domingo, 22 de maio de 2022

Quereres

 



Do Sol, eu quero o sal,
Dos céus, uma flor,
Do vazio, uma música,
Da sede, uma cachaça,
Do coração partido, um ombro amigo.

Pedro Altino Farias, em 21/05/2022

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A Lua e seus sortilégios


 
A luz não é dela,
É do Sol emprestada.

O sofrimento não é dela,
É da paixão decepcionada.

O sonho não é dela,
É da mulher encantada.

Da Lua somente crateras, sombras, silêncios e mistérios.
Ah, os mistérios! Os amantes adoram mistérios...

Pedro Altino Farias, em 16/05/2022

quarta-feira, 20 de abril de 2022

ROTA DA CACHAÇA - FORTALEZA

 

Nos anos 60, 70 e até meados dos anos 80, o estado do Ceará tinha uma grande diversidade de rótulos de boas cachaças, produzidas em várias regiões do estado. Adolescente nessa época, e já iniciado nas atividades etílicas, tive o prazer e a satisfação de beber de boa parte delas. Nesse tempo, porém, o consumo de cachaça era restrito a pequenos bares e mercearias de bairros, periferia da cidade e municípios do interior, além do consumo doméstico entre amigos. Em bares e restaurantes ditos chiques, sua presença era vetada.

Nos início dos anos 80, um produtor de Acarape, então distrito de Redenção, distante cerca de oitenta quilômetros de Fortaleza, resolveu ousar, “sair da caixa”, e lançou campanhas publicitárias de excelente qualidade, associando sua cachaça, a Chave de Ouro, à elegância e sofisticação. Aviões executivos, carros importados esportivos e luxuosos, lindas paisagens e modelos igualmente bonitos, compunham as peças publicitárias ao lado da cachaça. Não satisfeito, e o empreendedor nunca está, lançou uma marca top de linha, a Tonel 21, com aromas, sabores e embalagem exclusivos. Ainda não satisfeito, abriu uma loja própria em local nobre, onde servia suas cachaças acompanhadas de frutas, caldinhos e outros mimos, que fazem a festa dos admiradores de uma boa pinga. O local era muito bem decorado e confortável. Copos, louças, talheres, guardanapos, tudo de alta qualidade e bom gosto. Mesmo muito jovem ainda nesse tempo, essa ousadia nunca saiu da minha cabeça. Infelizmente essa destilaria teve suas operações suspensas no auge do sucesso, senão seria umas das maiores atualmente.

Nesse tempo a cachaça não tinha um bom valor agregado, e os produtores do setor, e seus descendentes, foram se desinteressando pela produção, dedicando-se a outras atividades. Então, as grandes destilarias cuidaram de, rapidamente, preencher esse espaço, colocando no mercado do Ceará produtos de baixo custo e valor. Com isso assistimos praticamente ao desmonte de toda a nossa indústria de cachaça de alambique. Mas alguns teimosos resistiram. Ainda bem!

De uns tempos para cá os horizontes da cachaça se expandiram. A bebida passou a contar com uma legislação específica, produtores se organizaram em associações para procurar uma incessante evolução da qualidade e melhor colocação no mercado. Ao ser apresentada de forma mais atual e com uma boa comunicação visual, onde “qualidade” é a chave, a cachaça vem ganhando um novo e exigente público, com as portas de bares e restaurantes elegantes abertas à ela.

Essa movimentação despertou nosso pessoal aqui do estado, e muita coisa boa vem acontecendo, com produtores informais procurando regularização, busca de conhecimento para o aperfeiçoamento da produção, busca de novos mercados, premiações internacionais.

Enquanto isso, o secretário de turismo do município de Fortaleza, Alexandre Pereira, e sua equipe, vinham trabalhando com a ideia de sair um pouco daquele turismo estático de visitar monumentos e pontos históricos da cidade, procurando meios de proporcionar ao turista novas experiências, vivências diferentes em nossa cidade. Atento à essa movimentação em torno da cachaça no Brasil e em nosso estado, e sendo ela a bebida nacional por excelência com fortes raízes na cultura do nosso estado, tornou-se alvo fácil da Turismo.

