quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Em Algum Dia do Passado



O dia amanheceu de sol, e uma música de “Os Incríveis” ressoava vindo de alguma radiola da vizinhança. Foi um dia comum, nada de espetacular. Despertei meio apressado, pois tinha que ir à “rua” resolver umas coisas de casa, mas logo no asseio matinal tive uma pequena chateação, pois a pasta de dentes que havia no banheiro era Colgate, aquela de listras vermelhas, ao invés da habitual Kolynos, mas tudo bem, nada como um bom banho para começar bem o dia. E é sempre prazeroso abrir uma nova embalagem de sabonete Phebo, quando aquele delicioso e inconfundível aroma se espalha no ar. E foi o que aconteceu nessa manhã.

No café matinal, partí um bom pedaço do pão semolina, que estava novinho, o qual untei generosamente com manteiga Faisão. Tão simples quanto delicioso. Ao café misturei um pouco de leite Cila recém fervido, aliás, neste dia o leite não deu para todos em casa, pois uma das garrafas de vidro no qual ele vem envasado quebrou, e ficamos com apenas uma disponível.

Vesti rapidamente uma calça de tergal, combinada com uma camisa de “fio da Escócia” e caminhei rumo à esquina de minha casa, onde fica a parada do “13 de Maio”, linha de ônibus da Empresa São José de Ribamar. Paguei a passagem com “passe de estudante”, e fui organizando no trajeto as tarefas que iria realizar, apesar dos solavancos constantes devido ao calçamento de pedras toscas das ruas do bairro por onde o coletivo transitava.

Chato esse negócio de banco só abrir às nove da manhã, porque tinha que ir ao Banco Nacional (agência da Major Facundo) ver se havia chegado uma ordem de pagamento vinda de Recife, e o restante de minhas obrigações dependia de poder sacar esses “cruzeiros”. Mas eu estava otimista, pois a ordem havia sido enviada por telex, muito mais rápido que o meio convencional, e, se corresse, daria tempo de fazer tudo que estava programado.

Depois de uma certa espera no balcão de atendimento, enfim, veio a confirmação. Então me dirigi ao caixa com um cheque de minha mãe para efetuar o saque e já realizar uns pagamentos: Cotelce, Capemi e uma prestação da Domus. Tudo certo!!

E vamos às outras tarefas: passar na “Hora Certa” (Major Facundo c/ Guilherme Rocha) para deixar um relógio automático no conserto, passar no “Zás Traz” (Liberato Barroso) para apanhar uma bolsa da qual foram trocados uns ilhoses, ir na “Casa Rogério” (também na Liberato Barroso) comprar botões. fecho ecler e agulha para máquina de costura, tudo conforme amostras que minha mãe mandou. Depois fui cortar o cabelo no “Lord”. Claro que uma passadinha na Mesbla e Lobrás eram obrigatórias, assim como merendar um caldo de cana com pastel na “Leão do Sul”. Quando era menino e ia à “rua” com a mamãe, ela sempre passava na “Libonense” para lanchar e comprar alguma coisa gostosa para levar para casa, mas eu sempre preferi a “Leão do Sul”.

Terminadas as tarefas lá fui eu ao “Parque das Crianças” pegar o ônibus de volta, mas eis que um “13 de Maio” saiu quando eu ia chegando ao ponto. Como já estava meio tarde, e eu ainda iria à aula, resolvi pegar um “Pio XII”, mesmo descendo numa parada mais longe de casa um pouco. Enquanto conferia o troco das despesas no ônibus, ouvia o programa do Zé Lisboa, na Rádio Assunção, que repetia à exaustão o bordão “Relógio que atrasa não adianta, é roskof !!”, sempre que anunciava a hora certa.

Cheguei em casa, prestei contas com a mamãe, tomei um banho apressado e almocei. O almoço foi posta de cavala frita. A cavala estava fresquinha, pois foi comprada naquela mesma manhã, na porta de casa, como de hábito, a um senhor que vende pescado fresco pelas ruas do bairro.

Nem bem engoli o almoço, já peguei meus livros e fui para a parada do “Circular”. Durante o trajeto, com o estômago cheio, o calor e o sacolejado do ônibus, batia uma sonolência medonha, mas que logo passava quando minha parada de descida se aproximava, na Antônio Sales com Barão de Studart, próxima ao Romcy. De lá ia, a pé, até o Christus, onde, neste dia, assisti a aulas de matemática (Carlão), física (Zé Marques), literatura (Costinha) e Inglês (Valéria), fazendo o mesmo percurso de volta ao fim da tarde... Só que com o “Circular” lotadaço.

Depois do jantar, descansado, liguei para a namoradinha nova. Ela estava bem humorada e espirituosa, e disse que havia puxado a extensão do telefone da sala para o quarto, e estava deitada em sua cama com as pernas para cima, apoiadas num almofadão. Fiquei do lado de cá me deliciando, imaginando a cena enquanto conversávamos, e o papo foi se estendendo até que minha irmã veio reclamar da conversa demorada, pois estava precisando ligar também. Em nome da boa convivência no lar, me despedi e desliguei com um beijinho, liberando a linha telefônica.

Para terminar o dia me debrucei frente à TV para assistir à novela “Os Ossos do Barão”, que tem um interessante enredo sobre o sucesso de emigrantes italianos e a decadência das famílias paulistanas descendentes dos barões do café. Depois disso, dei comida ao Duque, meu vira-lata de estimação, fiz-lhe uns afagos e me recolhi. Não sem antes pedir “a benção, mamãe!!”. No meio da noite ainda tiver que me levantar e fechar as venezianas da janela, pois corria um vento cortante e frio naquela noite de fins de julho...

Altino Farias
altino.farias@yahoo.com.br

2 comentários:

  1. Pedrinho,

    Que tempo bom! Compartilho com você todas essas lembranças. O 13 de Maio era o meu carro particular e a Lobrás a minha loja predileta.

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  2. Pois é... Tempo bom, recheado de coisas simples e prazerosas. Que os tempos mudem, mas também que nos fiquem essas lembranças.

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