terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Moça da Revista




Tinha mania de guardar revistas. Economia e política interessavam no cotidiano. Carros e mulheres interessavam também, mas por gosto pessoal. Como resultado foi juntando umas e outras ao longo dos anos para repassá-las calmamente, quando um dia lhe sobrasse tempo. Tudo começou por volta de 1980, fazendo-o acumular razoável volume até a virada do século.

Nesta época, com pouco espaço disponível e a crescente digitalização de publicações passadas, pensou em desmontar seu brinquedo de quando se aposentasse. Mas resistiu. Quem tem apreço à leitura não renuncia ao manuseio do papel impresso. Livros e revistas antigos guardam em seu corpo marcas indeléveis do passado. Anotações manuais à margem das páginas, aquela folha amassada, um pingo de bebida que enrugou o papel. “Ainda não”, pensou.

Ocorre que, depois dos quarenta e poucos, ganhou a companhia de uma renite alérgica de tirar a paciência. Impressos guardados por longo período são morada ideal para fungos e acúmulo de fina poeira doméstica, tiro certo para desencadear uma reincidência da alergia. Fatores somados, chegou a hora de desmantelar a estante de fero.

Foi fazendo aos poucos, apesar de sempre sofrer efeitos colaterais. Levava um lote de revistas para a sala, e repassava as páginas de forma rápida e continuada. Parecia fotografar na memória cada uma antes do adeus final. Ao deparar com suas favoritas, dava-se ao direito de demorar um pouco. Uma entrevista com Paulo, Brossard, a caça ao boi gordo durante o plano cruzado, as “travessuras” do Delfim, a morte trágica de Tancredo, as crônicas do Veríssimo, as alegrias do esporte... Tudo desfilava perante seus olhos, às vezes lacrimosos.

Quando chegou a vez das especiais, de automóveis e belas mulheres, diminuiu o ritmo. Queria tudo mais nítido antes da separação. Divertia-se lendo sobre carros ainda segredo à época da publicação, hoje já fora de linha há anos. Equipamentos de última geração, que atualmente provocam risos pela obsolescência, eram descritos com entusiasmo e ineditismo. Uma pena, mas o adeus era necessário.

Por fim, as de mulheres. Muitas foram suas namoradas sem que tivessem sabido. Noites deslumbrantes, passeios em carros esporte, paisagens fantásticas, champanhe, música... Ah, sonhos! Certa vez, o filho dele, contando então uns dez anos, aproximou-se e conversaram entre um espirro e outro. Ele mostrou ao filho alguns exemplares que deixara por último. Eram as preferidas e mereciam mais uma vista.

Interessado, o menino escutava e observava o pai, talvez tentando aprender algo novo, talvez achando o pai o máximo. Foi quando se depararam com uma mulher monumental. No pôster central de uma publicação de meados de 1980, pele branca como a neve, cabelos longos, volumosos e negros, olhos esverdeados. Tudo na medida perfeita. Olhar, boca, coxas, seios e uma leve penugem encobrindo seus segredos... Uma miragem! Então o menino, maravilhado, já exercitando seus instintos de macho, perguntou:
- Papai, quem é essa moça?
O pai, com a sensibilidade própria dos homens, respondeu de pronto:
- Sei lá! Só sei que hoje em dia ela é uma véia!


Altino Farias
altino.frs@gmail.com

Um comentário:

  1. Pedro,
    Recordar é viver é tmbém guardar na memória...
    Concita

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