Por esse motivo fui procurado há mais de três anos pelo sr. Secretário e sua equipe para, juntos, desenharmos um projeto turístico envolvendo experiências com cachaça, projeto esse que teve seu desenvolvimento interrompido no período da pandemia.

Passado o período de restrições, retomamos o trabalho com várias rodadas de reuniões. Batizado de “Rota da Cachaça”, chegamos a um esboço do projeto: casas devidamente capacitadas seriam indicadas aos turistas, ou interessados em ter experiências com cachaças, num roteiro livre. Esses estabelecimentos deveriam oferecer combos de cachaças harmonizadas com petiscos em condições especiais, e disponibilizar profissionais prontos para um atendimento personalizado, tirando dúvidas e fornecendo informações e curiosidades sobre a bebida. Já trabalhar a cultura da cachaça seria um pré-requisito básico.

O passo seguinte foi a seleção das casas participantes. Nessa fase convidamos quatro casas a participarem, além da Embaixada da Cachaça: Cantinho do Frango, Giz Boemia, Raimundo do Queijo e Arupemba/Pirata. Todas toparam de imediato! Essa seleção foi feliz porque procuramos contemplar casas em bairros diferentes, com concepções diversas, propiciando abordagens diferenciadas da cachaça e, consequentemente, experiências únicas para os turistas e interessados em geral em cada bar/restaurante. Então, vejamos:

A EMBAIXADA DA CACHAÇA, que fica no bairro Joaquim Távora, funciona como loja e bar. O foco exclusivo da loja é a cachaça, com cerca de 400 rótulos de vários estados brasileiros. No serviço de bar a cachaça também é destaque com 10 tipos de combos para experimentações, além dos rótulos ofertados em doses, que são servidas geladinhas. Gorette, sócia e gerente da loja, está sempre à disposição para um bom papo sobre cachaça, e a indicação do rótulo certo para a ocasião e gostos certos. Eu sempre estou na área, e atendemos pessoalmente a todos os interessados.

Localizado no bairro Aldeota, a cachaça sempre foi tradição no CANTINHO DO FRANGO, um complexo que reúne bar, restaurante, loja de discos, barbearia e espaço para apresentações musicais, que privilegia artistas da terra. A carta da casa conta com mais de 400 opções e tem uma atenção toda especial do Caio Napoleão, proprietário do estabelecimento.

No Centro, coração da cidade, próximo ao Mercado Central, está o RAIMUNDO DO QUEIJO, uma mercearia especializada em queijos e produtos da terra como castanhas de caju, doces, paçoca, etc. Com um ar bucólico, meio interiorano, a vida ali parece passar mais devagar, lugar ideal para experimentar uma boa cachaça, sem pressa, e com uma boa prosa com o Seu Raimundo ou com o Adriano, seu filho, ou mesmo com outros frequentadores.

O GIZ é mais recente. Um barzinho transado, bem atual, muito bem decorado, com cozinha e serviços excelentes. Localizado no Meireles, bairro nobre, tem uma frequência bacana. O Giz já nasceu com uma excelente carta de cachaças, da qual, aliás, eu sou responsável pela maioria das indicações. Música boa e gente bonita completam a casa.

De frente para o mar, na encantadora Praia de Iracema está o tradicional PIRATA BAR/RESTAURANTE ARUPEMBA. A casa, que recebe uma multidão de turistas de todos os lugares, é famosa pela melhor segunda feira do planeta, com uma programação musical regional com forte pegada no forró. A cozinha nordestina e a cachaça, obviamente, não podiam faltar no seu mix cultural.

Tudo alinhado com os estabelecimentos participantes, treinamento de pessoal realizado, hora dos detalhes finais. Há um cardápio da Rota comum das cinco casas, com imagens de seus combos, mapa de localização, e mais algumas informações. Quem consumir um ou mais combos ganha um copinho shot personalizado da ROTA DA CACHAÇA com a logo do estabelecimento. Quem fizer o circuito completo, terá uma linda coleção de cinco copinhos... E muita história para contar.

Para quem não sabe, quinta feira em Fortaleza é a “Quinta do Caranguejo”, na qual muitos bares e restaurantes oferecem essa iguaria ao público. Justamente por ser um dia mais tranquilo em termos de movimento, elegemos a quarta feira para esse atendimento específico da Rota da Cachaça. Daí para se criar o mote “Quarta da Cachaça” foi um pulo. Claro que turistas e interessados poderão ter esse atendimento todos os dias da semana, conforme o horário de funcionamento de cada estabelecimento, mas na quarta...

