terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sonhar é Viver


Um sonho se faz realidade
Juntando pedaços de insanidade
Com um pouco de juízo
Num movimento conciso

Mas não tão conciso assim
Porque, se assim for, terá fim
E se fim tiver, morto estará
Pois morre quem não mais sonhar

Seus sonhos sempre lhe acompanharão
Às vezes se realizarão, às vezes não
O importante é seguir adiante
Pois nunca sonhamos o bastante

Para os que não se realizarem
Tenha-os como uma miragem
Como uma visão turva
De algo visto através de pingos de chuva

Os que fizer existir
Você os deverá curtir
Com muito empenho e felicidade
Por DEUS ter permitido se tornarem realidade

Por fim lhe digo
Assim como diz um amigo
Seja sempre você mesmo
E conte sempre comigo


Altino Farias, em 09/2003
altino.frs@gmail.com

O Homem e o Mundo Perfeito de Deus


O mundo não tem ponta nem cabeça. Ele é redondo e perfeito, sem lados, arestas ou rugas. Nós, com nossos desejos, anseios e limitações, é que o sentimos imperfeito... E esse é o grande lance de Deus: fazer com que convivamos com nossas limitações e imperfeições num mundo perfeito.

Altino Farias, em 2005
altino.frs@gmail.com

domingo, 19 de setembro de 2010


A Calma Liberta



Quando tinha meus vinte e poucos anos já havia superado boa parte da timidez dos anos de infância e adolescência, mas, por outro lado, havia me tornado um homem afobado, apressado e compromissado em 100% com a vida. Era uma espécie de “novo-velho”. Trabalhava na área operacional e comercial de uma empresa, sendo freqüentes meus contatos com clientes, quando tinha como interlocutores do outro lado pessoas de todos os tipos, de todas as nuances do espectro que vai de um simples peão ao empresário bem sucedido e culto, tendo aprendido muito com todos eles.

Um certa Dona Doralice, que gerenciava os setores de compras e manutenção de uma dessas empresas, sempre que via o jovem Altino de então afobado e aborrecido, dizia pausadamente: “Calma seu Altino, calma é bom para os nervos”. Embora o óbvio da frase, ela fazia efeito contrário em mim, pois me deixava mais estressado ainda, fazendo-me pensar coisas como: “O que ela está pensando? Pensa que tudo fácil como é para ela??”, “Se ela disser isso mais uma vez...”, ou ainda “Lá vem ela de novo com esse papo!!”. Nessa época Dona Doralice era uma mulher já de seus quarenta poucos. Solteira, vivia para o trabalho e a cuidar da mãe, e era (ou ainda é, tomara) muito inteligente e perseverante. Uma figura que deixou esse ensinamento em estado latente no meu íntimo por anos: “Calma é bom para os nervos”.

Hoje, beirando os cinqüenta, transporto-me para aquela época, e posso ver agora o tempo que perdi com estresses sem motivos, aborrecimentos fúteis, raivas que magoaram pessoas, compromissos cancelados, lugares que não fui, pessoas que não conheci... Um tempo perdido, coisas que deixei de viver por não ter sabido ter calma nas horas certas.

A frase de Dona Doralice foi acordando com o passar de todos esses anos, fazendo-me ver o quanto realmente a calma é bom para os nervos. Para que viver a angústia de um dia que estar por vir? Para que sofrer pelo que nem sabemos ainda se vai realmente acontecer? E se acontecer? E por que se deixar irritar por aquela pessoa que já sabemos não merecer? Imprevistos e problemas no trabalho ocorrem, doença se trata, aperto financeiro se tenta solucionar, problemas de famílias sempre existirão. Para que perder a calma?

É comum perder a razão quando se perde a calma, porque, sob efeito das adrenalinas da vida, saímos do nosso normal e não conseguimos raciocinar de forma ponderada, muitas vezes cometendo atos impensados dos quais nos arrependemos logo depois. A calma, ao contrário, dá-nos o domínio pleno das situações, condições de tomarmos as decisões mais acertadas a cada ocasião e permite-nos viver cada momento, desfrutando dele todas as suas vantagens.

