terça-feira, 3 de dezembro de 2013

100º FLASHBACKERS

FLASHBACKERS

Se o carro antigo é a música, a amizade é o tom.

DANIEL, BETO, NEANDRO E CÉSAR



Há alguns anos vi uma movimentação estranhamente festiva no estacionamento de um shopping. Era fim de tarde de sábado, e formas, hoje consideradas estranhas, misturavam-se em cores vivas como já não se vê mais. Saí da avenida, entrei no estacionamento e fiquei extasiado: era um encontro de carros antigos, evento raro na Fortaleza de então.


Mais surpreso ainda fiquei semanas depois, quando soube que o encontro se repetiria. No mesmo local, mesmo horário. No dia anunciado, saí com minha esposa no fim da tarde a bordo de nosso Opala De Luxe 78 cupê, mas chegamos tarde demais, o pátio estava lotado. Fiquei furioso por não poder participar e arranquei com velocidade. Depois soube avaliar melhor o que sentira, e frustração era a palavra mais adequada.


Naquela época, mais de oito anos atrás, carro antigo era coisa de ricaço ou maluco. Os primeiros juntavam-se em grupos fechados para curtir seu hobby, enquanto os malucos eram tratados como tal pelos “normais”, digamos assim. Tempos duros para o antigomobilista mediano, tanto pela dificuldade de aquisição de peças, devido a um mercado restrito, quanto pela falta de liquidez e referência de preços em caso de necessidade de venda do xodó.


O encontro de que falo continua ocorrendo todo primeiro sábado de cada mês desde então - sem falhar nenhum - e reúne amantes de carros antigos de todos os tipos: nacionais, importados, originais, hots, réplicas, restaurados, a restaurar, de várias décadas, universalizando pioneiramente a paixão por antigos em nossa cidade. 

O FLASHBACKERS, como foi batizado pelos seus idealizadores, há muito deixou de ser um simples evento para tornar-se um conceito.


Pois bem. Passei a frequentar esses encontros juntamente com meu filho, Altino José, com assiduidade e prazer desde aqueles tempos, tendo feito boas amizades com outros antigomobilistas e frequentadores, conhecido histórias interessantes, passado bons momentos. Isso tudo porque a ideia é unir amizade à paixão por antigos. No FLASHBACKERS, se o carro antigo é a música, a amizade é o tom. Sempre maior!


Por isso o FLASHBACKERS, pioneiríssimo, sobrevive, e sobreviverá. Por isso é diferente: democrático, despretensioso, despojado e, ao mesmo tempo, nobre e elegante. Por isso sobreviveu a momentos incertos, pois sempre havia amigos por perto dando aquela força. Por isso é um sucesso e tornou-se referência no estado, um divisor de águas.  


O próximo encontro, dia 07/12, será o de NÚMERO 100, marca significativa, e eu fico sem palavras para agradecer aos idealizadores e organizadores dessa grande festa pelos bons momentos vividos e ainda a viver. 

Obrigado Neandro Nascimento e César Cirino (fundadores), Heryberto Rocha (coordenador operacional), e Daniel (assistente). Eu, meu filho, Altino José, nosso Opala 78, nossa Puminha 80, nosso Fusca 78, nosso Buggy Taíba 93 e nosso Kadett 96, agradecemos esses 100 encontros com o mesmo entusiasmo e paixão daquele primeiro. Valeu!



Altino Farias, em 12/11/2013

ATENÇÃO:

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terça-feira, 26 de novembro de 2013

O Hotel Que se Dane!

 

De camisa colorida com motivos tropicais, compareceu ao primeiro dia de trabalho naquele belo, porém, modesto hotel. Antes de iniciar o expediente, trocou a camisa com estampa floral por um discreto terno, que lhe caía muito bem aos ombros. Assim estava habituado.

Problemas com a água quente, jardins, garagem, roupas de cama e banho, restaurante, bar, suprimentos, instalações elétricas e hidráulicas, limpeza geral, reservas, manutenção de elevadores, freezers, fornos...

