quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Bomba Relógio



Os riscos e irregularidades que podem culminar em tragédias como a de Santa Maria ocorrem todo dia, a todo momento, em todos os lugares. Nós mesmos facilitamos, transgredimos normas, desdenhamos orientações. Depois, "Oh!, que tragédia!!", lamentamos.

Deixando as obrigações não cumpridas do estado de lado (e são muitas), voltemos nossos olhares críticos a nós mesmos. Adoramos comprar um Iphone no preço (contrabandeado) e DVD’s piratas. Contratamos pedreiros para serviços que exigem a expertise de engenheiros. Aconselhamo-nos com balconistas de farmácias ao invés de procurarmos médicos. A lista é imensa...

Como resultado, mantemos ativas quadrilhas de contraventores, edifícios desmoronam, doentes gastam e não resolvem seus problemas... E até pioram, voluntariamente, seu estado de saúde.

Incêndios. A grande maioria ocorre de surpresa, mas não sem aviso prévio. Há várias causas, a maioria  previsível, evitável. Dentre todas, o curto circuito nas instalações elétricas prediais aliado ao contato com materiais inflamáveis, que propaga o fogo rapidamente, é a mais corriqueira. O curto circuito pode ocorrer pela simples fadiga do material, ou por circuitos sobrecarregados e materiais subdimensionados, e pergunto: cadê a figura do engenheiro eletricista?? Ah, não precisou, o “Seu Zé Bundasuja” disse que dava conta. Puxou um fio daqui, emendou noutro acolá e pronto. Foi embora e deixou uma bomba relógio silenciosa pronta para matar a qualquer momento.

Faço esse comentário ignorando a causa da tragédia de Santa Maria, que, parece, ocorreu por uma irresponsabilidade gritante dos integrantes da banda, tendo como co-autores os donos da boate, que receberam um número muito, muito superior de frequentadores ao que a casa comportava.

Faço esse comentário para chamar a atenção para a questão da RESPONSABILIDADE CIVIL de empresas, profissionais e cidadãos em geral, que muitos parecem menosprezar. O certo não é caro, o errado é que é um pouco "mais barato". Então, se vai a algum lugar, se vai contratar alguém, certifique-se ser um lugar seguro, certifique-se que contratará alguém competente, senão... Pode haver muito choro no final da história.


Pedro Altino Farias, em 30/01/2013

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Por Apenas R$ 10,70


Outro dia fui dar entrada num documento no CREA – Conselho Regional de Engenharia e  Agronomia, cuja sede fica no centro de Fortaleza. Parei o carro na Rua Castro e Silva, quase defronte ao prédio. O atendimento não demorou mais que três minutos, o que me deu cerca de uma hora sem nada a fazer. Então... Resolvi perambular, admirando nossa cidade.

ANTIGO SAN PEDRO HOTEL

Era meio dia, e comecei meu trajeto apreciando o próprio edifício do CREA, anterior e originalmente, San Pedro Hotel. Um luxo à época, com apartamentos com vista para nosso verde mar. Depois percorri a Rua Gal. Bezerril. Bucólica, ela conserva paisagens de outros tempos. Bares, lojas de ferragens, de chapéus, redes, artigos de couro e aviamentos se misturam numa miscelânea de cores e formas. 

TRAVESSA CRATO
A travessa Crato é um caso à parte. Ali o tempo parece passar mais lento, as pessoas  sorriam umas para as outras, a correria dá espaço à vida...


PRAÇA DOS LEÕES: TROCA-TROCA DE LIVROS 

Percorrendo a rua no sentido praia-sertão passei ao lado do Edifício General Tibúrcio, projeto de arquitetura de meu saudoso pai, arq. Armando Farias. Logo ali em frente, a Praça dos Leões, na qual estavam montados estandes padronizados para o comércio de livros didáticos usados em bom estado (troca-troca). Um serviço à comunidade.

INTERIOR DA IGREJA DO ROSÁRIO

Continuando no mesmo sentido, desci à esquerda continuando minha caminhada pela Rua do Rosário. Dei uma rápida olhada no interior da igreja do mesmo nome e no Palácio da Luz (Rua Rosário Nº1), onde funciona a Academia Cearense de Letras. Fundada em 1894, nossa academia precedeu à própria Academia Brasileira de Letras - ABL. Quantos sabem disso?

ENTRADA DO PALÁCIO DA LUZ
                                             
Continuando pela Rosário, passei em frente ao prédio do antigo Flórida Bar (Rua do Rosário, 38), onde hoje funciona uma loja de consórcios da Caixa... Saudades!! 


PRÉDIO ONDE FUNCIONOU O FLÓRIDA BAR

Depois me deparei com uma casa de consertos de máquinas de escrever e telex, imaginem. Na mesma rua, uma mercearia, com cereais expostos em surrões à calçada e um mundo de mantimentos lá dentro, entupindo todos os improváveis três metros de largura do comércio. E a casa estava lotada!


MÁQUINA DE ESCREVER, CALCULAR E TELEX: QUEM VAI QUERER?

COM APENAS TRÊS METROS DE FRENTE, MAS MUITO SORTIDA

Mais um pouco à frente, na esquina com a praça dos voluntários, dobrei à esquerda na Perboyre Silva observando suas lojas. Desci até a Sena Madureira, entrei na Melvin Jones (nunca mais havia andado por ali) com suas lojas de rações e equipamentos antigos. Cheguei até o Bar e Restaurante Ipueiras, onde bebi água gelada e bem vinda. 


RUA MELVIN JONES - BAR E RESTAURANTE IPUEIRAS

Olhando para o alto, roupas e toalhas penduradas nas janelas anunciando: “Aqui há vida!”.