Diante disso tudo, agradeço hoje aos ensinamentos de Dona Doralice, e atrevo-me a dizer que, mais que fazer bem aos nervos, a calma LIBERTA. Pensem nisso.


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

domingo, 12 de setembro de 2010

Um Sujeito Qualquer


Viveu a vida desregradamente. Mulheres, bebidas, jogo, cigarros, noites em claro. Dizem até que de vez em quando “puxava um baseado”, mas disso ninguém tem certeza. E se fosse? Nada de mais. Também amou muito. Exageradamente. E esse exagero sempre o levava do céu ao inferno em fração de segundos, tão intensos que eram seus sentimentos.

Morava numa espécie de estúdio, que se resumia a uma saleta, cozinha com balcão/bar, suíte e sacada, de onde tanto se via o nascer do sol quanto seu ocaso, dependendo da época do ano. Na sala, seu local favorito era uma pequena escrivaninha onde costumeiramente se debruçava sobre folhas de papel escrevendo compulsivamente não se sabe o quê. Escrevia por horas a fio madrugada adentro, enquanto ouvia boa música e bebia alguma coisa. Qualquer coisa, desde que contivesse álcool. Depois, já embriagado de tanto pensar, beber e sonhar, rasgava tudo que escrevera e jogava no lixo. E ao que parece esquecia definitivamente o que acabara de colocar no papel, deixando esses pensamentos para trás, como que para poder seguir adiante.

Seu quarto vivia em constante desalinho, com roupas jogadas por todo lado, cheiro forte de cigarro e bebida, que freqüentemente era derramada no chão, calcinhas femininas de todos os modelos e por toda parte. É, ele era doido por calcinhas, e sempre que alguma convidada permitia, ou dava chance, ele acrescentava mais uma ao seu acervo, vamos chamar assim. Suas prediletas não tinham vida longa, pois muito o serviam de companheiras em seus devaneios sexuais solitários e acabavam imprestáveis.

Uma mesma música ora o acalmava, ora o excitava, pois a calma e a euforia conviviam em eterno conflito dentro dele. Mas as belas melodias e poesias eram uma presença constante em seus momentos, e por esse motivo uma boa aparelhagem de som ocupava lugar privilegiado em sua saleta.

Alguns diziam que era louco, desajustado; outros, depressivo, mas não havia quem não tivesse prazer em estar em sua companhia. Às vezes chegava no “bar de sempre” alegre, sorridente e falante; outras, sisudo e caladão. De uma forma ou de outra, Zé Baiano, garçom que o atendia, providenciava logo sua dose de costume, e, aos poucos, suas idéias e pensamentos geniais e irreverentes iam aflorando, fluindo naturalmente. Puro delírio e prazer para quem partilhava a mesa com ele.

O trabalho o aborrecia demais, talvez por isso não tenha agregado mais patrimônio ao que herdou da família, empenhando-se apenas em ter o suficiente para nunca precisar de favores, ou ter que se manter em certa atividade forçadamente. Assim sua rotina consistia em acordar tarde, lá pelas nove, comer qualquer coisa e sair para o trabalho, que considerava um simples meio de subsistência, sem nenhuma pretensão de obter melhoras, promoções e coisas do gênero. Entrava as dez e saída lá pelas quatro e tanto, dependendo do dia. Seu chefe fazia vista grossa para faltas e horários incertos, visto que dava conta do serviço até melhor que quem cumpria jornada normal de oito horas. E, na hora do sufoco, sempre enxergava soluções onde só se viam problemas. Ele sabia disso e tirava proveito próprio dessa sua vantagem convertendo-a em horas de folga e rotina mais amena.

Depois do trabalho (“Ah! Graças a Deus!”) dava uma passadinha no mencionado “bar de sempre”, trampolim para outros bares, outros porres, outras viagens. A noite chegava e ele bebia, fumava, sorria, filosofava e cantava até se exaurir, e então voltava ao seu estúdio para, quem sabe, ainda passar horas pensando e escrevendo mistérios, vez que nunca se soube de que esses escritos tratavam; se cartas de amor, ou poesias, ou lamentos, ou sonhos perdidos... Ninguém nunca soube. 