Folha de pagamento, recebíveis, impostos (argh, ele odiava os impostos), pagáveis, depósitos, retornáveis, saques, clientes, reclamações, estornos e transtornos.  

Seguranças, ascensoristas, recepcionistas, manobristas, garagistas camareiras, garçons, cozinheiros, jardineiros, serventes e técnicos diversos num vai e vem  infernal e sem fim.

Ao cair da tarde, enfim, ele se encolhe e se recolhe aos seus modestos aposentos. Do glamour e agitação do dia, para o despojamento e o sossego concentrados em poucos metros quadrados à noite, numa transformação radical. Quem diria ser ele tão simples assim?

Que pensamentos ocupariam sua mente nesses momentos de clausura? Que planos estaria traçando para seu futuro? Quem sabe...

Na manhã seguinte, seu segundo dia no hotel, já chegou ao trabalho de paletó e gravata. Delegou funções, fez algumas ligações pessoais, contatos. Reservou um apartamento em local discreto para si próprio. Tinha esse direito como gerente. Lá poderia tomar um bom banho com privacidade e descansaria da labuta nos raros e rápidos momentos em que fosse possível.

No terceiro dia, já com o responsável por cada tarefa devidamente designado, ficou mais livre para “administrar” seu tempo, e visitou seu discreto apartamento pela primeira vez. E pela primeira vez recebeu visitantes particulares. Tapinhas nas costas, saudações, sorrisos, telefonemas, e lá se vai ele ao fim da tarde para seu refúgio franciscano.

O quarto dia foi o primeiro de uma nova rotina: hotel aos cuidados dos comandados, livre para tratar de “outros assuntos” com os visitantes de seu discreto apartamento. E assim foram os outros tantos dias que se seguiram a esse.

“Mas, e o hotel, como fica?”, perguntariam vocês. “Ora bolas! O hotel que se dane!”, responderia ele, arrogante, sem lembrar que ao cair da noite, toda noite, voltaria a ser ninguém novamente.    


Pedro Altino Farias, em 26/11/2013


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Brasil: contradições e confusões



Março de 1964 é nosso ponto de partida. Revolução ou golpe, afinal? 


Consumado o golpe – ou revolução - terroristas comunistas lutam para derrubar a ditadura militar instalada e implantar no país o regime de partido único com o seguinte argumento implícito: “O deles não pode, mas o nosso, pode!”. Enquanto isso, o verdadeiro democrata e amante da liberdade, chamado cidadão brasileiro, vive o terror no cotidiano. Pelos dois lados.



“Integrar para não entregar” era o slogan do Projeto Rondon daqueles anos, que enviava jovens universitários voluntários para prestarem serviços em regiões longínquas e inóspitas do nosso território. Iniciativa louvável, reconheçamos. Enquanto isso, o governo se endividava no mercado internacional para honrar outro slogan por ele criado: “Pra frente, Brasil!”.



Evoluímos política, econômica e socialmente com o passar dos anos, não há dúvidas. Menos mal. Mas criaram cada coisa esquisita por aqui...

Talvez tenhamos as crianças mais bem assistidas do mundo. Apenas no papel, claro. Por aqui, fedelho não pode nem apanhar moderadamente dos pais, nem ser repreendido pelos professores, senão pode dar cadeia para o “agressor”. O menor de dezoito incompletos também é considerado criança, e é, teoricamente, protegido pelo Estado, que não tem condições sequer de proteger a Esplanada dos Ministérios de ladrões, quanto mais um montão de garotos problemáticos (aqui se abusa do eufemismo).

 



Quando cometem crimes, esses jovens não são presos, e sim, encaminhados para “instituições especializadas”... Em produzir criminosos adultos de alta periculosidade. Mas... Esses mesmos jovens, inimputáveis perante a lei, podem votar e escolher nossos governantes e parlamentares. Seus votos têm o mesmo peso que os demais. Irônico, no mínimo. E contraditório também.

