IMAGEM CRIADA POR IA
Final dos anos 60, início da década de 70. Era um menino feliz e risonho, embora muito tímido. Um dos passeios de domingo naquela Fortaleza pacata e de poucas opções era ir ao antigo Aeroporto Pinto Martins ver o sobe e desce de aviões no terraço da estação, que ficava no pavimento superior. Antes, porém, uma passada obrigatória pela pracinha em frente com seu monumento ao vaqueiro, que ficava num platô, cujo acesso se dava por uma “enorme” escadaria.
No aeroporto chamava a atenção daquele garoto o trabalho dos encarregados da limpeza. Eles, com suas pás coletoras de lixo, zanzavam de um lado a outro tangendo lixo para dentro delas. Papéis de bombons e pontas de cigarro eram os detritos mais comuns. Embora houvesse lixeiras e locais adequados para as pontas de cigarro, recipientes com areia, o povo jogava tudo no chão sem a menor cerimônia.
As pás coletoras eram de flandres, de fácil manuseio, e invariavelmente desgastadas pelo uso, fazendo um barulho característico quando encostadas ao piso: Clanc, clanc, clanc... E assim, num passe de mágica, pontas de cigarros e papéis sumiam para sempre na mente daquele garoto. Parecia até uma brincadeira, brincadeira de criança.
Completa esse cenário a figura dos zeladores, que em geral eram senhores calmos, educados e com uniformes limpos e bem conservados, transmitindo, inadvertidamente, uma atmosfera de serenidade ao público. Clanc, clanc, clanc... E seguiam calmamente recolhendo o lixo de pessoas que se achavam educadas.
O tempo passou. Mais de cinquenta anos. A estação de passageiros do Pinto Martins mudou, a educação do povo evoluiu, os cigarros foram banidos. Mas sempre haverá a figura do zelador com sua mágica pá coletora, que agora é de plástico e de cores berrantes. Sem mais pontas de cigarro a fazer sumir, sem mais o clanc, clan, clanc, a brincadeira agora ficou sem graça para aquele garotinho, hoje sessentão.
Do todo modo, agora ele tem sua própria pá coletora, a qual usa com frequência em seu estabelecimento comercial para recolher detritos deixados ir ao chão pelos clientes. Enquanto recolhe o lixo por entre os fregueses vai escutando o clanc, clanc, clanc de outrora, sentindo-se, ele próprio, um daqueles senhorzinhos calmos e serenos, para os quais o tempo parecia não importar. Clanc, clanc, clanc...
Pedro Altino Farias, em 05/04/2018
Nota do autor: esse texto é de 2018, e ainda não havia sido publicado porque me faltava uma imagem para ilustrá-lo perfeitamente. Revirando meus arquivos na pasta "Textos/Não Finalizados", deparei-me com ele e, com o advento da IA, criei essa imagem, fiz uma rápida revisão e eis o resultado. Digam aí, não ficou legal?

Legal demais, Pedrinho, lembro-me desse passeio como se fosse hoje. Tempos bons, aqueles, slegria com simplicidade. Parabéns pelo texto, uma verdadeira fotografia da época.
ResponderExcluirMaravilha de registro, saudades...
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