Em muitas ocasiões alguma amiga de mesa o acompanhava ao estúdio, e foram algumas delas que mencionaram aos outros os tais escritos, pois acontecia de acordarem no meio da madrugada com uma música suave ao fundo, uma luz fraca iluminando a escrivaninha, e nosso personagem a escrever páginas e páginas. Indagado sobre o que escrevia, desconversava, tomava mais um gole e jogava os papéis no lixo para dar atenção à amiga convidada... E, quem sabe, ao fim de tudo, ganhar mais uma calcinha para sua coleção.

Acontece que um dia o homem sumiu do “bar sempre” e dos outros bares que freqüentava de uma hora para outra. Passou-se um dia, dois, três, vários, até que se teve como certa sua ausência. Depois veio a notícia que ele havia morrido. Conta-se que ele morreu num dia qualquer, não se sabe bem ao certo quando nem de que, com uns quarenta e tantos anos, acreditam. Coração, cirrose, acidente, paixão... Quem sabe? Que diferença faz?

A família, sabendo do ocorrido, reclamou de imediato o corpo, e dele deu cabo às pressas. “Nem deram um passadinha no 'bar de sempre' com ele para se despedir da gente”, reclamaram os amigos de copo em tom de "Quincas Berro D'água". Mas no fim foi melhor assim, pois todo dia a turma fica imaginando ele chegar, roupa amarrotada, cabelos desgrenhados, cigarro aceso entre os dedos, e o Zé Baiano a correr para lhe servir uma dose da bebida habitual, na mesa de sempre, sempre no mesmo lugar, o qual ninguém nunca ousou usurpar.

Um dia apareceu no “bar de sempre” uma irmã, prima, cunhada, ou coisa o valha, perguntando por certa pessoa, que era um dos melhores amigos dele. Em conversa entre os dois a mulher contou que fora ao estúdio do morto providenciar seu desmantelamento, dando fim às coisas e objetos que lá se encontravam. Como também ouvira falar de certos escritos, que ninguém sabia do que tratavam, pôs-se a vasculhar o ambiente à procura de algo, algum indicativo, alguma coisa que desse a saber, ou pelo menos imaginar, o que se passava em seus pensamentos íntimos e solitários. Nada encontrou escrito. Nada. Muitos livros de assuntos variados, revistas, variadas também, mas escritos pessoais, nada. Ah, sim, encontrou um pequeno pedaço de papel dobrado, na verdade um rabisco, em cima da escrivaninha, com uma frase escrita com sua letra. Uma frase antiga, já comum e até banal por ser muito dita, mas que talvez o traduzisse, por fim. Ela tirou o pedaço de papel dobrado da bolsa e o pôs na mão do amigo, presenteando-o com uma lembrança do que se fora. O amigo abriu o pedaço de papel devagar e carinhosamente, e nele estava escrito apenas: “Sonhos: acredite neles.” 

Altino Farias
altino.frs@gmail.com

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Loucos Somos Nós



  

Seu tempo não é medido em dias, horas, minutos ou segundos. Sua imaginação não tem limites. Seu pensamento não tem lugar aqui neste mundo.

O cuidado no vestir, a postura ao sentar, suas argumentações imaginárias, suas leituras... Louco?? Loucos somos nós, que vivemos correndo atrás do tempo, assistindo, inertes, a violência se espalhar pelo mundo, querendo mais e sempre acabando por poder menos.

Acredito que o poeta andarilho talvez tenha percebido a insensatez da vida como ela é, e tenha resolvido fazer as coisas do jeito dele. Será?? Quem sabe... Difícil dizer, mas tenho certeza que todo domingo, quando ele aparece no Flórida Bar, mesmo sem tempo para pensarmos em nós mesmos, paramos um pouco ao vê-lo e nos indagamos: Louco?? Será mesmo, ele?? Ou nós??