A evolução social também proibiu o cidadão de portar armas de fogo, afinal, para que andar armando num país tão seguro? 
 

 A polícia militar, que “tinha” a função precípua de repressão ao crime, manter a ordem pública e proteger a sociedade (Art.144, §5º da Constituição Federal: "§ 5º - às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil."), está praticamente proibida de disparar um tiro de baladeira que seja, sob pena de ser responsabilizada por todos os males do mundo desde a época da criação. País civilizado é assim mesmo! Sorte nossa sermos brasileiros! 



E o que dizer dos nossos gloriosos jogadores de futebol? Talentos descobertos, eles são vendidos para times do exterior por “fantastilhões” de reais. Chegando ao dito país estranho, logo começam a marcar gols e mais gols, sendo idolatrados pela torcida local, eleitos os melhores do mundo e tal. Convocados para atuar em nossa seleção, têm desempenho pífio, de decepcionar e matar de raiva. “Faltou tempo para um melhor entrosamento”, justificam. Ah, sim... Desculpem, é que não entendo muito de futebol...



Quem noutros tempos decretou: “É proibido proibir!”, hoje veta. É a velha via de mão única se mostrando com vigor e fazendo desmoronar sonhos (nossos) e falsos ideais (deles). Uma pena. 

 

Nosso governo se apressou em remeter desportistas de um “país amigo” de volta ao seu algoz. Eles, cidadãos de bem, pretendiam, inocentemente, fugir da ditadura sanguinolenta de sua terra natal. Ledo engano. Por outro lado, esse Estado, tão préstimo, deu guarida a um terrorista e assassino italiano condenado pela mais alta corte italiana em julgamento lícito e democrático, negando insistentes pedidos de extradição. Por mais que se explique, não dá para entender...


 

Ainda falando em “mais alta corte”, a nossa julgou e condenou. Depois, ela própria, com providenciais alterações em seu plantel, deu aquela amaciada na situação, fazendo a nação corar de vergonha e chorar de indignação. Mas a lei vale para todos, assim está escrito, acreditam?


 

Fiquei abismado mesmo foi quando o Presidente da República, em pleno exercício de sua função, declarou que seu expediente se encerra às dezoito horas diariamente. Daí em diante ele se sentia liberado para subir no palanque de sua candidata e orar por ela frente ao povo. Ridículo! Risível! Um breve raciocínio nos leva a duas possibilidades: ou o Presidente agiu corretamente e o país diariamente ficava com a presidência vaga após as dezoito horas e fins de semana, ou alguma coisa estava muita errada. Fiquei mais abobalhado ainda, porque essa foi uma declaração pública, assim como seus atos em palanque... E ninguém fez nada, não cobrou uma explicação, nem arranjou um substituto para suprir as folgas do farsante, nem o interpelou judicialmente a dar explicações.


  

Depois de dez anos de governo “socialista” ainda temos o MST como movimento vigoroso. Ué, já não era para ter se resolvido essa questão confiscando terras de latifundiários da elite e distribuindo-as para quem precisa trabalhar no campo? Por que manter e alimentar esse movimento indefinidamente? Mais uma vez não entendi.
  

Para finalizar, vivemos um contraditório interessante nesses últimos dias, deixando-me mais baratinado do que já estava. Simpatizantes do partido do governo desqualificaram o trabalho de certo instituto de pesquisa de opinião por anos e anos, associando-o a fraudes e a defesa de interesses da “elite dominante”. Agora, o mesmo instituto divulgou pesquisa favorável à situação, e aqueles mesmos festejaram: “Vocês viram as pesquisas? 2014 vai ser no primeiro turno!”.  Mais uma vez fiquei confuso, não era tudo de mentirinha, não? Ou o dito instituto continua a serviço das “elites”?

 

  
Pedro Altino Farias, em 20/11/2013