Nossa cachaça é tão boa, tem uma receptividade e empatia por parte do público tão intensa, que com certeza esse projeto será um sucesso, e irá chacoalhar as noites de quarta em Fortaleza. Interessante notar que o Rota da Cachaça é baseado praticamente em atitudes, pois o investimento necessário foi mínimo. “Pensar diferente, querer fazer, fazer acontecer”, essa lição é a “chave de ouro” que ficou para mim nessa maravilhosa, emocionante e transbordante aventura que é fazer Rota da Cachaça.

Esse é o pontapé inicial de um programa ambicioso. Muita coisa mais foi pensada, mas com um passo de cada vez (ou um gole de cada vez) a gente chega lá. Parabéns Ao sr. Secretário de Turismo, Alexandre Pereira, pela inciativa, à Tina e toda a sua equipe, que estiveram à frente do projeto desde o início e souberam captar como ninguém sua essência. Meu agradecimento pessoal pelo convite a participar desse projeto, que já vejo vitorioso, desde o início, à ABRASEL pelo apoio, e aos colegas participantes pela parceria. 

Saúde a todos e boas doses!

Pedro Altino Farias, em 20 de abril de 2022

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Olhares Fortaleza - Aniversário de 296 Anos

FOTO RAQUEL OLIVEIRA ALVES

Esse é um olhar diferente da Beira Mar, emoldurada pelas estruturas da Ponte Velha a partir da Praia de Iracema. Qual o seu?

Nossa Fortaleza fez aniversário nesse 13 de abril, e pergunto: com que olhares você a vê? Com a severidade de quem habita uma cidade violenta e carente de serviços públicos eficientes, ou com a benevolência de quem usufrui do que ela lhe proporciona de bom, fechando os olhos para seus defeitos e mazelas? Você a vê representada pela micro região que habita, ou a percebe por inteiro, com todos os seus bairros, moradores, costumes e atividades sociais, econômicas e culturais?

A verdade é que Fortaleza se tornou uma metrópole há anos, e muitas vezes a vida louca e a rotina estressante não nos dão chances para lançarmos olhares diferentes para nossa cidade, explorando-a por diversos ângulos, prazeres, vontades e deveres de cidadão.

Agora chegamos ao ponto. COM QUE OLHARES FORTALEZA NOS VÊ? Como cidadãos egoístas, que criticam os gestores públicos, e vivem “muito bem, obrigado”, num universo particular, sem se “misturar” com o cotidiano da cidade, ou como pessoas abertas e participativas que se “espalham” por aí numa sede de viver Fortaleza com todos os seus encantos e uns tantos desencantos? Contentamo-nos em ir ao shopping e barzinhos da moda com os amigos de sempre, ou transitamos a pé pelo centro, feiras e mercados dos bairros, interagindo com quem aparece à nossa frente, aproveitando cada espaço para aprender mais um pouco sobre nossa cidade e fazer novas amizades?

Precisamos ter olhares múltiplos para Fortaleza. Temos que ser os juízes que condenam, os poetas que sonham, os sábios que planejam, os gestores que executam, os bêbados que alegram as ruas, os artistas que a cantam nas mais diversas formas de expressão cultural. Nós, cidadãos, precisamos ter esses olhares, porém, muito mais que isso, nossa Fortaleza anseia, e precisa, que os tenhamos para que ela possa continuar sendo, cada vez, mais a nossa bela “loura desposada do Sol”, de Paula Ney.

Pedro Altino Farias, em 13 de abril de 2022

terça-feira, 29 de março de 2022

Cachaça: tradição no copo!



Cachaça, ah, cachaça!
No copo ou na taça,
Tradição e muita raça!
O coração, estado de graça.

Ela vem da cana viçosa,
Que no campo floresce,
No tempo certo, não tem prosa,
Na moenda, o caldo desce.

Cachaça, ah, cachaça!
No copo ou na taça,
Tradição e muita raça!
O coração, estado de graça.

O caldo, inocente,
Fermentado é vinho,
Que promete ser diferente,
Com o fogo vizinho.