Pedro Altino Farias


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Vidas e Mortes




Vi horizontes, sóis e luas.
Vivi vidas e... Chorei mortes.
Algumas eram mortes repletas de vida;
Outras, vidas com jeito de morte.
E sigo assim, entre horizontes, sóis e luas;
Vidas e mortes.
Sigo porque é minha sina, e tenho que seguir.
E cada vida que faz parte da minha me ilumina mais e mais,
Mas ao partirem, me enchem de morte.
Morro por cada uma dessas vidas;
Revivo a cada morte!!



Altino Farias
altino.frs@gamil.com

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

WAR



Entrei na África atravessando o Estreito de Gibraltar, saindo da Espanha para a Argélia. Foi uma batalha na qual mobilizei 300 exércitos contra os Vermelhos, com muitas baixas de lado a lado, mas, enfim, venci. Neste continente vou me deparar com os Azuis, onde são maioria. Eles são maioria na Europa também, embora estejam longe de dominar tanto um quanto outro continente.

Tenho sob meu domínio a totalidade da Oceania e América do Sul. Esta situação me garante tranqüilidade para formar e treinar novos exércitos, fortalecendo mais ainda essas posições e permitindo tentar avançar, expandindo minhas fronteiras. Para a América do Norte, passando pela Central, está difícil avançar, pois os Pretos parecem bastante determinados a manter seus territórios no continente. Agora com minha entrada na África, talvez seja uma boa tentar entrar na Nigéria partindo do Brasil, mas isso tenho que ver com calma, pois Azuis e Brancos, que também têm posições na África, parecem agir em simbiose e acredito que para atingir seus objetivos um acabe beneficiando o outro sem querer. E aí seriam dois contra um.

Os Verdes, com exércitos isolados aqui e acolá no resto do mundo, dominam boa parte da Ásia. Conquistaram muitos territórios no continente claramente perseguindo os Vermelhos, donde se conclui que ou têm objetivos semelhantes, dada a resistência daqueles, ou desejam realmente extingui-los. Tenho posições a Ásia também. Poucas, é verdade, mas procuro manter Vladivostok e a Sibéria. Não por estratégia, apenas porque acho que ocupar a Sibéria, terra inóspita e associada a exílios e trabalhos forçados na época do comunismo, é uma demonstração de força e fibra. No caso de Vladivostok é só pelo nome, que acho super legal de pronunciar, diferentemente da Mongólia, que praticamente entreguei aos Brancos, que, com exércitos espalhados meio que aleatoriamente por todo o mundo, até agora não se mostraram combativos o suficiente para grandes conquistas.

Talvez eu resolva atravessar o estreito de Bering com meus exércitos Amarelos e entrar na América do Norte pelo Alasca, de onde os Pretos parecem não estar esperando um ataque. Mas para esta investida vou precisar de uns 400 exércitos!!

É, talvez com as próximas movimentações desses exércitos se defina o destino de planeta, e se inicie uma nova ordem política, social e econômica no mundo, mas... Ih, agora vamos ter que parar o jogo um pouco porque a mamãe já preparou o lanche e tá chamando todo mundo pra merendar. Bora, negada!!



Altino Farias


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Em Algum Dia do Passado

O dia amanheceu de sol, e uma música de “Os Incríveis” ressoava vindo de alguma radiola da vizinhança. Foi um dia comum, nada de espetacular. Despertei meio apressado, pois tinha que ir à “rua” resolver umas coisas de casa, mas logo no asseio matinal tive uma pequena chateação, pois a pasta de dentes que havia no banheiro era Signal, aquela de listras vermelhas, ao invés da habitual Kolynos, mas tudo bem, nada como um bom banho para começar bem o dia. E é sempre prazeroso abrir uma nova embalagem de sabonete Phebo, quando aquele delicioso e inconfundível aroma se espalha no ar. E foi o que aconteceu nessa manhã.

No café matinal, parti um bom pedaço do pão semolina, que estava novinho, o qual untei generosamente com manteiga Faisão. Tão simples quanto delicioso. Ao café misturei um pouco de leite Cila recém fervido, aliás, neste dia o leite não deu para todos em casa, pois uma das garrafas de vidro no qual ele vem envasado quebrou, e ficamos com apenas uma disponível.

