segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Aconteceu no Carnaval


Aconteceu no Carnaval

Raúl adorava uma boa farra. Às vezes dava uma fugida discreta, outras nem tanto. Sua doce mulher era tida como santa por aceitar suas traquinagens. Ela sempre dizia que na próxima não o perdoaria, mas acabava perdoando. Sempre.

Nos dias de carnaval ele sempre encontrava uma forma de dar uma escapada e curtir um pouco a festa pagã, mas esse ano seria diferente. Sua mulher havia combinado com parentes e amigos de passar os dias de folia no sossego de um pequeno sítio que arranjaram emprestado.

O sítio era, na verdade, quase um terreno nu. Algumas poucas fruteiras, Uma pequena casa de alvenaria, uma boa cacimba, e mato, muito mato. A energia vinha de uma gambiarra puxada de um vizinho rabugento, que vivia ameaçando cortar o fornecimento ao menor sinal de barulho.

A casa comportava, teoricamente, quinze pessoas, mas a lista já ia para mais de trinta, entre mulheres, crianças e marmanjos, que levariam Dreher e cachaça para beber. Para sonhar, uísque e cerveja. K-Suco, panelada, buchada, frango, farofa, manga e banana completavam o cardápio do grupo.

O pessoal se organizou como pôde, formando uma verdadeira caravana de Chevettes, Belinas, Del Reys e Fuscas. Na última hora Raúl conseguiu uma Brasília emprestada, fato que deixou sua mulher muito feliz, pois viajariam sozinhos ao invés de irem na Kombi de um compadre, onde o filho do casal já tinha lugar garantido.

Desde que decidiram passar os dias de folia nesse sítio, Raúl pensava numa forma de dar uma fugidinha, mas a tal propriedade era no meio do nada, quase impossível arrumar uma desculpa para sair de lá sozinho. O tempo passava rápido, e ele cada vez mais angustiado. Sem solução para seu caso. Enquanto pensava em mil artimanhas para escapulir, a esposa o pressionava com típicas chantagens emocionais em doses hemeopáticas.

Enfim chegou o dia. A maioria já havia seguido para o sítio na sexta, mas como Raúl trabalhava no sábado, teve que sair já de tarde. Ele e sua doce esposa seguiam na Brasília quando ela, muito amorosa, pediu-lhe que parasse numa padaria a fim de comprar mais algumas coisinhas. Ao parar o carro Raúl perguntou à mulher, que estava exercendo forte marcação sobre nele: “Quer que eu entre na padaria com você!?”, “Não benzinho, espere aqui”, respondeu ela com a voz mais meiga a apaixonada com a qual alguém poderia falar.

“É agora ou nunca!”, pensou ao ver a mulher entrando na padaria e sumindo de sua vista. E foi embora, sem nem ao menos olhar para trás. Dos dias que se seguiram ninguém tem notícia. Sabe-se, apenas, que na quarta feira de cinzas Raúl estava numa ressaca moral sem fim, e por isso emendou na gandaia até a segunda-feira seguinte, quando voltou para casa sem tostão, cansado e desconfiado. A mulher dele estava furiosa e quase não o perdoa desta vez. Quase!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Moça da Revista




Tinha mania de guardar revistas. Economia e política interessavam no cotidiano. Carros e mulheres interessavam também, mas por gosto pessoal. Como resultado foi juntando umas e outras ao longo dos anos para repassá-las calmamente, quando um dia lhe sobrasse tempo. Tudo começou por volta de 1980, fazendo-o acumular razoável volume até a virada do século.

Nesta época, com pouco espaço disponível e a crescente digitalização de publicações passadas, pensou em desmontar seu brinquedo de quando se aposentasse. Mas resistiu. Quem tem apreço à leitura não renuncia ao manuseio do papel impresso. Livros e revistas antigos guardam em seu corpo marcas indeléveis do passado. Anotações manuais à margem das páginas, aquela folha amassada, um pingo de bebida que enrugou o papel. “Ainda não”, pensou.

Ocorre que, depois dos quarenta e poucos, ganhou a companhia de uma renite alérgica de tirar a paciência. Impressos guardados por longo período são morada ideal para fungos e acúmulo de fina poeira doméstica, tiro certo para desencadear uma reincidência da alergia. Fatores somados, chegou a hora de desmantelar a estante de fero.

Foi fazendo aos poucos, apesar de sempre sofrer efeitos colaterais. Levava um lote de revistas para a sala, e repassava as páginas de forma rápida e continuada. Parecia fotografar na memória cada uma antes do adeus final. Ao deparar com suas favoritas, dava-se ao direito de demorar um pouco. Uma entrevista com Paulo, Brossard, a caça ao boi gordo durante o plano cruzado, as “travessuras” do Delfim, a morte trágica de Tancredo, as crônicas do Veríssimo, as alegrias do esporte... Tudo desfilava perante seus olhos, às vezes lacrimosos.

Quando chegou a vez das especiais, de automóveis e belas mulheres, diminuiu o ritmo. Queria tudo mais nítido antes da separação. Divertia-se lendo sobre carros ainda segredo à época da publicação, hoje já fora de linha há anos. Equipamentos de última geração, que atualmente provocam risos pela obsolescência, eram descritos com entusiasmo e ineditismo. Uma pena, mas o adeus era necessário.

Por fim, as de mulheres. Muitas foram suas namoradas sem que tivessem sabido. Noites deslumbrantes, passeios em carros esporte, paisagens fantásticas, champanhe, música... Ah, sonhos! Certa vez, o filho dele, contando então uns dez anos, aproximou-se e conversaram entre um espirro e outro. Ele mostrou ao filho alguns exemplares que deixara por último. Eram as preferidas e mereciam mais uma vista.

Interessado, o menino escutava e observava o pai, talvez tentando aprender algo novo, talvez achando o pai o máximo. Foi quando se depararam com uma mulher monumental. No pôster central de uma publicação de meados de 1980, pele branca como a neve, cabelos longos, volumosos e negros, olhos esverdeados. Tudo na medida perfeita. Olhar, boca, coxas, seios e uma leve penugem encobrindo seus segredos... Uma miragem! Então o menino, maravilhado, já exercitando seus instintos de macho, perguntou:
- Papai, quem é essa moça?
O pai, com a sensibilidade própria dos homens, respondeu de pronto:
- Sei lá! Só sei que hoje em dia ela é uma véia!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com