Cachaça, ah, cachaça!
No copo ou na taça
Tradição e muita raça!
O coração, estado de graça

Enfim, do fogo, o vapor,
Que em fluido logo se transforma,
Límpido, puro e cheiroso, que sabor!
É a cachaça que toma forma!

Cachaça, ah, cachaça!
No copo ou na taça,
Tradição e muita raça!
O coração, estado de graça!


Pedro Altino Farias, em 29/03/2022




domingo, 27 de março de 2022

Eu na Cúpula


 
Na tarde do o domingo, 12/03, recebi uma chamada de vídeo pelo WhatsApp do amigo Nélson Duarte. Como a ligação não completou, e eu sabia que ele estava reunido com seus pares da Cúpula da Cachaça na Pousada Macaúva, em Analândia, São Paulo, participando do V Ranking da Cúpula da Cachaça, achei que tivesse sido uma chamada acidental e desconsiderei. Minutos depois nova chamada, devidamente atendida, e aí veio a grande surpresa: um convite para ser membro da Cúpula, convite esse aceito de pronto e com muita honra.

Fundada há dez anos, a Cúpula da Cachaça é um confraria de admiradores, apreciadores e especialistas em cachaças, e tem por finalidade “incentivar o desenvolvimento e a profissionalização dos setores de aguardente de cana, cachaça e demais destilados brasileiros, e defender e trabalhar pela valorização e incremento da imagem pública da cachaça, destilado nacional brasileiro”. Atualmente composta por quatorze membros de todo o Brasil, a cada dois anos ela realiza, dentre outras atividades, um ranking que elege, ao final do concurso de três etapas, as cinquenta melhores do país.

Bem, na sequencia, o sr. Manoel Agostinho, atual presidente da Cúpula, entrou em contato comigo via e-mail formalizando o convite através de documento eletrônico, o qual foi respondido positivamente de imediato.

“... Assim sendo, Altino, temos a honra e o prazer de convidá-lo a vestir a nossa camisa, a camisa do legítimo destilado brasileiro, e se tornar, a partir da data de hoje, membro efetivo da Cúpula da Cachaça”.

Finalizando meu acesso à Cúpula, recebi sábado, 23/03, das mãos do amigo Nélson Duarte, a camisa da Cúpula, simbolizando minha posse como membro efetivo da entidade. Um forte abraço e um brinde selaram esse momento. (na foto, Gorette, Nélson e eu)


Desde a primeira vez que ouvi falar na Cúpula da Cachaça acompanhei seus passos de longe, sempre com respeito e admiração, tanto à entidade em si, quanto aos nomes que a compõe hoje, e a compuseram ao logo do tempo. Eleito por aclamação com mais dois grandes nomes da cachaça, Illan Oliveira e Nina Bastos, conforme consta na ata da entidade, modestamente, jamais imaginei, nem em meus melhores sonhos, que um dia estaria lá, entre os tais cúpulos, e agora sou um deles! Sim, isso merece um brinde, o qual eu compartilho com todos os amigos particulares e clientes da Embaixada da Cachaça, que têm me acompanhado nessa trajetória. TIM, TIM!

Pedro Altino Farias, em 27/03/2022


quinta-feira, 17 de março de 2022

Escondido? Eu?

 

A mulher entra no bar onde o marido estava bebendo com amigos, e segue-se o seguinte diálogo:
- Ah, até que enfim encontrei você!
- Eu não estava escondido...
- Vamos para casa.
- Não! Agora eu tô bebendo cerveja com meus amigos.
- Vamos, que está tarde, e eu ainda tenho que passar no supermercado.
- Você tem, mas eu não tenho. Aliás, não tenho mais compromisso algum hoje.
- Vamos, amor, que a Mariazinha está sozinha no carro esperando.
- Por que você a trouxe?
- Porque não tinha com quem deixá-la.
- Então, por você veio se não tinha com quem deixá-la?
- Já lhe disse, vim porque tinha que procurar você.
- E eu já lhe falei que não estou escondido...
Nesse momento, os amigos, solidários com a situação embaraçosa, pediram a saideira sob o argumento que também iriam embora. Beberam rápido, e o amigo teimoso se deixou levar pela mulher. Na saída, olhou para trás com o risinho no canto da boca, e piscou para os amigos de copo e de cruz, que ficaram por ali mais um bocado, e tomaram mais umas tantas saideiras.
(baseado em fatos reais)

Pedro Altino Farias, em 14 de março de 2022, segundo ano da pandemia do coronavírus
Katia Martins, Romeu Duarte e outras 19 pessoas
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quarta-feira, 9 de março de 2022

Vira & Mexe

 


Vira e mexe,
Remexe!
A cachaça no corpo,
É muita inquietação!