Vesti rapidamente uma calça de tergal, combinada com uma camisa de “fio da Escócia” e caminhei rumo à esquina de minha casa, onde fica a parada do “13 de Maio”, linha de ônibus da Empresa São José de Ribamar. Paguei a passagem com “passe de estudante”, e fui organizando as tarefas que iria realizar durante o trajeto, apesar dos solavancos constantes devido ao calçamento de pedras toscas das ruas do bairro por onde o coletivo transitava.

Chato esse negócio de banco só abrir às nove da manhã, porque tinha que ir ao Banco Nacional (agência da Major Facundo) ver se havia chegado uma ordem de pagamento vinda de Recife, e o restante de minhas obrigações dependia de poder sacar esses “cruzeiros”. Mas eu estava otimista, pois a ordem havia sido enviada por telex, muito mais rápido que o meio convencional, e, se corresse, daria tempo de fazer tudo que estava programado.

Depois de uma certa espera no balcão de atendimento, enfim, veio a confirmação. Então me dirigi ao caixa com um cheque de minha mãe para efetuar o saque e já realizar uns pagamentos: Cotelce, Capemi e uma prestação da Domus. Tudo certo!!

E vamos às outras tarefas: passar na “Hora Certa” (Major Facundo c/ Guilherme Rocha) para deixar um relógio automático no conserto, passar no “Zás Traz” (Liberato Barroso) para apanhar uma bolsa da qual foram trocados uns ilhoses, ir na “Casa Rogério” (também na Liberato Barroso) comprar botões. fecho ecler e agulha para máquina de costura, tudo conforme amostras que minha mãe mandou. Depois fui cortar o cabelo no “Lord”. Claro que uma passadinha na Mesbla e Lobrás eram obrigatórias, assim como merendar um caldo de cana com pastel na “Leão do Sul”. Quando era menino e ia à “rua” com a mamãe, ela sempre passava na “Libonense” para lanchar e comprar alguma coisa gostosa para levar para casa, mas eu sempre preferi a “Leão do Sul”.

Terminadas as tarefas lá fui eu ao “Parque das Crianças” pegar o ônibus de volta, mas eis que um “13 de Maio” saiu quando eu ia chegando ao ponto. Como já estava meio tarde, e eu ainda iria à aula, resolvi pegar um “Pio XII”, mesmo descendo numa parada mais longe de casa um pouco. Enquanto conferia o troco das despesas no ônibus, ouvia o programa do Zé Lisboa, na Rádio Assunção, que repetia à exaustão o bordão “Relógio que atrasa não adianta, é roskof !!”, sempre que anunciava a hora certa.

Cheguei em casa, prestei contas com a mamãe, tomei um banho apressado e almocei. O almoço foi posta de cavala frita. A cavala estava fresquinha, pois foi comprada naquela mesma manhã, na porta de casa, como de hábito, a um senhor que vende pescado fresco pelas ruas do bairro.

Nem bem engoli o almoço, já peguei meus livros e fui para a parada do “Circular”. Durante o trajeto, com o estômago cheio, o calor e o sacolejado do ônibus, batia uma sonolência medonha, mas que logo passava quando minha parada de descida se aproximava, na Antônio Sales com Barão de Studart, próxima ao Romcy. De lá ia, a pé, até o Christus, onde, neste dia, assisti a aulas de matemática (Carlão), física (Zé Marques), literatura (Costinha) e Inglês (Valéria), fazendo o mesmo percurso de volta ao fim da tarde... Só que com o “Circular” lotadaço.

Depois do jantar, descansado, liguei para a namoradinha nova. Ela estava bem humorada e espirituosa, e disse que havia puxado a extensão do telefone da sala para o quarto, e estava deitada em sua cama com as pernas para cima, apoiadas num almofadão. Fiquei do lado de cá me deliciando, imaginando a cena enquanto conversávamos, e o papo foi se estendendo até que minha irmã veio reclamar da conversa demorada, pois estava precisando ligar também. Em nome da boa convivência no lar, me despedi e desliguei com um beijinho, liberando a linha telefônica.

