terça-feira, 5 de abril de 2011

Aconteceu em Florença



Florença: berço do Renascimento, cidade monumento da humanidade, cheia de charme e vida. Naquele dia resolvemos, eu e minha mulher, fazer diferente. Ao invés de emendar o dia com a noite, tiramos um breve cochilo após o almoço para darmos uma “esticada” depois.




Saímos do hotel ao fim da tarde sem destino certo, perambulando pela cidade. Sorvetes, doces, dois cálices de vinho. Nessa época a noite em Florença teima em não chegar, obrigando a tarde a se prolongar por mais algum tempo, colorindo o céu com um azul diferente, ao mesmo tempo intenso e calmo.




Caminhamos sem a atenção do dia, quando cada detalhe dessa bela cidade é observado. Atravessamos o rio Arno pela ponte Carraia. Voltamos. Entramos numa viela, desembocamos numa praça. Ficamos ali um pouco, vendo as pessoas, os prédios, o ar de Florença.




Em algum outro lugar da cidade um artista popular saiu de casa para tocar na rua e arrecadar uns trocados. Instalou-se com seu equipamento modesto bem no meio da ponte Vecchio. Tudo arrumado, começou a cantar, atraindo pessoas de todas as idades, línguas, costumes. Todos ali, naquele magnífico fim de tarde, unidos pela música. Uma festa!




Em nova investida chegamos também à ponte Vecchio. As vitrines das joalherias exclusivas que ocupam parte da ponte chamavam atenção. Ofuscavam de tanta luz e explodiam em brilho, ainda sob um céu de azul estranho. Foi quando avistamos o artista popular bem no meio da ponte a entoar canções. Resolvemos parar um pouco para vê-lo.




Recostamo-nos no guarda corpo de pedra da ponte. O cantor havia terminado uma música e escolhia a seguinte, foliando uma pasta preta já desgastada. Passaram-se alguns instantes. Ouviam-se vozes e risos. Florentinos passavam apressados de um lado para outro, talvez estranhando tanto movimento por algo tão banal para eles.




Quando soou a primeira nota fez-se o silêncio. Então ouvimos, em italiano: “O que será que será, que andam suspirando pelas alcovas...”. Que coincidência! Ficamos ali, estáticos, ouvindo a canção que tanto fala aos nossos sentidos. Ao fim da música quis me aproximar e falar alguma coisa ao cantor anônimo, elogiar, mas ele emendou outra música e depois mais outra. Seguimos nosso caminho, não sem antes deixarmos nossa contribuição em retribuição a esse momento único que ele nos proporcionara.




Depois jantamos num simpático restaurante com um bom vinho a acompanhar nossa conversa. Enquanto conversávamos, brincávamos com o pessoal da casa, e o tempo passou. Fomos os últimos a sair. A essa altura o salão já estava vazio e à meia luz, mas a cortesia italiana ainda se fazia presente. Fomos caminhando sem pressa pelas ruas de uma Florença agora mais sossegada, cantarolando dentro de nossos corações para toda a cidade ouvir: “O que será que será, que andam suspirando pelas alcovas...”






Altino Farias