terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Copo de Cada Um




Certo dia estávamos, eu e mais uns bons amigos, em divertido papo num barzinho que frequentamos costumeiramente. De relance, notei que numa mesa próxima havia um sujeito sozinho, com o olhar longe e, talvez, o pensamento mais distante ainda. Ele, debruçado exageradamente por sobre a mesa, segurava um copo baixo e largo com as duas mãos, formando com a mesa e a cadeira uma só figura. Olhei para o copo dele, quase cheio, e intuí, pela cor e gelo, que continha uma dose de uísque. Se dos baratos ou mais caros, não saberia dizer.

Voltei a atenção para as conversas de nossa mesa novamente. Futebol, política, economia, assuntos variados. Passou o tempo. Muitas doses e muitas garrafas foram esvaziadas pela turma. E por mim também. Quando percebi, notei que o homem da dose e do copo baixo e largo da outra mesa ainda estava lá. Do mesmo jeito, na mesma posição, com o mesmo olhar longe e pensamento distante. Olhei novamente o copo com um olhar mais atento e sensível e perguntei-me o que haveria de fato dentro dele.

Pensando nesse sentido, logo percebi que em nossos copos, dos integrantes da mesa, havia bem mais que a habitual cerveja, uísque ou cachaça; havia também prazer, amizade, alegria, companheirismo, sonhos, lembranças passadas, planos futuros. E no copo do sujeito da mesa ao lado, o que haveria?

Lancei meu olhar mais uma vez para ele, que se curvara ainda mais olhando pra o fundo do copo, agora cheio de uma dose já aguada, abandonada por seus pensamentos longínquos. E, de novo, perguntei-me querendo adivinhar o que haveria naquele copo: mágoas profundas, cicatrizes doloridas, feridas ainda abertas, preocupações... Meu Deus, pensei, quantas coisas cabem dentro de um copo já cheio!

Chegou a hora de irmos embora e o sujeito, sempre só, continuava lá, quase imóvel, encurvado por sobre a mesa, segurando seu copo baixo e largo com as duas mãos, olhando para o fundo e pensando em algo que lhe doía muito, por certo. Antes de sair passei ao seu lado, parei e, instintivamente, o cumprimentei apalpando seu ombro, como quem diz: “Eu sei de suas dores e sinto muito”. Ele correspondeu silenciosamente, pressionando sua mão sobre a minha fazendo-me entender que dizia simplesmente: “Obrigado, obrigado por saber sobre meu copo”.


Pedro Altino Farias


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