Para terminar o dia me debrucei frente à TV para assistir à novela “Os Ossos do Barão”, que tem um interessante enredo sobre o sucesso de emigrantes italianos e a decadência das famílias paulistanas descendentes dos barões do café. Depois disso, dei comida ao Duque, meu vira-lata de estimação, fiz-lhe uns afagos e me recolhi. Não sem antes pedir “a benção, mamãe!!”. No meio da noite ainda tive que me levantar e fechar as venezianas da janela, pois corria um vento cortante e frio naquela noite de fins de julho...


Altino Farias

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Pensamento Atualíssimo!!

Para refletir a respeito:

"É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade. Por cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. O governo não pode dar para alguém aquilo que tira de outro alguém.

Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.

É impossível multiplicar riqueza dividindo-a."

Adrian Rogers, 1931

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Antigomobilismo: Uma Paixão Que Virou Moda





A paixão por caros clássicos é tão antiga quanto a existência do automóvel. No Brasil, até a bem pouco tempo, esse hobby era restrito a um pequeno número de admiradores, atividade que foi aos poucos ganhando espaço pela melhor condição de aquisição e venda de um antigo, e maior oferta de serviços e peças de reposição no mercado, o que facilita e barateia a manutenção sobremaneira.

Os colecionadores de raridades encabeçam a lista de aficionados, e, noutros tempos, uma pessoa de classe média que possuísse um antigo de qualidade era vista como louca, tanto pelo valor do bem, quanto pelo custo da manutenção e a pouca liquidez na hora da venda.

Atualmente o que vemos é um mercado florescente de antigos em todo o país, com preços referenciais estabelecidos, lojas de peças específicas, importadores e prestadores de serviços especializados, e uma infinidade de sites sobre o assunto, que informam dados técnicos, históricos, curiosidades, dispõe de cópias de manuais, fotos e o que mais se pensar.

Tornou-se comum que homens na faixa dos quarenta-cinquenta anos, apaixonados por carros e já estabilizados na vida (ou nem tanto), procurem resgatar lembranças da infância e adolescência adquirindo um veículo do modelo que lhes marcou essas épocas da vida. Anteriormente, na maioria das vezes, isso não passava de um sonho dados os altos custos para manter essa paixão.

Em nossa capital, Fortaleza, temos há muito o Museu do Automóvel, que congrega colecionadores e abriga seus veículos maravilhosos em suas alas. Estes colecionadores, além dos carros expostos no museu, mantêm o restante de seus acervos em garagens particulares. Outros pontos de convergência de antigomobilistas surgiram a algum tempo em forma de clubes. Clube do Opala, Clube da Puma, Clube do Fusca são alguns exemplos. Esses clubes organizam encontros regulares, passeios e troca de informações, sendo iniciativas mais populares e abrangentes que o museu.

Observem que tanto as atividades do museu, quanto as dos clubes, são restritivas, pois admitem a participação de apenas certos segmentos de antigomobilistas. Foi então que surgiram Neandro e César, dois entusiastas do assunto, promovendo o FLASHBAKERS, encontro mensal de caRros antigos que ocorre no primeiro sábado de cada mês. O evento, que é realizado há cinco anos, é aberto à participação de antigomobilistas apaixonados por todos os tipos de carros: antigões, importados, nacionais, hot's, militares, camionetes, enfim, até quem não tem um, mas tem essa paixão dentro de si, comparece ao evento e se sente bem com o alto astral da turma que participa. A meu ver o FLASHBACKERS é um divisor de águas no Ceará em termos de popularização dessa paixão, estimulando os apreciadores a tirar seus xodós de suas garagens e curtir uma agradável tarde de sábado em companhia de seus pares e simpatizantes... Todos loucos por carros antigos.


Altino Farias, antigomobilista graças a Deus

altino.farias@yahoo.com.br

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Internético




Hoje em dia, além do eternamente etílico, sou também um ser altamente internético, pois muito me utilizo da informática para meus trabalhos jornalísticos e besteirísticos. As enciclopédias e wikpédias, disponíveis na rede, me permitem ser mais enfático nas palavras e eclético nos assuntos, evitando que seja aleatório, enquanto que a maioria dos e-mails que recebo me tornam menos eclesiástico, por assim dizer.