E mexe no coração,
Atiça a imaginação,
Espanta a solidão,
E inflama a paixão!

Vira e mexe,
Remexe!
A cachaça no copo,
É pura inspiração!

Depois faz sorrir,
Sonhar e dormir,
Acordar e sentir,
Um novo Sol a luzir!

Pedro Altino Farias, em 09/03/2022, segundo ano da pandemia do coronavírus.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

UM DIA EU MATO O TEMPO!

 


Segunda feira, nove da manhã. Começa minha corrida insana contra o Tempo, a qual se estenderá até a noite de sábado. Embora ele, inexorável que é, sempre vença, tento ludibriá-lo com dribles e blefes. O Tempo, por sua vez, finge que consegui fazê-lo de bobo, deixa-me pensar que desacelerou um pouco, e assim tenho a oportunidade de um sorriso aqui, uma descontraída acolá.

Essa é uma corrida solitária, onde não há disputa. De uma forma ou de outra o Tempo vai passar. Eu quero apenas chegar, não importa como. Chegar é o objetivo.

Quem sabe um dia eu tenha a chance de, enfim, vingar tanto sofrimento e angústia, e mate o Tempo impiedosamente. Como? Deixando-o simplesmente passar, enquanto observo banalidades como as nuvens no céu tomando as mais diversas formas, as ondas do mar quebrando incessantemente, o canto dos pássaros comemorando a vida. Entre um gole e outro de uma boa bebida, beijos e afagos da minha mulher amada, vou vendo a noite apagar o dia, e o dia acender o que era noite. Um dia, quem sabe um dia... Até que um dia o Tempo não importe mais.

Pedro Altino Farias, em 13/12/21, segundo ano da pandemia do coronavírus.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

VOAR, simplesmente, VOAR!

 


Nas asas de um avião, o menino queria voar;
Olhava para o céu, e se punha a sonhar;
Até que um dia, ele foi aonde não se podia enxergar;
Acima das nuvens, perto do Sol, numa liberdade sem par.

Estudou, e se esforçou para ser o melhor;
Não por vaidade, ou sentimento pior;
Mas por paixão de voar, seu objetivo maior,
E assim se passaram os anos, com nuvens e estrelas ao seu redor.

Homem feito, no ar continua criança;
E sempre que voa lhe acende uma esperança;
Pois, ao ver a Terra lá de cima, de guerras não tem nem lembrança;
E então imagina um mundo perfeito, onde todos vivam no amor e na bonança.

Pedro Altino Farias, em 23/10/2021, Dia do Aviador, segundo ano da pandemia do coronavírus

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Sobre Rezas e Cachaças - vídeo


 

Sobre Rezas e Cachaças


Há sessenta anos nasci são e brasileiro,
Depois que cresci, bebi cachaça de janeiro a janeiro,
Mas o Papa disse que não tinha salvação,
Pois vivia de muito pouca oração.

Na Terra achavam que eu era a própria perdição,
E que não resistiria às seriguelas da nova estação.
Assustado, larguei a birita e me pus a rezar,
Procurando minha alma do outro lado salvar.

E assim passei o resto da minha vida,
Entediado, calado e com a espinhela caída.
Parti dessa para outra em um momento inesperado,
Não fui poupado por mais que tivesse rezado.

Chegando ao céu, encontrei meus amigos papudins,
Todos felizes, bêbados, bem bunitins,
Exclamei: mas esse lugar é só pra quem tem muito rezado!
E eles responderam: 
"Ô, abestado, o Papa tava errado, beber cachaça não é pecado!".

