manteve suas atividades comerciais. O pastel, considerado dos melhores da cidade, continuou com caroço.

Não se sabe quando, puseram cartazes com o alerta: “A azeitona do pastel tem caroço.”. Alguém deve ter se engasgado ou quebrado um dente. O aviso é pertinente nos dias de hoje, quando se vendem azeitonas descaroçadas; mas soaria surrealista anos atrás, pois à época todas possuíam caroços.

Adulto agora, o garotinho daqueles tempos sempre volta lá para saborear o pastel com caldo de cana. Outro dia olhava um dos cartazes enquanto merendava, e a cada mordida esperava encontrar a azeitona. “A azeitona do pastel tem caroço.”, lembrava a si mesmo. Mais uma dentada e lembrou uma restauração em um dente seu. Custou os olhos da cara e nem ficou tão boa. E se sem querer mastigasse o caroço da azeitona em cima...? Humm!

“A azeitona do pastel tem caroço.”, lembrou mais uma vez, lendo o cartaz que parecia lhe puxar as orelhas o tempo todo. Veio à sua memória o dia em que seu caçula engasgou com uma goma de mascar. Pensou que o pequenino fosse morrer, tão arroxeado ficou.

“A azeitona do pastel tem caroço.”, e mais uma dentada. Agora chegara ao recheio, onde deveria estar a tal azeitona. Mastigou com cuidado. Só carne!

Não contendo a expectativa, lançou um olhar fulminante às entranhas do pastel. Avistou a azeitona, quieta, calada, imóvel, lá no fundo do pastel, pronta para dar um bote!

“Essa aí não me pega!”, pensou, dando uma pequena mordida no pastel de modo a deixá-la descoberta, exposta, vulnerável à próxima investida. Apressou-se no mastigar. Engoliu. Nova dentada. Suave. Azeitona à boca, rompeu sua pele. Sentiu seu suco se derramando na língua. Saboreou-a com cuidado. Depois, esmagou-a, mastigou roendo o caroço. Engoliu a poupa, cuspiu o caroço. Fim!

Limpou a gordura nos lábios com um guardanapo de papel, que jogou no lixo junto com o copo descartável. Ao sair, deparou-se com um último cartaz: “A azeitona do pastel tem caroço.”. “Tinha!”, pensou com um sorriso maroto no canto da boca.


Pedro Altino Farias, em 05/11/2012

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Cachorro do Vizinho



O cachorro do vizinho, olhos esbugalhados e babando, avançou naquela jovem e gostosa senhora que mora na 777.  Ela se assustou, e, agindo por reflexo e sentido de auto defesa, conseguiu se desvencilhar do agressor, correndo para sua casa, onde permaneceu trancada até passar o susto e certifica-se que o perigo também cessara.

Ligou para o marido, que viajava a trabalho, para contar o que ocorrera. De onde estava ele ficou muito puto, prometendo retornar o mais breve para tomar satisfações com o vizinho.

Vizinhança é negócio complicado. O cachorro do vizinho já havia incomodado a gostosona outras vezes, e todos comentavam, mas fazer o que? Afinal, nunca havia avançado de fato em ninguém como acabara de fazer.

Chegando, o maridão foi direto ter com o vizinho. Ao abrir o portão e adentrar a varanda da casa ao lado, ouviu apenas uns latidos vindos lá de dentro. Bateu na porta, e nada! Somente uns latidos encabulados.

Voltou horas depois. Desta vez obteve sucesso, pois o próprio vizinho o atendeu. Sorte de um, azar de outro. O maridão não esperou nem por um cumprimento, e foi logo esbofeteando o cara. Enquanto metia a mão, cuspia-lhe xingamentos e impropérios os mais cabeludos. Sem chance de defesa, o vizinho apenas balbuciava algo enquanto  tentava, inutilmente, livrar-se dos socos e tapas.

Ao fim de poucos minutos, e algum sangue, a fatura estava liquidada e, afinal, pôde-se ouvir o que o maridão dizia àquele homem, agora reduzido a trapo: “Olha aqui seu cachorro, se tentar agredir minha mulher de novo, ou qualquer outra aqui da vila, te capo!”.