Dicionários variados, e em todos os idiomas, dirimem dúvidas quanto aos vocábulos apropriados para cada situação, tornando mais fluente a dialética e, conseqüentemente, menos errática.

É emblemática a influência que sofro da fonética, fazendo com que os textos soem mais poéticos, ou, pelo menos, mais simpáticos. Frígidos, burocráticos, hepáticos ou anêmicos é que não podem ser, e, se forem, nem passam numa análise crítica depois de revisão enérgica.

Nessa hora, o fato de ser etílico me ajuda bastante a ser um pouco mais filosófico, se é que me entendem, pois cachaça, sentimentos e idéias, tudo junto, tem efeito em mim como um ácido lisérgico...

E para não ser mais prolixo, até porque o espaço aqui é exíguo, vou encerrando por aqui, já pensando num próximo colóquio.

Altino Farias

Cuba Envelheceu...


Fidel Castro envelheceu. É hoje um ancião. Cruel, é verdade, mas um ancião. E com ele Cuba toda envelheceu também. Suas belas praias com seus pescadores que retornam ao fim da tarde envelheceram. Seus bares e cafés envelheceram. Seus prédios, ruas e avenidas envelheceram. Seus automóveis e máquinas envelheceram. Os sorrisos e o “cuba libre” envelheceram. Todo um sistema envelheceu e se esclerosou. Triste destino para uma ilha tão simpática, plantada em lugar privilegiadíssimo do planeta, na qual habita um povo honesto, simples e alegre.

À idade cronológica de Fidel deve-se acrescentar outros tantos anos que foram roubados dos cubanos. Cinquenta anos de muitos, quarenta e tantos de outros muitos, trinta e muitos de mais outros... Até chegarmos aos recém nascidos de hoje. Assim considerando, Fidel é um ancião milenar! Mais ou menos, todos perderam. Todos foram roubados. Todos foram penalizados com o que se tem de mais precioso além da saúde: a liberdade e o tempo, que é inexorável.

Passaram-se cinquenta anos desde a revolução. São muitos anos. A lembrança real de outros tempos reside apenas na mente de quem tem uns cinquenta e cinco anos em diante. O restante da população só sabe de Cuba pré-revolução de ouvir contar. Pensem nisso. É uma nação inteira quase sem memória. É muito tempo... Uma geração inteira destituída da liberdade, do direito de ter de boas lembranças, convivências, conquistas, viagens, fracassos, amores, aventuras, oportunidades, idas e vindas. Para os cubanos só há um imenso vazio habitando esses cinquenta anos, os quais são alardeados com orgulho por Fidel e, agora, Raul, como um grande feito.

Em uma de suas canções, Chico Buarque fala de uma certa Carolina, uma moça de olhos tristes e fundos. A certa altura da poesia ele diz que “O mundo passou na janela e só Carolina não viu”. Pois é, o mundo desfilou frente aos nossos olhos a revolução sexual, a explosão pop, a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, atentados ao Papa, o fim do apartheid na África do Sul, a união da Europa (sem guerras), o sucesso dos japoneses e dos Tigres Asiáticos, a consciência ecológica... Meus Deus, foram tantos fatos, tantos acontecimentos que mudaram as feições do mundo nestes cinquenta anos... E só Cuba não viu... É triste.

Talvez a maior punição imposta pelos Estados Unidos a Fidel tenha sido deixá-lo envelhecer como está acontecendo hoje. Deixá-lo exposto ao mundo assim: velho, demente, cruel... Ridículo. Muito melhor que fazê-lo morto e mártir. Pobres cubanos, obrigados a assistir a esse espetáculo macabro enquanto frequentam filas para comprar exemplares do jornal oficial do Partido... Que lhes servirão como papel higiênico. Mais uma vez citando Chico, “peço a Deus por essa gente, é gente humilde, que vontade de chorar”.


Altino Farias, abril 2010
altino.farias@yahoo.com.br