terça-feira, 28 de outubro de 2014

Nada de Nada


Acho que não acho nada de nada e, se achasse, por certo acharia errado. É que acho que não tenho discernimento suficiente para achar isso ou aquilo, além do mais, acho que achar alguma coisa de algo é pura perda de tempo.


Se acho que perderia meu tempo achando o que não deveria achar, é porque o achado não valia a pena achar. E sigo assim, achando sem achar, perdendo sem saber se vou achar novamente o que nunca foi achado de fato.


Pedro Altino Farias, 01/05/2014

ATENÇÃO:
os textos deste blog estão protegidos pela lei nº 9.610 de 19/02/1998. Não copie, reproduza ou publique sem mencionar os devidos créditos. 


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Quando der tempo

Precisava molhar a garganta. Pedi uma cerveja. O velho rádio, quase mudo, entoava uma canção popular no ambiente, "As daqui estão mais geladas", avisou aquele senhor franzino, bigode fino e muito educado, dirigindo-se a uma velha geladeira azul no meio do salão com flanelas vermelhas amarradas aos puxadores das portas.



De fato a cerveja estava gelada. Não tanto, mas gelada. Enquanto saboreava goles lentos olhei em volta. O velho rádio alegrando a casa, o escorredor de copos à antiga, a bacia abaixo da torneira aparando a água servida, o piso vermelho de cimento queimado já gasto pelo tempo (mas nem por isso sem brilho), a estrutura da coberta com linhas e caibros de carnaúba, balcão, bancos e mesas de madeira. Todos na cor cinza.







Caixas de cerveja, vazias ou completas, arrumadas aqui e ali, instalação elétrica com mil gambiarras, uma caixa de cachaça apoiando a bacia sob a torneira, um balde, calendário na parede, um solitário vaso com planta sobre o balcão, prateleiras semi desertas. Tudo simples, limpo e arrumado. E um único freguês, além de mim, para dividir uma prosa com Seu Raimundo Vieira, o simpático proprietário do estabelecimento.




Completando o cenário que parece de outros tempos, um tradicional par de chifres colocado na mais alta prateleira, bem ao centro e por trás de um crucifixo avisa: "Cuidado!". A arara pendurada na parede de fundo olha para o lado posto com quem diz: "Eu, hein?".

Conversei um pouco com Seu Raimundo. Fiz uma observação sobre o escorredor de copos. "Foi o compadre Zezim quem fez ele... Em oitenta e um! Fez o balcão e as mesas e bancos também. Mas ele já morreu, viu?", alertou.

Antes que a cerveja acabasse, o tempo acabou. O meu tempo, porque o do Seu Raimundo parece não passar. Cerveja já meio quente, goles apressados, um abraço e a promessa de voltar. Quando der tempo.


Pedro Altino Farias, em 18/10/2014

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Anoitecer em Barra Nova




A leste despontava Morro Branco, já com jeito de noite, esfuziante com suas luzes.

A oeste, uma Águas Belas serena sob o céu do entardecer, com tons de azul e amarelo avermelhado. Réstias de Sol.

Ao norte, maré baixa e um mar calmo que apenas murmurava.

Ao sul, Barra Nova, simples, tímida e ingênua nos convidava a voltar para casa.

A Lua, crescente, observava-nos a meio quadrante. De repente percebemos Vênus no firmamento e um vento cortante avisou que era hora. Então, eu e Pés Pequenos voltamos. 


Pedro Altino Farias, em 01/05/2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Amanhã, presente


Corpo inerte. Não há mais silêncio como antes, mesmo assim a calma impera, tanto que o gotejar da torneira chega a incomodar. Lá fora, sinais de trânsito alternam bobamente o verde, o amarelo e o vermelho sem que ninguém se importe.

Corpo cativo. Cães, covardemente trancados em apartamentos, não ladram mais como noutros tempos, permitindo aos gatos passearem tranquilos por onde bem entenderem. 

Corpo ativo. Coisas do cotidiano se refletem em imagens, sons, situações. Boas ou ruins. O erotismo se faz presente vez por outra, agitando, intumescendo, dizendo assim: “Estais vivo!”.

Corpo flutuante. O orvalho, indistintamente, molha folhas, flores, automóveis, pedras, terra e vidraças, enquanto o vento uiva por entre frestas parecendo assombração. Uma assombração boa. 

Corpo em suspense. A natureza muda, repentinamente, de um dia para outro. A vida muda num segundo. Uma palavra, um olhar e tudo pode ser diferente num piscar de olhos. 

Corpo ausente, amanhã presente.


Pedro Altino Farias, em 01/10/2014

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

QUERO APENAS IR E VIR


Candidatos maquiados demoradamente, propostas de governo maquiadas na base do improviso. Francos atiradores contrapostos a péssimos defensores. Posições invertidas logo depois. Mídia comprometida à esquerda e à direita. Difícil mesmo ficar imparcial com tantos interesses em jogo, afinal, o objeto da disputa é o Brasil.

Educação em tempo integral, punição exemplar aos corruptos, transporte bilhete único, rede de saúde exemplar, manutenção e ampliação da rede de assistência governamental. São muitas emoções, mas pergunto: se os favoritos já estão aí há tempos, por que esse país maravilhoso ainda não é realidade?

Em meio a planos ambiciosamente irreais dos candidatos, desejo apenas o básico, e o direito de ir e vir, literalmente, é um deles. Poder caminhar pela rua, qualquer rua e não apenas nas regiões nobres das cidades, é aventura arriscada nos dias de hoje, assim como utilizar transporte público, sacar dinheiro no caixa eletrônico, estacionar o carro numa via pública, comprar jornal numa banca.

Diariamente vivemos situações absurdas, surreais, risíveis, patéticas. Estamos à mercê do banditismo e da mais reles malandragem sem poder de reação. As instituições responsáveis pela segurança estão imóveis. Quando agem em defesa do cidadão e do Estado são duramente criticadas como se vilãs fossem. Honestamente, nada mais entendo quando se chega ao ponto extremo de negar ao cidadão a legítima defesa e o direito à propriedade. Fato inegável, embora sejamos livres na poesia, não temos mais o direito de ir e vir na vida real.


Pedro Altino Farias, em 01/10/2014

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