Enquanto isso, Fanny, o poodolzinho simpático do vizinho, assistia a tudo deitado no mosaico frio do terraço, balançando o rabo contidamente. Olhando a expressão do animalzinho, podia-se imaginar o que ele pensava: “Até que enfim!”.



Pedro Altino Farias, em 24/09/2012

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Deus Poseidon x Deusa Moda




Quando aquela mulher adentrou o mar para se banhar, Poseidon, conhecido por outros como Netuno, observou-a de longe. Seus cinquenta anos forjaram seu caráter e endureceram sua disposição para a luta. Mas, ao mesmo tempo, tornaram seu coração mais doce, seu sorriso mais meigo e seu olhar mais sábio... Por tudo isso, Poseidon, deus absoluto dos mares, concluiu: Que bela mulher!

Mas o grande deus ficou triste ao perceber que os cabelos dela não possuíam ondas como seu imenso oceano. Ou melhor, que elas haviam sido caladas, subjugadas por alguém sem escrúpulos. Imediatamente, empunhando seu tridente, ordenou a milhares de ajudantes: “Vão lá, peguem fio por fio dos cabelos daquela mulher, e refaçam-nos como antes. Devolvam-lhes a leveza dos movimentos de uma lula, a vida e harmonia de um cardume de peixinhos coloridos, a naturalidade de seus cachos como se algas marinhas fossem. E ondas, quero todas suas ondas de volta!”.

Seus súditos de pronto obedeceram e, enquanto a mulher se banhava, deixando que o mar lhe acariciasse o corpo inteiro com suas águas tépidas, eles trabalhavam rapidamente, fio por fio, conforme o recomendado, devolvendo movimento, vida e beleza àquele cabelo tão sofrido e sufocado.

Quando ela por fim deixou o mar, Poseidon ordenou também ao vento que percorresse cada um daqueles fios para secá-los e, assim, realçar sua força e dar-lhes volume, imponência. O Sol, que estava meio escondido, assistindo à cena lá de cima, dirigiu a ela seus melhores raios para devolver-lhes a energia perdida, o vigor, a independência. Pronto!

Satisfeito, Poseidon chamou os seus de volta, agradeceu ao vento e ao Sol pelo auxílio, e recolheu-se às profundezas do seu oceano, às suas ondas eternas.

Retornando às suas atividades no nosso mundo moderno e maluco, aquela bela mulher caiu novamente, incauta, nas vontades da super poderosa deusa Moda, que, de imediato, ordenou ao deus Secador e à deusa Escova que desfizessem o trabalho que seu rival acabara de realizar. E lá se foram aquelas ondas flutuantes, aqueles cachinhos balançando ao vento... Lá se foi a vida. Vendo aquilo, Poseidon bradou furioso do fundo do mar. Tão alto foi seu rugido, que, dizem, foi ouvido até na mais alta e distante montanha que já se viu. É... Deusa Moda que se cuide!


Pedro Altino Farias, 18/09/2012

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Náufrago


Abruptamente tombou na água gelada e agitada. O susto foi seguido de enorme pânico. Querendo permanecer à tona, agitava pescoço, braços e pernas em vão. Cada vez submergia mais naquele universo salgado.

Em pouco, somente via à sua volta um azul imenso e bolhas de ar. Muitas bolhas. O ruído que sua agitação provocava o ensurdecia. Perdeu a noção de onde estava a superfície e a que distância. Viu-se naufragando verdadeiramente, mas ainda lutava.

A essa altura de sua existência, naufragara de várias formas. Como profissional, pai e no convívio social. Esqueceu (ou não sabia) que para manter um relacionamento a dois é preciso bem mais que estar sempre pronto para o sexo. Naufragara como homem, porque a própria vida não poderia naufragar também?

Os movimentos frenéticos de braços e pernas exauriram suas forças rapidamente. Não havia mais ar nos pulmões e seu coração batia em disparada. Engoliu e aspirou água num primeiro instante de vulnerabilidade. Sentiu o gelado invadir seu corpo, que sucumbia em desespero.

