terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Crônica de Natal - A Cesta Vazia




Empresário de sucesso, era figura de destaque na sociedade e no mundo dos negócios da cidade. Tinha modos finos à mesa de restaurantes igualmente finos, e maneira rude e fria de tratar as pessoas.

Ano após ano, no mês de dezembro, sempre recebia muitas cestas de Natal enviadas por parceiros de negócios, políticos, magistrados e até amigos. Então, mandava sua secretária separar o que lhe interessava: bons uísques, vinhos finos, champanhe, patês, castanhas; e dar fim no que sobrasse, sem se preocupar com o destino daqueles produtos. Frio e rude como sempre.

Mas naquele ano foi diferente. Em meio a muitas cestas repletas de artigos nobres, recebeu uma vazia. Completamente vazia. Ficou intrigado. Pela primeira vez em muito tempo procurou o cartão do remetente, que sempre desprezava. Não havia cartão, somente aquela cesta insolitamente vazia. Aborreceu-se. Quem teria a ousadia de enviar-lhe uma cesta de Natal vazia? Noutra hipótese, quem teria o desplante de subtrair todo o seu conteúdo, deixando de resto apenas a própria cesta? Seria uma brincadeira de mau gosto? Alguém queria ridicularizá-lo? Irritou-se mais ainda ao pensar detidamente sobre o fato.

 

Os dias que antecedem ao Natal são corridos para todos, e aquele homem tinha sua atenção nos negócios a fechar para cumprir a meta anual da empresa, que se misturavam a muitos compromissos sociais de sua atribulada agenda pessoal. Embora vivendo esse turbilhão, não parava de pensar na cesta vazia. Quem a enviou? Por quê? Quem lhe subtraiu o suposto precioso conteúdo? Por que deixar uma cesta vazia chegar ao destinatário? Ainda irritado, não encontrou respostas.
 

Telefonemas, apertos de mão e sorrisos prontos. Num breve intervalo entre uma coisa e outra, veio-lhe um pensamento: a cesta estava vazia propositadamente para que ele mesmo a preenchesse e enviasse a alguém. Ora, como não havia pensado nisso antes!? Mas... Preenchê-la com o que? Enviar a quem?

Receber é fácil. Dar impessoalmente, também. Receber e dar algo fazendo com que um abraço verdadeiro e um olhar amigo completem o significado desses atos, porém, é mais difícil.

Então, aquele homem rude e frio no tratar com pessoas deletou a lista de cestas de Natal que mandara sua secretária elaborar para aquele ano e pôs-se, entusiasmado, a elaborar uma nova. Uma não, três! 

Na primeira lista estavam entidades de assistência a necessitados. Procurou saber das que passavam por maior dificuldade e conversou pessoalmente com seus gestores, identificando a melhor forma de prestar-lhes auxílio. Lista fechada, tudo foi cuidadosamente providenciado. O carinho com que tratou esse assunto não impediu seu anonimato perante o grande público, num gesto elegante e inédito para ele.

Na segunda lista, buscou na memória amigos de verdade que foram ficando pelo meio de sua caminhada rumo ao mundo gelado e tenso no qual vivia. Garotos do bairro, do futebol na rua, colegas de classe, companheiros de faculdade, parceiros do início da vida profissional, das brincadeiras de bar. Impossível, mas a preocupação foi grande para não esquecer ninguém. Com ajuda da família preparou lindas cestas, muito sortidas e enfeitadas com laços vermelhos de cetim, comentando sobre cada um daqueles amigos perdidos no tempo à medida o trabalho avançava. O habitual cartão de congratulações padrão da empresa, que acompanhava suas cestas até então, foi substituído por outro, com mensagem pessoal escrita de próprio punho, encerrada sempre com palavras de amizade, carinho e otimismo.


A terceira lista foi para “aqueles” que fazem da vida apenas um imenso balcão de negócios. A maioria gente influente: empresários de sucesso, profissionais liberais famosos, políticos, magistrados, funcionários públicos de altíssimo escalão. Para eles enviou... Cestas vazias, como a que ele próprio recebera. Agora o anonimato, em vez de remeter à humildade e solidariedade, instigava uma reflexão: “UMA CESTA VAZIA? MAS QUEM SE ATREVEU A ENVIAR UMA CESTA VAZIA PARA MIM?”, pensariam eles num primeiro momento. Depois, que sabe...

Com a mente leve dormiu naquela noite de Natal um sono bom e profundo. Talvez quisesse sonhar com Papai Noel novamente depois de longos anos, embora não se julgasse merecedor de tal graça. Na manhã seguinte foi acordado cedo pela esposa e filhos, todos ao seu redor, na cama do casal, como não acontecia há muito. Olhou em volta e viu aquela cama como uma grande cesta de Natal cheia de presentes valiosos e amados e, numa oração silenciosa, agradeceu ao misterioso remetente daquela cesta vazia. Parece que Bom Velhinho, enfim, o havia visitado.



Um Feliz Natal a todos!
Que suas “cestas” estejam sempre 
repletas de amor e carinho.



Pedro Altino Farias, em 16/12/2013.
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2 comentários:

  1. Prezado Altino,
    Lindo seu escrito. Persuasivo. Contundente. Presente melhor para o Natal mão poderia haver.
    Parabéns. E muitas bençãos.

    Carlos Roberto Martins Rodrigues

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  2. Lembrei-me de "Um Conto de Natal" de Charles Dickens. Um excelente Natal ao amigo e seus amados.

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