AQUI HÁ VIDA!

Fiz o percurso de volta à Praça dos Voluntários, agora a admirando. Surpreendeu-me seu florido jardim, coisa difícil de encontrar em Fortaleza. 


PRAÇA DOS VOLUNTÁRIOS: CANTEIROS FLORIDOS

Continuei pela tortuosa Perboyre Silva, passando pelo edifício sede da gloriosa Associação Cearense de Imprensa - ACI, na esquina com Floriano Peixoto, erguido com muita luta pelo mesmo Perboyre que empresta o nome ao logradouro.


PRÉDIO SEDE DA ACI: LEGADO DE PERBOYRE

Obviamente fui merendar pastel de carne (a azeitona do pastel tem caroço) com caldo de cana na tradicional Leão do sul.



Ao sair da mercearia, a Praça do Ferreira, saudosista e contemporânea ao mesmo tempo, estava aos meus pés com sua coluna da hora e seus jardins. À minha esquerda, a Farmácia Oswaldo Cruz, com sua fachada, mobiliário e muitas lembranças doutros tempos. E pensar que ameaçaram fechá-la  há pouco tempo... Vizinho, a tradicional MILANO, loja de roupas masculinas.




EDIFÍCIOS LOBRÁS E CINE SÃO LUIZ

Ainda à esquerda, o Edifício Lobrás, também projeto de meu pai.  Na sequencia, o Edifício do Cine São Luiz e o do Excelsior Hotel.

EXCELSIOR HOTEL

No fundo, por trás da onipresente Coluna da Hora, avistei o edifício do Hotel Savanah, onde homens de negócios se hospedavam com requinte, e o prédio da Sul América. À direita, a Caixa Econômica.

SAVANAH E SUL AMÉRICA: MAIS DOIS EDIFÍCIOS
REVERENCIAM A PRAÇA DO FERREIRA

A TRADICIONAL CAIXA
                        
Continuando pela Floriano Peixoto, passei pelo Museu do Ceará e o Palácio do Comércio, que passou por recente restauro completo. 



MUSEU DO CEARÁ

Entrei no hall do edifício onde funcionou a Livraria Arlindo, da qual ainda conserva os antigos armários e prateleiras de madeira. A porta de acesso às escadas é do tipo pantográfica, e há um vazio no centro do hall até o último andar, com corredores ao seu redor. Além de tudo isso, um cheiro de nostalgia no ar.

HALL DE ENTRADA ONDE FUNCIONOU A LIVRARIA ARLINDO
FACHADA DO PALÁCIO DO COMÉRCIO 


Saindo, ainda passei pelo prédio dos Correios, já olhando os ponteiros do relógio, que pareciam avançar mais rapidamente que minutos atrás. Fim de percurso, fim de passeio.

PRÉDIO DOS CORREIOS

Depois que apanhei o carro num tenebroso edifício-garagem, passei em frente à Sé, ao Paço do Bispo, à Fortaleza da 10ª Região Militar, ao Passeio Público, Santa Casa, Emcetur e Estação Ferroviária, mas esse vai ser outro passeio...

... E tudo isso por apenas R$ 10,70 e uma hora de meu tempo vadio, com direito a estacionamento, caldo de cana e pastel.


Pedro Altino Farias, em 24/01/2013


ATENÇÃO:
Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº 9.610 de 19/02/1998. Não copie, reproduza ou publique sem mencionar os devidos créditos. 


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Entre Dois Mundos



Aquele lugar ficava entre dois mundos. Quem chegava não entendia o porquê da irritação e angústia dos “antigos”, mas logo que se tornava um deles, sabia perfeitamente as causas e... Consequências.

Ali não era ruim, nem bom. Tudo era estável e previsível. Até demais. Ocorre que a essência do ser humano é desafiar, questionar, lutar. Apenas sobreviver, como acontecia ali, equivale a uma punição, uma sentença de morte lenta, gradual e impregnada de tédio.

O que deixava todos à beira da loucura era essa previsibilidade, a falta de perspectiva de mudança. Para melhor ou para pior, que fosse, mas que houvesse possibilidades de eventuais mudanças. O novo traz junto com ele o vigor, o brilho no olhar, o pulsar apressado do coração. O “mesmo” nada traz que valha a pena. Ele representa, de forma simultânea, passado, presente e futuro como uma linha reta e gelada no tempo.

Guerras e paixões acontecem por causa dessa inquietude do homem. Ideias brilhantes também, mas como fazer algo de novo naquele lugar? Como ir contra toda aquela grandiosa inércia?

Em determinado momento, ele passou a entender com exatidão toda a irritação interior, angústia e pesar dos “antigos” que habitavam aquele lugar, pois acabara de se tornar um deles. Após muitas reflexões, chegou a uma dramática conclusão: estava onde estava em consequência única e exclusiva de seus próprios atos e pensamentos. E pior, não havia possibilidade de arrependimento ou penitência, já que tudo ali estava definitivamente definido... Pelos menos até enquanto ele assim desejasse.


Pedro Altino Farias, em 20/06/2012


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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Embriaguez



Ei, rapaz!! Não leva meu copo ainda... Tenho mais uma saideira a tomar.
Sei que estou com a roupa amarrotada pelo dia de trabalho; e a fisionomia, pela vida...
Mas a saideira tenho que tomar.

Ei, rapaz, não te preocupes, vais receber os teus.
Não sou vagabundo,
Estou  precisando apenas de um pouco da paciência alheia...

Ei, rapaz!! Não conta aos outros da minha embriaguez.
Não me orgulho disso,
Mas se contares, problema teu!!


Pedro Altino Farias, em 01/11/2012


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