Altino Farias, em 30/05/2021, segundo ano da pandemia do coronavírus.

domingo, 14 de março de 2021

EU E MEUS 60 ANOS

 

Eis que, num piscar de olhos, cá estou, com sessentanos! Um idoso! Quando completei quatro décadas, pensei numa festa de comemora-ção, mas resolvi deixar para depois, afinal, a vida começa aos qua-renta, não é mesmo?

                         

Quando completei cinquenta, estava tão ocupado, ou pelo menos achava que estava, que deixei para comemorar os cinquenta e um ou cinquenta e dois. E tempo passou, e nada!

               

Agora cheguei aos sessenta. Essa data eu fazia questão de comemorar. Fiz planos na minha cabeça. Nada de mais, tudo muito simples e informal, como eu sempre fui. Numa manhã de domingo, família, amigos do peito, Zabumbossa presentando a todos com boa música e amizade, comes & bebes, sorrisos & abraços. A pandemia, no entanto, abortou qualquer hipótese de comemoração, fazendo a gente aprender a lidar com esses tempos esquisitos.
  
 

A festa não aconteceu como eu gostaria, mas... A música da “festa” ficou por conta das muitas mensagens que recebi dos amigos próximos, distantes ou virtuais, os quais no momento não posso abraçar. Elas foram sorvidas em toda sua essência, melodia e poesia.


Ganhei muitos presentes: todos na família estão com saúde, principalmente minha mãezinha, Dona Concita, que continua firme e Forte às vésperas dos noventa e um, e minha cunhada-irmã, Fafá, que é de uma fortaleza imensurável. Melhores presentes não haveria de ganhar.


Alguns amigos sofreram com a doença, ou eles mesmos, ou por entes queridos. Oramos pela saúde de todos, sempre.

A homenagem especial veio com a alta hospitalar da Gorette, amor, amiga a companheira de quase quarenta anos, acometida de covid 19, que saiu triunfante do hospital como quem adentra um imenso salão. Sufoco grande, viu?

                         

O bolo? Nosso filho, Altino José, cabra bom todo, que encarou a situação, e acompanhou a mãe com serenidade e carinho nesses momentos difíceis, tomando as decisões certas, fazendo valer o ciclo natural da vida: a mãe cuida do filho, o filho cuida da mãe.

                                   

E a cereja do bolo? Minha neta, Diana, que chegou em janeiro, e agora espalha seus primeiros sorrisos para o mundo, sempre aos cuidados de Daniel a Aninha. Um graça!


Festa completa, e das melhores, lamento apenas a ausência de meu pai, que partiu daqui muito jovem, mas a certeza que de ele está bem me consola.

Meu agradecimento a todos que fizeram e fazem parte da minha vida, e que, de alguma forma, tornaram-me uma pessoa melhor.

  

Agora me deem licença, a “festa” foi boa demais, mas preciso de um momento só para mim. Vou beber uma cachacinha enquanto revejo planos e projetos para o futuro, e assisto a uma retrospectiva passando em minha mente, afinal, foram sessenta anos já vividos, né? E graças a Deus com muitas histórias para contar.


Altino Farias, 12 de março de 2021, segundo ano da pandemia dos coronavírus

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

SIMBOLISMOS

A noite de ano novo é sempre especial. Despedimo-nos do ano que finda e, com esperanças renovadas, damos as boas vindas ao ano que se inicia. Família e amigos são partes essenciais desse contexto. Nesse ano de pandemia à solta, privamo-nos de estarmos com quem amamos, de conversarmos longamente sobre tudo: lembranças, saudades, dores, alegrias vividas, projetos futuros. É uma noite de simbolismo, por isso segue uma descrição do que eu procurei ter comigo naquela ocasião:

                                                                               

- Cabelos brancos e rugas: marcas do que vivi nos meus sessenta ainda incompletos.

- Barba por fazer: sem compromissos, sem preocupação com aparência, sem satisfações a dar.

- Camisa branca: paz, luz, clareza, serenidade.

- Aliança: na mão esquerda, uma aliança, que lá está há 38 anos. A original, fininha e de ouro, foi-me subtraída num assalto a algum tempo, sendo substituída por outra de inox. O que importa o material diante de tanto tempo de cumplicidade, amizade e amor, que teve como frutos dois filhos maravilhosos?

- Anel de formatura: na mão direita, meu anel de formatura em engenharia civil. Ele pertenceu ao meu pai, arquiteto Armando Farias, falecido em 1974, e essa é uma maneira de tê-lo comigo em momentos intimistas e especiais.

