terça-feira, 24 de abril de 2012

O Grito



Alguma vez você já perdeu a vida? Será que não mesmo?
Outro dia ouvi “Sangue Latino”, música dos Secos e Molhados que diz num trecho:

“Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo...
E o que me importa é não estar vencido...
Minha vida meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
Minh’alma cativa...”


E comecei a pensar... De um modo geral, consideramos como vida somente a atividade biológica, mas há outras formas de vida. Há indivíduos que consideram seu trabalho como sendo sua própria vida. Outros, têm por vida um sólido patrimônio. A fé religiosa é a vida de muitos. O mais comum é termos em nossos entes queridos nossa vida. Por eles se morre, se mata. Sem eles “não dá pra ser feliz”, disse Fagner noutra canção. Passei então a ordenar as ideias mentalmente. Depois transferi tudo para o “papel”. Após poucos retoques, o resultado foi o pequeno texto que segue. Depois de lê-lo, pense novamente... Talvez perceba que em algum momento você já perdeu a vida.


O Grito


Lancei um grito de desespero: socorro, estou cansado, minha vida corre perigo! Fui atendido em minha súplica, mas, por ironia, acabei ficando à deriva. Perdi o rumo, quase a vida. Meu norte se confundiu com o sul; leste ou oeste, não fazia diferença, todas as direções levavam ao mesmo lugar: um abismo profundo, frio, vazio, e escuro. Difícil sair sozinho.

Mas não foi logo assim. Quando cai, esperneei, gritei de novo, mas desta vez não fui ouvido. Ninguém do lado de fora entendia onde eu estava, o que passava. Não ouviram meus apelos. Não ouviram minha vida, que ainda pulsava.

O cansaço me levou mais ao fundo. O que me parecia luz era, na verdade, escuridão, ilusão; e eu desci mais um pouco nesse imenso fosso sem fim.

Como num filme de suspense, fui salvo pela mocinha no último segundo... Talvez até um instante depois dele. Enquanto ela me segurava firme pelo coração, o que me sustentava até então desabou sob meus pés, pois era pura ilusão de fato.

O caminho de volta ao topo não está sendo fácil. Tempestades, vendavais. Pedras rolaram sobre mim, às vezes me machucando profundamente, mas continuei seguindo em frente, subindo, sempre levado pelo coração. Queria vida!

Depois de muito, vi o Sol e a Lua e as estrelas. Senti uma brisa fresca e suave tocar meu rosto suado, e toda a verdade de um sorriso ingênuo, um abraço amoroso. Embora esteja infinitamente melhor que ontem, ainda sofro pela minha vida, ainda grito: quero minha vida de volta!

Pedro Altino Farias, em 23/12/11


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3 comentários:

  1. Pedro,ver o sol,ver a lua ,ver estrelas é poético,
    é sinal de muita sensibilidade que permite viver, gritar e também sorrir...

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  2. Mãezinha,

    No segundo parágrafo ao dizer "Não ouviram minha vida, que ainda pulsava", subtende-se que naquele ponto, ou logo depois dele, houve uma "morte", tanto que, ao fim, o grito é exatamente esse: "quero minha vida de volta!". O Sol, a Lua e as estrelas, assim como o sorriso e o abraço verdadeiros são parte da "ressurreição". Ainda bem!!
    Bjs,

    Pedro Altino

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  3. Pedro,

    Realemente é por demais filosófico. Creio que representa um pouco de cada um de nós no caminhar dessa vida, cheia de percalços, recomeços, acertos e vitórias. Gostei muito, parabéns!

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