quarta-feira, 19 de novembro de 2014

INESPERADAMENTE...




De repente, o Inesperado chegou. 


Nem um ruído, nem um lampejo, nem um sobro o anunciou.
Então, ele tomou forma. A forma surpreendente de um imenso vazio. Vazio no volume, na cor, na densidade.

Silencioso e sorrateiro, o Inesperado preencheu espaços, vontades e intensões, aprisionando passado, presente e futuro com sua absoluta surpresa e grandiosa nulidade.

Assim como veio, o Inesperado se foi. E não deixou rastro, nem odor, nem saudade.


Pedro Altino Farias, 21/03/2014

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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Insisto, Desisto


Insisto, desisto, acordo, volto a dormir e sonho de novo. Amanhece e não acredito que cheguei a desistir. Enfureço-me. “Covarde!”, penso. Ainda bem que insisti em sonhar novamente. A luz da manhã, no entanto, irrompendo através das finas pálpebras, impediu que pudesse ocorrer nova desistência. Melhor assim.

Um sonho interrompido, uma história sem fim, suspensa. Melhor assim, sem mais surpresas, aflições ou alegrias? A claridade cessou uma sequencia de sons, imagens e atos. Seguiu-se um dia inteiro para refletir e nova noite se aproxima. Novos sonhos. Mas é preciso sonhar rápido, senão vem a luz e...


Pedro Altino Farias, 28/10/2014


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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Eu só bebo vinho!


Final dos anos 70, adolescentes entre os quinze e dezessete anos, aquela turma de uns oito a dez já adorava uma boa cachaçada. Vez por outra iam passar o fim de semana numa usina de açúcar, próxima cerca de setenta quilômetros da capital. Naquele tempo, distância suficiente para que se transportassem a outro mundo.

Sempre que chegavam à cidade tomavam o Bar S. João como base, cujo dono, obviamente, se chamava João, um sujeito moreno, estatura mediana, cabelos e farto bigode pretos. O bar, bastante simples como todos do lugar, resumia-se a balcão e sinuca.

Certa vez a turma estava tomando umas ao balcão, esperando a hora de dar uma volta na praça, quando adentrou no recinto um senhor aparentando idade um pouco avançada. Meio cego e meio surdo, trajava roupas simples, usava um bigodinho branco e fino e trazia consigo um grande saco de estopa com alguma coisa dentro, pois exibia certo volume, embora aparentemente leve.

Um dos amigos perguntou ao velho: “Tudo bem? O senhor aceita uma cachacinha?”, ao que o velho respondeu: “Eu só bebo vinho!”.  E o amigo mandou Seu João servi-lhe um copo de vinho, que o velho verteu de uma só vez. “Estava bom?”, quis saber o amigo. “Eu só bebo vinho!”, respondeu o velho, sem se importar com a pergunta. “Seu João, mais um copo aqui para o cidadão, por favor!”, solicitou o bondoso amigo. Novamente o velho tomou tudo de um só gole. “Eu só bebo vinho!”, proclamou ao final do último gole, copo vazio no balcão, lambendo os beiços.

A cidade era berço dos mais conhecidos alambiques da região, fazendo com que a cachaça abundasse a tal ponto que quase nada valia. Assim, o vinho servido ao velho senhor, mesmo barato e ordinário, excedia em muito o valor da caninha tradicional.

Vendo que o velho tomava vinho como quem bebe água, e preocupado com a conta a pagar ao final, outro integrante da turma alertou o amigo: “Para de encher o bucho desse velho de vinho, senão não vamos ter grana para pagar a conta!”. Mas o amigo insistiu: “Vai mais um vinhozinho aí, mestre?”. O velho assentiu. “Seu João, mais um copo de vinho aqui para o senhor!”, solicitou, piscando o olho e ordenando que desta feita Seu João enchesse um copo de cachaça, o qual foi servido ao velho, que entornou goela abaixo seu conteúdo sem cerimônia da mesma forma que antes fizera com o vinho.  Ao final, copo vazio no balcão, ainda passando a mão na boca, o velho exclamou mais uma vez: “Eu só bebo vinho!”.

Mais um copo de cachaça foi servido, mais uma vez aquele velho senhor bebeu tudo de um só gole, pôs o copo vazio sobre o balcão, passou a mão nos lábios e exclamou: “Eu só bebo vinho!”, e fez gesto de quem queria mais. Nessa hora os garotos perceberam que poderiam ultrapassar a fronteira da brincadeira para a tragédia e pararam.

O velho ficou por ali, chegou até a uma das portas do bar, deu uma olhada no movimento da rua, sentou-se num batente com seu saco de não sei o quê no colo, estirou-se na calçada e dormiu profundamente para desespero dos garotos, que ficaram ali, velando o sono do velho, com receio de que ele passasse mal e partisse dessa para outra.

Depois de incontáveis e angustiantes minutos, o velho “ressuscitou”. Alívio geral. Hora de esquecer essa brincadeira e ir paquerar na praça principal da cidade, onde uma pequena plateia feminina assistia à novela das oito na televisão pública. Já se afastavam quando o velho homem, enfim se levantou e bradou em alto e bom som: “Eu só bebo vinho!”.


Pedro Altino Farias, em 04/11/2014


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