Os instantes que se seguiram foram diferentes. Tudo parecia distante, frio, calmo. Braços e pernas moviam-se em câmara lenta. Não sentia mais necessidade de oxigênio. Olhando em certa direção viu um clarão. Pareceu-lhe que era a superfície. Tão perto, mas ele já não estava mais ali...


Pedro Altino Farias, em 24/08/2012

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Enfim, Abduzido


Abduzido por uma extraterrestre, eu continuava tendo a noção perfeita de tempo e espaço, imune a tudo que dela emanava: luz, pensamento e energia; mesmo sabendo que engendravam todos os esforços para que me deixasse levar pelos encantos do desconhecido.

Na verdade, o termo abduzido está equivocado até aqui, pois não havia desvio de rota, de raciocínio ou de intenção. Nem mesmo inconsciente. Inesperadamente tudo passou, e minha vida voltou ao normal.

Já nem lembrava dessa aparição quando me deparei com outra criatura, que, intuitivamente, logo percebi ser de outro mundo, embora não aparentasse nenhuma estranheza. “Vai dar merda!”, pensei.

Acredito que em algum lugar etéreo do além-céu gravaram meu endereço metafísico, tão fácil foi localizar-me novamente no meio de mais de sete bilhões de iguais a mim. Paciência!

Desta vez tive mais trabalho para me desvencilhar dos que me queriam longe daqui, em outro mundo. Mas não me entreguei, muito pelo contrário. Mantive-me sempre lúcido e ainda imune a um verdadeiro bombardeio de energia, cuja origem e forma eram uma completa incógnita.

Repentinamente tudo passou de novo. “Desistiram, enfim”, pensei aliviado e já cansado de manter-me na defensiva por tanto tempo. Tudo ao meu redor continuava como antes. Cores, luzes, calor, sorrisos. Os dos outros e o meu próprio.

Mas logo depois comecei a imaginá-los encontrando-me novamente, o que me fez fugir, esconder-me, dissimular. Passei a usar roupas cinzentas, neutras. Sempre que possível abrigava-me sob um guarda sol preto, caminhava pelas sombras, olhava de lado, continha a respiração, não mais sorria.

De nada adiantou. Acharam-me mais uma vez. Ou, pelo menos, acredito que sim. A última lembrança que tenho é de uma criatura com gestos femininos, sensuais, quase eróticos. Mas tudo muito difuso e de difícil compreensão para mim.

Então, uma luz absurdamente brilhante me ofuscou. Tanto, que hoje nada vejo além dela, e apenas vagueio sem destino e sem saber onde estou de fato. Não sei se alguém consegue me ver, se lembram de mim, sentem minha falta ou leem meus pensamentos agora. Não sei se estou morto, noutro mundo ou apenas louco...

Altino Farias, em 21/08/2012

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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Despedida


Fazia silêncio. As mãos delicadas da mulher acariciaram os cabelos do amante. Em seguida ela o envolveu com seus braços esguios, fazendo com que seu peito fosse encostado ao dele, transmitindo e recebendo calor ao mesmo tempo. O silêncio permanecia. Dentro e fora do recinto. E os dois continuaram se olhando, calados.

Uma lágrima despontou na face daquele homem de quarenta e poucos e muitas dores. Ela, dona de outras tantas, também lacrimejou. Suavemente, primeiro enxugou o rosto dele, depois o seu próprio. O único som que se ouvia naquela penumbra era a respiração de ambos. Ora calma e pausada, ora ofegante, apressada.

Aquele momento se estendeu por alguns minutos. Será? Ou foram somente instantes? Ou longas horas? O tempo não importava. A vida não importava. O mundo não importava.

Seminu, o amante sentou-se numa poltrona. A mulher, então, ajoelhou-se à sua frente, olhou-o mais uma vez com ternura, e rompeu aquele terrível silêncio dizendo simplesmente: “Adeus!”. Foi um adeus miúdo, sofrido, apertado, quase mudo. Mas foi um adeus.


Pedro Altino Farias, em 29/06/2012

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