- Copo de cachaça: além de considerar a cachaça um patrimônio da cultura nacional, para mim ela é, quando consumida corretamente, um catalizador de coisas boas, uma espécie de cachimbo da paz. Em volta da cachaça surgem boas amizades, ideias fantásticas, poemas, melodias, momentos únicos.

- Calça jeans desbotada pelo uso: aqui fica uma referência, e reverência, aos anos 60 e 70 e tudo que eles significaram em termos sociais e culturais para os jovens de então. Foram duas décadas que mudaram o mundo, e eles ainda são muito presentes para mim. Difícil suportar todas as limitações, restrições e medos que os dias atuais nos impõe tendo vivido aquela época de ouro.

- Pés descalços: simplicidade, ligação direta com a mãe Terra. Se eu estou descalço, e você também, estamos ligados de alguma forma através dela.

Finalizando, desejo felicidades, saúde e sucesso a todos em 2021, que já despontou com imensos desafios a serem vencidos.

Pedro Altino Farias, em 07/01/2021, segundo ano da pandemia do coronavírus 


 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

BASTA!


Manhã de fins de novembro, calor escaldante típico de dezembro, olhei para minha camisa de listas azuis e pensei: Vou com ela. Muitos anos de serviços prestados, colarinho puído, tecido bem fininho, super confortável, por isso a escolha.

A coitada da camisa de listas azuis, cansada e exaurida de tanto servir, apavorou-se ao ver-me aproximando mais uma vez com aquele olhar de “hoje eu vou te usar”, e disse a si mesma: BASTA! Então, ao passar meu braço direito pela maga, aconteceu a fatalidade já esperada, o “basta” veio ao som do ruído de um rasgão bem no meio das costas, e assim eu disse adeus para minha velha e querida camisa de listas azuis.      


Pedro Altino Farias, em 27/11/2020, ano da pandemia do coronavírus


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Dona Concita - 90 anos



Aos 10, era menina ainda;

Aos 20, já tomava conta da casa;

Aos 30, casada para sempre;

Aos 40, familia completa, pronta para novas conquistas;

Aos 50, um recomeço através dos estudos e da poesia, dividindo suas alegrias com os filhos, noras, genros, os primeiros netos, e toda a família, a qual sempre manteve unida;

Aos 60, aposentadoria merecida, mantendo intensa atividade intelectual, assistiu a uma proliferação de netos;

Aos 70, vida plena, grande movimentação na casa, 
a religião ganhou uma nova dimensão em sua vida;

Aos 80, a alegria dos bisnetos, novos projetos antigos ganham forma, e  o mundo ficou maior com o acesso à internet;

Agora, aos 90, familia em paz, a vida continua!

Feliz aniversário, mãezinha! Saúde, paz, felicidades!
Beijos, Pedro Altino, em 19/06/2020, 

COM NETOS

COMEMORAÇÃO DOS 90 ANOS

domingo, 14 de junho de 2020

Poeminha 02


Poeminha 01


Destruição



Primeiro foi marido e mulher, violenta e abruptamente separados. Um num canto, outro noutro. Não demorou muito, minutos talvez, não se sabe ao certo, mas o fato é que aquela família foi sendo despedaçada aos poucos.

Os avós maternos, desavisados e alheios a tudo, foram isolados do restante da família. Dos paternos não se teve mais notícia, mas o cachorrinho de estimação, ah, coitado, foi degolado impie-dosamente.

Os dois garotinhos, irmãos carinhosamente abraçados, tiveram seus braços decepados, sendo assim apartados um do outro sem entenderem o porquê. 

O arbusto em frente à casa, que dava uma boa sombra à tarde, foi ao chão, cortado em três ou quatro partes. O carro da família, novinho, totalmente destruído. Um desastre geral.

Coisas, objetos, mobília, entes queridos, todos envolvidos naquele furacão de destruição. Em pouco tempo, pedaços de tudo espalhados pelo chão da sala, efeito das tesouradas do caçula da casa a destruir o álbum de família, enquanto a mãe cantarolava na cozinha preparando o almoço.


Pedro Altino Farias, 16 de janeiro de 2015